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Sombra Noturna
(Nigth Shadows)
Srie Nigth Tales 02
Nora Roberts




Prlogo

Percorria a noite. Sozinho. Inquieto. Vestido de negro, mascarado, era uma sombra entre as sombras, um sussurro entre os murmrios da escurido. 
Sempre estava atento queles que atacavam aos dbeis e vulnerveis. Desconhecido, invisvel, no desejado, caava os  caadores na selva que era a cidade. Movia-se 
como peixe na gua pelos espaos escuros,  becos sem sada e  ruas violentas. Como a fumaa, deslizava-se pelos telhados altos e os pores midos. 
Quando o precisavam, era como o trovo, puro som e fria. Depois restava apenas o esplendor, o eco ptico que deixava o relmpago depois de golpear a cidade.
O chamavam Nmesis e estava em todas as partes. 
Percorria a noite,  ouvindo o som do riso, o jubiloso estrpito das celebraes. E era convocado pelos gemidos e pelas lgrimas dos solitrios e as splicas desvalidas 
das vtimas. Noite aps de noite se vestia de negro, ocultava a face e se adentrava nas ruas selvagens e escuras. No pela lei. Esta era facilmente manipulada por 
aqueles que a desdenhavam. E com freqncia manipulada por aqueles que afirmavam defend-la. Ele o sabia. E no podia esquecer. 
Quando caminhava pelas ruas, fazia-o pela justia... a dos olhos vendados, que no discriminava. 
Com a justia, s podia ter castigo justo e o equilbrio na balana. 
Como uma sombra, observou a cidade.


Captulo 1



Deborah ORoarke se movia com rapidez. Sempre tivera pressa em atingir seus objetivos. Os sapatos repicavam com agilidade  nas caladas rachadas de East  End, Urbana. 
No era o medo que a impulsionava a regressar a toda velocidade para seu carro, ainda que o East End fosse um lugar perigoso para uma mulher sozinha e atraente e 
em particular a noite. Era pelo jbilo do sucesso. Como ajudante do promotor  pblico, acabava de terminar uma entrevista com uma testemunha de um dos tiroteios 
que comeavam a ser uma praga em Urbana.
 Tinha  a mente absolutamente centrada na necessidade de voltar aa sua  sala para relatar a informao, para que as engrenagens da justia pudessem se por em marcha. 
Acreditava na justia, em todas as suas facetas  tenazes, pacientes e sistemticas. Os assassinos do jovem Rico Mndez pagariam por seu crime. E com alguma sorte, 
seria ela que levaria a acusao.
No exterior do edifcio em runas, onde acabava de passar uma hora pressionando dois jovens assustados para que soltassem a informao, a rua estava escura. Apenas 
duas lmpadas que se localizavam na proximidade funcionavam. A lua, solitria, contribua com um brilho singelo.  Ela sabia que as sombras que via nas portas estreitas 
eram bbados, mendigos e prostitutas. Em mais de uma ocasio havia se recordado que ela mesma poderia haver terminado em um desses tristes edifcios, se no fosse 
a firme determinao de sua irm de lhe dar um bom lugar, uma boa educao e  um boa vida.
Cada vez que Deborah levava um caso diante dos tribunais, sentia que pagava parte desta dvida.
Um das sombras de um beco gritou algo obsceno de forma impessoal. Seguiu-se uma risada feminina spera. Deborah s estava na Cidade h dezoito meses, mas sabia que 
no devia deter-se nem dar a entender que tinha escutado algo.
Com passos largos e decididos, se dirigiu at seu carro. Algum lhe prendeu pelas costas.
- Oi boneca, voc  um doce.
O homem era quinze centmetros mais alto que ela e magro  como um poste.
Na frao de segundo que mirou seus olhos vtreos percebeu que ele no estava apenas cheio de usque e sim de drogas que lhe davam uma grande agilidade em vez de 
atordo-lo. Com ambas as mos ela fincou a valise contra seu estmago. Ele grunhiu e afrouxou as mos. Deborah se soltou e correu, mexendo-se frentica buscando 
as chaves.
No momento que suas mos cerraram-se sobre elas na bolsa, o homem a segurou e cravou os dedos na gola de sua jaqueta. Ouviu quando o algodo se rompeu e voltou-se 
para bater-lhe no rosto. Foi quando viu a navalha, cujo ao brilhou um momento antes de lhe tocar a pele suave de seu pescoo.
- Te peguei.- soltou uma risada.
Permaneceu quieta, quase sem se atrever a respirar. Em seus olhos captava uma centelha de gozo perverso que jamais escutaria sua splica ou lgica. No obstante, 
manteve a voz baixa e serena.
- S tenho comigo vinte e cinco dlares.
Com a navalha encostada em sua pele, se aproximou com um gesto ntimo.
- Ei Boneca, voc tem muito mais que vinte e cinco dlares- cerrou a mo em torno de seu cabelo e puxou de uma vez com fora. Quando Deborah gritou, comeou a arrast-a 
at a parte mais profunda de um beco.  Vai, grita.- riu entre os dentes junto ao seu ouvido - Eu gosto quando gritas. Vamos.- lhe provocou um corte minsculo com 
a navalha- Grita.
Ela o fez, e o som ressoou pelas ruas escuras, reverbando entre os desfiladeiros dos edifcios. Os habitantes dos umbrais gritavam dando nimo... a seu atacante. 
Por trs das janelas em penumbra, as pessoas mantinham as luzes apagadas e fingiam nada ouvir.
Quando a empurrou contra a parede mida do beco, Deborah estava dominada por um pavor glido. Sua mente, sempre disposta e aberta, se bloqueou.
-Por favor -disse, sabendo que no serviria para nada-, no faa isso.
-Voc vai gostar -sorriu. Com a ponta da navalha, lhe cortou o boto da parte superior da blusa  Vai adorar.
Como qualquer emoo poderosa, o medo lhe agudizou os sentidos. Pde sentir suas prprias lgrimas, quentes sobre sua face, cheirar o hlito ftido de seu atacante 
e o lixo de dias que se acumulava o beco. Ante seus prprios olhos, pde-se ver plida e desvalida. 
Serei outra estatstica, pensou com a mente embotada. Apenas mais um nmero  entre a crescente quantidade de vtimas. 
Devagar, depois com mais fora, a ira comeou a queimar o escudo de gelo do medo. No se encolheria nem gemeria. No se renderia sem lutar. Foi nesse momento que 
sentiu a presso afiada das chaves. Seguiam em sua mo, encarceradas no punho rgido. Concentrada, empregou o polegar para sacar os extremos por entre os dedos 
rgidos. Respirou fundo, tratando de canalizar toda sua fora no brao. 
Justo neste momento, seu atacante pareceu elevar-se no ar, voar agitando os braos e aterisar sobre uns dos balde de metal cheios de lixo.
Deborah ordenou a suas pernas que corressem. Tal como lhe palpitava o corao, estava segura de que poderia chegar a seu carro, fechar as portas e arrancar o motor 
num abrir e fechar de olhos. 
Foi quando o viu.
Vestia todo de negro, uma sombra longa e delgada entre sombras. Erguia-se sobre a dependente armado com as pernas separadas e o corpo Temo. 
-Fica-te onde ests -ordenou quando ela deu um passo automtico  frente. A voz foi uma mistura de murmrio e rosnado. 
-Penso...
-No penses  interrompeu-a sem se preocupar em olh-a. 
No momento em que ela se crispava ante seu tom, o marginal se levantou de um salto, gritando, e brandiu a navalha em um arco mortal. Ante seus olhos aturdidos e 
fascinados, Deborah percebeu o reflexo de um movimento, um grito de dor e o rudo da navalha ao deslizar-se pelo cimento.
Antes que ela tomasse flego, o homem de negro recuperou a mesma postura de antes. A dependente estava de joelhos, gemendo e com as mos coladas ao estmago. 
-Isso foi... -procurou uma palavra no redemoinho de seu crebro-... impressionante. Ia... ia sugerir que chamssemos a polcia. 
Ele seguia sem prestar-lhe ateno enquanto sacava umas tiras de plstico do bolso e atava as mos e os tornozelos do homem que no deixava de gemer. Recolheu a 
navalha e apertou um boto. A lmina desapareceu com um baixo. S nesse momento se voltou para ela.
Notou que as lgrimas j se secavam nas bochechas da mulher. E apesar de sua respirao  entrecortada, no dava a impresso de que iria desmaiar ou  ser dominada 
pela histeria. De fato, viu-se obrigado a acolher sua serenidade. 
Com impessoalidade observou que era de uma beleza extraordinria. Sua pele era plida como o marfim sob uma manta revolta de cabelo negro. Suas feies eram suaves, 
delicadas, quase frgeis. At que encarassem seus olhos. Esses irradiavam uma dureza e uma determinao que contradiziam o fato de corpo esbelto reagir trmulo. 

Tinha a jaqueta rasgada e a blusa aberta revelando o suti de seda azul de uma combinao. Um contraste interessante com o traje severo e quase gritante.
Avaliou-a no como homem, sim como havia feito com outras inumerveis vtimas. O estremecimento inesperado e muito bsico que experimentou o inquietou. Essas coisas 
eram mais perigosas do que qualquer navalha.
-Est ferida? -perguntou baixinho e com ausncia de emoo, sem se afastar da escurido. 
-No. No -teria alguma marcas, tanto na pele como nas emoes, mas se preocuparia com elas depois-. S estremecida. Quero dar-te as graas por... -ao falar tinha 
avanado para ele. Sob a tnue luz de uma luz prxima, viu que levava o rosto mascarado. Abriu muito seus olhos azuis, brilhantes e eltricos. -Nmesis -murmurou-. 
Acreditava que eras o produto da imaginao criativa de algum. 
-Sou to real quanto ele -com a cabea indicou  figura que se retorcia entre o lixo. Viu que da garganta dela caa um filete de sangue. Por motivos que no compreendia, 
isso o inflamou-. Que classe de idiota voc ?
-Que...? 
-Estas ruas so os esgotos da cidade. No  lugar para voc. Ningum com crebro vem aqui, a no ser que no tenha juzo. 
Deborah sentiu que seu temperamento fervilhava, mas se controlou. Depois de todo, ele a tinha salvado. 
-Tinha um assunto para discutir.
-No -a corrigiu-. Aqui no se discute nada, a no ser que queira que te estuprem ou a matem em um beco.
-No desejava nada semelhante - medida que seu estado de nimo se alterava, o leve acento de Gergia se manifestou em sua voz-. Sei cuidar de mim mesma. 
Ele baixou a vista e seus olhos se demoraram um momento na blusa aberta, depois voltou a encar-la.
- bvio. 
Deborah no pde discernir a cor de seus olhos. Eram escuros, muito escuros. Sob a luz discreta, pareciam negros. Mas captou a arrogncia que emitiam. 
-J lhe agradeci por ajudar, ainda que no precisava nenhuma ajuda. Eu mesma estava a ponto de me defender desse canalha.
- Verdade?
- Isso mesmo. Iria arrancar-lhe os olhos  mostrou a chave, as pontas letais que sobressaiam de seus dedos  Com isto.
-Certo -a estudou e assentiu devagar-, Acredito que podia t-lo feito.
-No duvide. 
-Ento Acredito que perdi meu tempo -sacou uma pequena sacola negra do bolso. Depois de guardar a faca nela, a ofereceu-. Querer isso como prova. 
Quanto sentiu o peso da arma, Deborah recordou o momento de terror e impotncia. Tentou manter seu temperamento sob controle. Quem quer que fosse, tinha arriscado 
a vida para ajud-a. 
-Estou muito grata a voc. 
-No procuro gratido.
- Ento, por que o faz?  perguntou
Ele a olhou. Algo surgiu e se desvaneceu em seus olhos. O que fez que Deborah estremecesse ao ouvir sua resposta.
-Por justia. 
-Esta no  a maneira -comeou ela. 
- a minha. No ia chamar a policia? 
-Sim - levou a palma da mo  tmpora. Compreendeu que se sentia um pouco mareada e que tinha o estmago revolto. No era o lugar nem o momento de falar sobre moralidade 
nem lei com um homem mascarado e beligerante. 
-Tenho um telefone em meu carro. 
-Pois  sugiro que o use. 
-Certo -estava demasiado cansada para discutir. Com um ligeiro tremor, caminhou pelo beco. Ao chegar  entrada, viu sua valise. Recolheu-o com sensao de alvio 
e guardou a navalha em seu interior.
Cinco minutos mais tarde, depois de chamar o 911 para dar sua localizao e informar da situao, regressou ao beco.
- Iro mandar uma patrulha- cansada, afastou os cabelos do rosto. Viu o marginal esparramado sobre o cimento. Tinha os olhos muito abertos e desorientados.





Nmesis o havia deixado com a promessa do que aconteceria a ele se voltasse a surpreend-lo tentando estuprar outra pessoa. Mesmo atravs das brumas das drogas, 
as palavras lhe haviam parecidos bem verdadeiras.
-Ola?- com o cenho franzido pela surpresa , mirou ambos os lados do beco. Ele havia partido.- Maldito seja. Para onde teria ido?- se apoiou na parede fria. Frustrada, 
pensou que ainda no havia terminado com ele.

Estava bastante prximo para toc-a. Mas ela no podia v-lo. Essa era sua beno e sua maldio, o pagamento pelos dias perdidos. No estendeu a mo e sentiu curiosidade 
por saber que tinha desejado faze-lo. Somente observou, gravando na memria a forma de seu rosto, a textura de sua pele, a cor e o brilho de seus cabelos enquanto 
curvava com gentileza por debaixo de seu queixo.
Devia ser um romntico para pensar em termos to poticos e musicais. Porm, disse a si mesmo,  unicamente esperava e vigiava para se acercar que ela estaria a salva.
Quando as sirenes romperam a noite. Pode ver que ela  recobria seu rosto com uma mscara de segurana. Respirou fundo vrias vezes enquanto ajeitava a jaqueta sobre 
a blusa rasgada. Por fim, segurou a maleta bolsa com fora e avanou com passos seguros at a entrada do beco.
E apenas mais um vez em seu mundo entre a realidade e a iluso, pode sentir a sutil sensualidade do perfume que emanava dela.
Pela primeira vez, em quatro anos, experimentou o doce e a serena dor da saudade.







Deborah no se sentia como em uma festa. Em sua fantasia, no levava um resplandecente vestido lils sem alas, com suti que lhe apertava as costas. No usava um 
salto de dez centmetro e nem sorria at que sua face parecer que se repartiria em duas.
Em sua fantasia, devorava uma novela de mistrio e biscoitos de chocolates enquanto tomava um banho de espuma para aliviar as contuses que ainda doam, depois de 
trs dias de sua desagradvel aventura nos becos de East End.
Por desgraa, sua imaginao no era to boa a ponto de no lhe doer os ps.
De acordo com seu padro social, era uma magnfica festa. Apesar da msica soar um pouco alta, no  lhe perturbava. Depois de passar uma vida inteira com sua irm, 
uma fantica por rock in roll, estava acostumada ao mundo da msica estridente. Os canaps de salmo defumados no era biscoitos de chocolate, mas eram saborosos. 
O champanhe que bebia com moderao era de primeira qualidade.
O brilho e o glamour era abundante. Depois de tudo, a festa era dada por Arlo Stuart, magnata de  hotelaria, como parte da campanha em favor de Tucker Fields, prefeito 
de Urbana. Era a  esperana de Stuart, e da administrao vigente, que a campanha conclusse em novembro com a reeleio do prefeito.
Deborah ainda estava indecisa sobre seu voto; no sabia se o daria ao prefeito vigente ou a seu jovem oponente, Bill Tarrington. O champanhe e os canaps no a influenciavam. 
Sua escolha se basearia no modo de encarar os temas importantes da cidade, no nas afiliaes dos partidos, fossem sociais ou polticas. Aquela noite assistia a 
festa por dois motivos. O primeiro por que era amiga do secretario do prefeito, Jerry Bower. O segundo porque sua chefe havia empregado uma medida correta de presso 
e diplomacia para convence-a a atravessar as portas douradas do Palcio Stuart.
-Deus,voc est estupenda  a face bronzeada e amigvel do loiro Jerry Bower, impecvel e atrativo com seu smoking, se deteve junto dela para dar-le um beijo rpido 
nas bochechas-. Lamento no haver ter tempo para falar. Eu tenho que saldar muitas pessoas.
-O brao direito do chefe sempre est ocupado -sorriu-. V exibir-se.
- Stuart exagerou um pouco - com olho de poltico, estudou  multido. A mistura de ricos, famosos e influentes o satisfazia. Mesmo por que, a campanha tambm tinha 
outros aspectos. Ser visto, fazer contatos, com os comerciantes, os trabalhadores, as conferncias de imprensa e os discursos os ajudava. Mas Jerry supunha que dedicar 
uma parte pequena do dia, de dezoito horas de trabalho, para estar entre a nata da sociedade e comer alguns canaps, o rentabilizaria ao mximo. 
-Estou adequadamente deslumbrada -assegurou Deborah.
- Ah, mas queremos o seu voto.
- Pode ser que o consiga.
- Como vai voc?- aproveitou a oportunidade e comeou a encher um prato de canaps.
-Bem.- baixou a vista para o hematoma que j desaparecia em seu ante brao. Havia outras marcas mais acentuadas que o vestido ocultava.
-  Realmente?
- Realmente.- voltou a sorrir- Foi uma experincia que no quero repetir, mas me vez ver com claridade que vamos ter muito trabalho at conseguir que as ruas de 
Urbana sejam seguras.
- No tinha que est por ali.
Os olhos de Deborah imediatamente se incendiaram e sua face ficou vermelha. Mas no de embarao e sim de revolta.
- Por que? Por que h de haver um lugar na cidade onde uma pessoa no pode caminhar segura?  Se supe que devemos aceitar o fato que h seces em Urbana que esto 
vedadas a gente de bem? Neste caso...
- Calma, calma- levantou as mos em uma gesto de rendio- A nica pessoa que algum, metido na poltica, no pode ganhar uma discusso,  um advogado. Estou de 
acordo contigo, certo?- recolheu uma taa de champanhe da bandeja de um mordomo que passava prximo e se recordou que talvez fosse a nica coisa que beberia ao longo 
da noite-   um fato. Pode no parecer justo , mas  a verdade.
- No deveria ser assim- seus olhos se escureceram pela irritao e pela frustrao. 
-O prefeito promove uma dura campanha contra o crime - ele recordou Jerry, sorrindo para os eleitores mais prximos-. Ningum nesta cidade conhece as estatsticas 
melhor  do que eu. So feias, sem nenhuma dvida, e vamos  reduzi-las. S nos de tempo.
-Sim -suspirou e se retirou da discusso que havia mantido com Jerry mais vezes do que podia contar-. Mas est levando tempo em demasia.
-No me diga que vai ficar do lado do tal de Nmesis? deu uma mordida em uma canap . Se a lei no se ocupa de fazer com suficiente rapidez, farei eu?.
-No nisso ela era firme. A lei devia fazer justia de forma  apropriada. Inclusive neste momento,  quando estava quase enterrada de pelos relatrios de delitos- 
No acredito em vinganas e cruzadas pela justia. Aproxima-se demais dos Vigilantes. Mas eu me sinto agradecida por ele estar aquela noite no beco. 
-E eu tambm a tocou levemente no ombro-. Quando eu penso no que poderia ter passado.

-No passei o medo pela impotncia que sentiu estava muito prximo a superfcie para se permitir pensar muito nele  E apesar do que a imprensa romntica fala, 
ele  uma pessoa brusca e rude- bebeu outro gole de champanhe- Estou em dvida com ele, mas nem por isso ele me simpatiza.
- Ningum entende melhor este sentimento do que um poltico.
-Muito bem- ela relaxou e sorriu  Chega de falar de negcios. Me conte quem veio a festa. Quem eu devo conhecer e que eu devo ignorar.
Jerry a distraiu. Sempre o fazia. Durante os seguintes minutos devorou canaps e lhe deu nomes das pessoas que estavam no salo de baile do Royal Stuart. Seus comentrios 
inteligentes e certeiros provocavam seus risos. Quando comearam a mover-se entre os convidados, passou o brao com familiaridade por sua cintura. Foi uma questo 
de casualidade o fato de virar o rosto naquele multido de pessoas e se concentrar em um nico rosto.
Falava em um grupo de cinco ou seis pessoas, com duas mulheres bonitas praticamente coladas em seus braos. Pensou que era atrativo.Mas o salo estava cheio de homens 
atrativos. Seus cabelos brilhantes e escuros demarcavam um rosto comprido e delgado, quase de um estudioso. Tinha ossos proeminentes, olhos profundos, castanhos 
escuros e intensos como chocolate amargo. E neste momento parecia que algo lhe aborrecia. Exibia uma boca de lbios cheios, de aspecto potico, que esboava um sorriso 
apenas perceptvel.
Usava um smoking como se tivesse nascido com ele. Com relaxamento e indiferena. Com um dedo afastou um mecha anelada de cabelo do rosto e ampliou o sorriso pelo 
que ouvia. Ento, sem mover-se modificou a direo de seu olhar e a encarou.
- ...e comprou para os pequenos monstrinhos uma televiso de tela plana.
- Que?- balbuciou e, mesmo compreendo que era um absurdo, sentiu como se rompesse um feitio- Desculpe-me,  sobre que estava falando?
- Sobre os ces aquticos da senhora Forth-Wright.
-Jerry, quem  aquele homem? O que est com uma loira de um lado e uma ruiva do outro.
Olhando nessa direo, Jerry fez uma careta e encolheu os ombros.
-Me surpreende que no tenha uma morena nos ombros. As mulheres tendem a persegui-lo como se, em vez de smoking, usasse um papel pega moscas. 
- Quem  ele? -repetiu. No necessitava que lhe contasse o que podia ver com seus prprios olhos.
-Guthrie. Gage Guthrie.
-Por que me soa familiar? franziu os lbios.
-Tem aparecido na seo social do World quase diariamente.
-No leio a seo social -consciente de que era uma grosseria, no deixou de olhar fixamente o homem do outro lado do salo- Eu o conheo -murmurou-. Mas no consigo 
situar-me.
-Provavelmente tenha ouvido sua histria. Foi policial.
-Policial  levantou as sobrancelhas surpreendida. Parecia demasiado acomodado entre os ricos para que pudesse imaginar que fora um policial.
-E ao que parece um bom, aqui em Urbana. Faz alguns anos o companheiro e ele se meteram em problemas srios. Seu companheiro foi assassinado e Guthrie dado por morto.
-Agora eu me recordo. Segui sua histria. Deus, esteve em coma...
-Nove ou dez meses -confirmou Jerry-. Estava com respirao artificial e quando eles estavam para desligar os aparelhos, abriu os olhos e voltou. J no podia estar 
nas ruas e negou-se a um posto de escritrio na policial. Durante o tempo que estava no purgatrio recebeu uma gorda herana, assim ele pegou o dinheiro e fugiu.
No deve ter sido suficiente, refletiu ela. Nenhuma quantidade de dinheiro poderia ter sido suficiente.
-Deve ter sido horrvel. Perdeu quase um ano de sua vida.
Jerry escolheu um canap dos poucos que restavam no prato.
-Ele compensou o tempo perdido.  Ao que parece as mulheres o acham irresistvel. Claro que isso pode ser porque ele converteu uma herana de trs milhes de dlares 
em trinta e tem aumentado a cada dia -mordiscou uma pedao e reparou que Gage se separava do grupo e caminhava diretamente para eles  Hum...-murmurou- Parece que 
o interesse  mtuo.




Gage havia notado sua presena desde do momento em que ela entrou no salo. Paciente, a havia visto se misturar aos convidados. Enquanto ele no deixava de manter 
conversaes triviais, foi incomodamente se tornando consciente de todos os movimentos dela. A havia visto sorrir a Jerry, contemplado como o outro homem lhe dava 
um beijo no rosto e roava em um gesto ntimo as mos em seu ombro.
Tinha que averiguar que classe de relao eles tinham.
Porm no importava. No poderia importar, corrigiu-se. No tinha tempo para morenas sensuais com olhos inteligentes. Mas no deixou de avanar at onde ela se 
encontrava.
-Jerry -Gage sorriu-. Me alegro de voltar a v-lo.
 -Sempre  um prazer Sr. Guthrie. Est gostando da noite?
-A partir de agora- olhou para Deborah- Ol.
Por algum motivo ridculo sua garganta se fechou.
-Deborah, gostaria de lhe apresentar a Gage Guthrie. Sr Guthrie, apresento-lhe a ajudante do promotor pblico, Deborah O'Roarke.
-Uma promotora pblica - Gage sorriu de forma cativante-. Me conforta saber que a justia est me mos to cativantes.
-Competentes- retorquiu ela- Prefiro competentes.
-Certamente  apesar dela no ter a oferecido, ele pegou suas mos e a segurou por alguns segundos.
Cuidado!. A advertncia passou rapidamente pela mente de  Deborah no instante que as palmas se tocaram.
- Me perdoem um momento? -Jerry voltou a colocar uma mo no ombro de Deborah- O prefeito me chama.
-Claro lhe deu um sorriso envergonhada por ter esquecido que ele estava ao seu lado.
-No mora muito tempo em Urbana.
Apesar de sua intranqilidade Deborah lhe mirou os olhos.
-Aproximadamente um ano e meio. Por qu?
-Porque do contrrio eu j teria sabido.
- Verdade?  Tem interesse em todos os fiscais do distritos?
-No passou o dedo pela prola que adornava o lbulo de sua orelha-. S  as bonitas lhe encantou perceber a suspeita imediata que cintilou em seus olhos-. Quer 
danar?
-No -suspirou-. No, obrigada. Na realidade no posso ficar por mais tempo. Tenho que trabalhar.
-J so mais de dez horas - disse, olhando o relgio.
-A lei no tem um horrio fixo, senhor Guthrie.
-Gage. A levarei.
-No -um pnico irracional subiu por sua peito -. No, no  necessrio.
- Se no  necessrio, ento ser um prazer.
 sedutor, pensou, demasiado sedutor para um homem que acaba de se separar de uma loira e uma ruiva. No gostava de pensar que ela era a morena que completaria 
o trio.
-No queria ausent-lo de sua festa.
-Nunca permaneo muito tempo nesses acontecimentos.
-Gage a ruiva, molhando os lbios vermelhos, se aproximou-se segurando seu brao -. Querido, no danou comigo. Nenhuma vez.
Deborah aproveitou a oportunidade para se dirigir at a sada. Reconheceu que era uma estupidez, mas seu interior se havia agitado ante a idia de estar a ss em 
um carro com ele. Puro instinto, sups, J que Gage Guthrie na superfcie era um homem encantador e atrativo. Mas percebia algo. Umas correntes subterrneas, escuras 
e perigosas. J tinha muitas coisas de que ocupasse e no necessitava acrescentar mas uma a sua lista.
Saiu na chuvosa noite de vero.
-Lhe chamo txi, senhorita? -perguntou o porteiro.
-No -Gage pousou a mo firme em embaixo de seu cotovelo- Obrigado.
-Senhor Guthrie... -comeou Deborah.
-Gage. Tenho o carro aqui mesmo, senhorita O'Roarke sinalizou para uma estilizada e reluzente limusine negra.
- bonito-comentou com os dentes apertados-, mas um txi ir atender as minhas necessidades.
-Mas no as minhas ele fez um sinal para o homem lato e uniformizado que abriu a porta traseira do carro-. As ruas so perigosas a noite. Sinceramente eu gostaria 
de saber que chegar a salvo onde queira ir.
Ela retrocedeu e o estudou com cuidado, como costumava fazer com um suspeito. Ele tinha um meio sorriso em seus lbios. J no parecia to perigoso. De fato, parecia 
um pouco triste. Um pouco solitrio.
Se voltou para limusine. Sem querer se abrandar em demasiado, olhou-o por cima do ombro.
- J lhe disseram alguma vez que  insistente, senhor Guthrie?
-Sempre, senhorita O'Roarke  se sentou ao lado dela e ofereceu-lhe uma rosa vermelha com um talo comprido.
-Vem preparado -murmurou Deborah. Se perguntou se a flor havia estado esperando a ruiva ou a loira.
-Eu tento. Onde gostaria de ir?
-Ao Palcio da Justia. Fica na sexta...
-Sei onde fica - Gage apertou um boto e  o vidro que os separada do chofer abriu-se em silencio-. Ao Palcio da Justia, Frank.
-Sim, senhor -o vidro voltou a se fechar isolando-os.
-Fiquei sabendo que j trabalhou desse mesmo lado -comentou ela.
-E que lado  esse?
-O de a lei.
Se voltou para  Deborah com olhos obscuros, quase hipnticos. Fez que ela se perguntasse o que eles haviam visto durante aqueles meses perdidos no estranho mundo 
de uma quase vida. Ou quase morte. 
- voc uma defensora de a lei?
-Gosto de crer que sim.
-Sem dvida, no me parece gostar de fazer tratos e distribuir cargos.
-O sistema esta mudando -disse na defensiva.
-Oh, sim, o sistema -com um leve movimento de ombros, pareceu descartou o tema-. De onde ?
-Denver.
-No, Denver no lhe daria sua voz esse tom de silvestres e magnlias.
-Nasci na Georgia, mas minha irm e eu nos mudamos muito. Morei em Denver at vim para Urbana.
Sua irm, pensou. No seu pai, ou sua famlia. Apenas sua irm.
- Por que se decidiu por esta cidade?
-Porque era um desafio. Queria dar um bom uso a todos os dias que passei na faculdade. Gosto de crer que posso fazer diferena. -pensou no caso Mndez e nos quatro 
membros da quadrilha que haviam sido presos e que esperavam em juzo.
- Voc  uma idealista.
-Talvez. O que  que tem de mal?
-Os idealistas a vezes sofrem uma trgica desiluso - guardou silencio um instante, estudando-a. A luz dos faris e dos semforos penetravam no carro, para voltar 
a escurecer. Era bela tanto na luz como na sombra. Mais que beleza, em seus olhos havia uma espcie de poder. Esse que surge com a fuso de  inteligncia e a determinao-. 
Eu gostaria ver-la em um tribunal -comentou.
Ela sorriu e acrescentou um elemento a mais ao poder e a beleza. Ambio. Era uma combinao formidvel.
-Sou implacvel.
-Aposto que .
Queria tocar-la, apenas o contacto das pontas dos dedos sobre aqueles adorveis ombros brancos. Se perguntou se seria suficiente. Como temia que no  fosse, resistiu. 
Com alvio e frustrao notou que a limusine curvava e se detinha.
Deborah voltou-se para observar pela janela o antigo e suntuoso palcio de justia.
-Foi rpido -murmurou, desconcertada por sua prpria decepo-. Obrigada pela o viajem -quando o chofer abriu a porta, colocou as pernas para fora do carro.
-Voltaremos anos  ver.
-Talvez -por segunda vez, o olhou por cima do ombro-. Boa noite..
Gage permaneceu quieto alguns momentos, invadido pela fragrncia que ela havia deixado para atrs.
-Para casa? -perguntou o chofer.
-No respirou fundo-. Fique aqui e a leve para casa quando ela tiver terminado. Preciso caminhar.


Captulo 2


Como um boxeador aturdido por muitos golpes, Gage abriu caminho entre o pesadelo. Saiu na superfcie, sem alento e empapado de suor. Ao desvanecer-se a nusea, permaneceu 
imvel e contemplou o alto teto de seu dormitrio.
Havia quinhentas e vinte e trs medalhas talhadas no gesso. As havia contado um dia atrs do outro durante sua lenta e tediosa recuperao. Quase como um encantamento, 
comeou a cont-las outra vez, esperando que as batidas de seu corao se acalmassem.
Os lenis de algodo irlands estavam amassadas e midas ao seu redor, mas permaneceu absolutamente quieto, sem deixar de contar. Vinte e cinco, vinte e seis, vinte 
e sete. No quarto flutuava uma leve e aromtica fragrncia de cravos. Um das criadas os havia deixado no escritrio anexo prximo das janelas. Enquanto seguia contando, 
tentou adivinhar que varo as havia utilizado. Waterford, Dresde, Wedgwood. Se concentrou nisso e na montona conta at que sentiu que comeava a relaxar.
Jamais sabia quando podia reaparecer seu sonho. Supunha que tinha que estar agradecido de que j no surgisse todas as noites, mas em  suas visitas caprichosas, 
havia algo ainda mas horrvel. 
Mas calmo, apertou o boto que havia junto  cama. As cortinas da ampla janela a sua frente se abriram e deixaram passar a luz. Com cuidado, moveu seus msculos, 
assegurando-se de que ainda possua o controle 
Igual a um homem em guerra com seus prprios demnios, repassou o sonho. Como sempre, recordou-o com absoluta nitidez 
Trabalhavam de incgnito. Gage e seu parceiro, Jack McDowell. Depois de cinco anos, eram mas que colegas. Eram irmos. Cada um havia arriscado a vida para salvar 
ao outro. E cada um voltaria a faz-lo sem titubear. Trabalhavam juntos, bebiam juntos, iam aos partidas de futebol, discutiam  poltica.
Durante mais de um ano tinham respondido aos nomes de Demerez e Gates, fazendo-se passar por dois traficantes importantes de cocana e seu derivado ainda mas letal, 
o craque. Com pacincia e astcia, tinham-se infiltrado em um dos cartis mas importantes da Costa Este. Urbana era seu centro. 
Poderiam ter realizado dzias de detenes, mas tanto eles como o departamento tinham lembrado que o objetivo era o chefe supremo. 
Seu nome e rosto seguiam sendo um mistrio. 
Mas aquela noite iriam conhec-lo. Depois de muitos esforos tinham conseguido pactuar um trato. Demerez e Gates levavam cinco milhes em dinheiro em uma valise 
reforada com ao. Iriam trocar por coca pura. E somente fariam o trato com o chefo. 
Foram ao porto em Maserati do qual Jack estava muito orgulhoso. Com um respaldo de duas dzias de homens, suas personalidades falsas intactas, estavam de muito bom 
humor.
Jack era um policial veterano, duro e de mente rpida, ligado a sua famlia. Tinha uma mulher bonita e carinhosa e um beb brincalho. Com o cabelo castanho penteado 
para atrs, as mos cheias de anis e um traje que lhe ficava impecvel, dava a imagem perfeita do traficante rico e carente de conscincia. 
Havia muitos contrastes entre os dois colegas. Jack descendia de um linhagem de policiais e sua me divorciada o havia criado em um apartamento de terceiro andar 
de East End. Seu pai, um homem que havia recorrido  garrafa tanto quanto a sua arma, lhe fazia visitas espordicas. Jack havia ingressado no corpo  da policial 
ao terminar o escola. 
Gage procedia de uma famlia de empresrios com sucesso que iam de frias a Palm Beach e jogavam ao golfe em um clube de campo.
Seus pais tinham estado mas prximos da classe trabalhadora, segundo os padres da famlia, preferindo investir seu dinheiro, seu tempo e seus sonhos em um pequeno 
e elegante restaurante francs em a parte alta de East. Em ltima instncia, esse sonhos os havia matado. 
Depois de fechar o local em uma noite de outono, tinham-lhes roubado e assassinado brutalmente a menos de trs metros da porta do restaurante. 
rfo antes de cumprir os dois anos, Gage havia sido criado com estilo e comodidade por uns tios carinhosos. Havia jogado  tnis em vez de futebol de rua e o tinham 
tentando estimula-lo a seguir os passos do irmo de seu falecido pai, como presidente do imprio Guthrie. 
Mas jamais havia esquecido a crueldade nem a injustia do assassinato de seus pais. Por isso decidiu ingressar no departamento de policial ao terminar a universidade. 



Apesar de todos os contrastes existentes entre eles, tinham uma coisa vital em comum: ambos acreditavam na lei. 
-Esta noite o penduraremos pela bunda -disse Jack, dando uma profunda tragada ao cigarro. 
-J est chegando hora -murmurou Gage. 
-Seis meses de preparativos e dezoito meses a paisana. Dois anos no so muitos para apanhar esse canalha! - olhou a Gage e lhe piscou o olho-. E imagino que sempre 
temos a opo de apanhar os cinco milhes e fugir como se  o diabo nos perseguisse . Que dizes, rapaz? 
Apesar de Jack ter somente cinco anos a mais que ele, sempre o havia chamado rapaz.
- Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro.. 
-Boa idia. Eu tambm. -atirou o cigarro pela janela-. Poderamos comprar uma fazenda e levar uma vida em grande estilo. Muitas mulheres, muito rum e muito sol. 
Voc gostaria? 
-A Jenny talvez no agradaria. 
Jack rio entre dentes ao ouvir o nome de sua mulher. 
-Sim, isso provavelmente a deixaria um pouco irritada. Me colocaria para dormir no sof por uns dez meses. Acredito que ser melhor aquietar a bunda aqui mesmo. 
-pegou um pequeno transmissor-. Aqui Branca de Neve, cmbio? 
-Afirmativo, Branca de Neve. Aqui  Zangado. 
-Vamos entrar no Cais Dezessete. No nos perca de vista. Isso vale para o resto do anes.
Gage parou nas sombras do cais e apagou o motor. Podia sentir  a maresia e o odor intensa dos peixes e lixo. Seguindo as instrues que tinham recebido, piscou os 
faris duas vezes, fez uma pausa e repetiu o mesmo.
-Como James Bond -comentou Jack com um sorriso- Pronto, rapaz? 
-Pronto. 
- Ento vamos l - acendeu outro cigarro e expeliu a fumaa. 
Avanaram com cautela. Jack portava a valise com as notas marcados e o microtransmissor. Os dois levavam pistolas com armas regulamentadas de calibre 38. Gage tinha 
uma segunda pistola presa  panturrilha. 
Chegava-lhes o rudo da gua sobre a madeira, as patas escorregadias dos roedores sobre o cimento. A luz tnue de uma lua meio coberta pelas nuvens. O aroma do fumo 
do cigarro de Jack. O suor lento escorria pelas costas de Gage. 
-Algo no encaixa -sussurrou. 
-Que no me venha com premonies, rapaz. Esta  nossa noite de glria.
Com um gesto de consentimento, Gage conteve a inquietude. Mas levou a mo ao arma quando um homem pequeno saiu das sombras. Com um sorriso, o homem mostrou as mos 
com as palmas para cima.
Estou sozinho -anunciou-. Tal como combinamos. Sou Montega, sua escolta. 
Tinha  o cabelo negro e um bigode pequeno. Quando sorriu, Gage captou o reflexo de alguns dentes de ouro. Como eles, luzia em um caro traje, desses preparados para 
ocultar o vulto de uma arma automtica. 
Montega baixou uma mo com cautela e sacou um charuto longo e fino. 
-Uma bela noite para um passeio de barco, no  verdade?
-Sim . -Jack assentiu-. Se importaria que nos o revistemos? Nos sentiramos melhor em saber que somos as nicas pessoas armadas at chegar ao local indicado.
- compreensvel -acendeu o charuto com um isqueiro de ouro. Sem deixar de sorrir apertou o charuto entre os dentes de ouro
Gage viu que voltava a guardar o isqueiro no bolso com gesto casual. Depois se ouviu uma exploso, o som demasiadamente familiar de um disparo. Havia um buraco fumegante 
no bolso do traje de mil quinhentos dlares. Jack caiu para atrs. 
Inclusive nesse momento, quatro anos depois, reviveu o episdio em um  horrvel movimento a cmara lenta. A expresso aturdida, j sem vida, nos olhos de seu amigo, 
ao voar para atrs pela fora do impacto do disparo. O intervalo que durou o momento que a maleta girou no ar. Os gritos dos homens de apoio ao correr em direo 
a eles. Seus prprios movimentos, de uma lentido impossvel, ao levar a mo ao arma.
O sorriso cada vez mais amplo, com seus reflexo de ouro,  medida que Montega se voltava em sua direo. 
- Adeus policiais -disse antes de disparar. 
Inclusive nesse  momento, Gage podia sentir o calor aterrador que estourou em seu peito, insuportvel. Viu-se voando para trs, sem parar, at perder-se na escurido. 
E havia morrido. 
Sabia que estava morto. Podia v-lo. Havia baixado os olhos para ver seu corpo estendido no cais ensangentado. Os polcias trabalhavam sobre ele, vendando-lhe a 
ferida,  soltando maldies e movendo-se como formigas. Havia observado tudo sem paixo e sem dor. 
Ento a  ambulncia chegou e de algum modo conseguiu devolv-lo  dor. Lhe havia faltado fora para opor-se e partir para o  lugar que queria ir. 
A sala de operaes. 
Umas paredes azuis, luzes fortes, o reflexo de instrumentos de ao. O bip, bip, bip dos monitores. O  rangido do respirador artificial. Por duas vezes havia sado 
com facilidade de seu corpo, como o ar, sereno e invisvel, para observar  equipe mdica lutar por sua vida. Havia querido dizer-lhes que parassem, que no queria 
regressar onde podia voltar a sentir a dor. Sentir outra vez. 
Mas seus os componentes da equipe  tinham se mostrado hbeis e decididos e o tinham arrastado de volta a seu corpo ferido. E durante algum tempo Gage havia regressado 
 escurido.
Mas isso havia mudado. Recordou flutuar num mundo de um lquido acinzentado que lhe havia provocado recordaes primitivos do tero. Ali estava a salvo. Reinava 
a tranqilidade. De vez em quando ouvia algum que pronunciava seu nome em voz alta, com insistncia. Mas ele escolhera no prestar-lhe ateno. Uma mulher chorava... 
sua tia.O som emocionado e suplicante da voz de seu tio.
Havia luz, na realidade uma intruso, e ainda que no pudesse sentir, percebia que algum lhe levantava as plpebras e fazia brilhar uma luz em suas pupilas. 
Era um mundo fascinante. Podia ouvir suas prprias palpitaes. Podia cheirar flores, ainda que somente esporadicamente,  que a fragrncia ficava relegada pelo 
cheiro anticptico do hospital. E ouvia msica, suave, calma. Beethoven, Mozart, Chopin.
Depois se inteirou de que uma das enfermeiras havia ficado o suficientemente comovida com ele e levara um pequeno som para seu quarto. Com freqncia ia at seu 
quarto com flores esquecidas e falava com ele em tom maternal.
As vezes a tomava por sua prpria me e sentia uma tristeza insuportvel. 
Quando as brumas no mundo cinza comearam a abrir-se, ops-se a isso. Queria ficar. Mas no importava a profundidade que submergisse, no deixava de boiar cada vez 
mas prximo da superfcie. 
At que ao final abriu os olhos  luz. 
Nesse momento teve que reconhecer que essa havia sido a pior parte da pesadelo. Abrir os olhos e dar-se conta de que estava com vida.


Cansado, levantou-se da cama. Havia deixado  para trs o desejo de morte que o havia apossado aquelas primeiras semanas. Mas nas manhs que ocorria os pesadelos, 
sentia tentado a amaldioar a habilidade e dedicao da equipe mdica que o havia salvado. 
Mas no tinham salvado a Jack. No tinham salvado a seus pais, que tinham morrido antes de que chegasse a conhec-los. No tinham tido suficiente habilidade para 
salvar a seus tios, que o tinham criado com um amor ilimitado e que tinham  sido mortos algumas semanas antes de que sasse do coma.
No entanto, tinham-no salvado a ele.  E Gage entendeu a razo.
Se devia ao dom,  maldio de um dom que havia recebido durante aqueles nove meses em que sua alma se havia  ficado no mundo cinza e fludo. E devido a quem o tinham 
salvado, no lhe ficava mas opo que levar a cabo o que estava predestinado a fazer. 
Com uma sensao embotada de aceitao, apoiou a mo direita sobre a parede verde clara de seu quarto. Concentrou-se. Ouviu o zumbido dentro do crebro, o zumbido 
que ningum mas podia ouvir.  Ento, rpida e completamente, sua mo se desapareceu. 
Seguia existindo. Podia senti-la. No obstante, nem sequer ele era capaz de v-la. No havia perfil, nem as silhuetas do dedos. Da manga para acima, a mo havia 
desaparecido. Somente tinha que se concentrar para que lhe sucedesse o mesmo a todo seu corpo.
Ainda podia recordar a primeira vez que aquilo ocorreu. Como havia se espantado. E  como o fascinara. Fez que a mo reaparecesse e a estudou. Era a mesma. Com uma 
palma larga, dedos longos, um pouco spera devido aos calos. A mo normal de um homem que j no era normal. 
Um truque til, pensou, para um homem que percorre as ruas pela noite a procura de respostas. 
A fechou em punho e depois entrou no quarto de banho contguo para banhar-se. 




As onze e quarenta e cinco da manh, Deborah esperava na delegacia do distritos vinte e cinco. No lhe causava estranheza que a tivessem chamado. Os quatro membros 
do bando que havia atirado em Rico Mndez estavam encerrados em celas separadas. Desse modo poderiam acus-los assassinato em primeiro grau, cumplicidade no assassinato, 
posse ilegal de armas, posse de substncias txicas e as acusaes restantes  que apareciam na ficha de deteno. Sem a oportunidade de combinar as histrias com 
as de seus colegas.
s nove em ponto havia chamado o defensor pblico de Sly Parino. Seria a terceira reunio que mantinham. Em cada uma das anteriores,  havia se mantido firme em sua 
negativa a realizar um trato. O advogado de defesa pedia o mundo, e o prprio Parino se mostrava agressivo, desagradvel e arrogante. Mas em cada ocasio que tinham 
compartilhado a sala de interrogatrios havia notado que Parino suava com mais profuso. 
O instinto lhe dizia que tinha algo a confessar, mas que estava dominado pelo  medo. 
Seguindo sua prpria estratgia, Deborah havia aceitado a reunio, ainda que houvesse demorado duas horas. Dava a impresso de que Parino estava pronto para ceder, 
e como o tinha preso com a posse da arma do crime e  duas testemunhas presentes no ato do crime, seria melhor que lhe oferecesse algo valioso.
Empregou o tempo de espera enquanto o tiravam da cela para repassar as notas sobre o caso. Como as podia recitar de cor, a mente vagou ao sucedido na noite anterior.
Se perguntou que classe de homem era Gage Guthrie. O tipo que levava uma mulher relutante a sua limusine cinco minutos depois de conhec-la e em seguida deixava 
o veculo a disposio dela durante duas horas e meia. Recordou a divertida surpresa ao sair do Palcio de Justia  uma da manh e descobrir a limusine longa e 
negra com sua motorista taciturno e uniformizado, que a esperava com pacincia para lev-la a casa. 
Por ordem do senhor Guthrie. 
Ainda que no o tivesse visto em nenhuma parte, havia  sentido sua presena durante todo o trajeto desde do centro da cidade at sua apartamento do West End. 
 um homem poderoso, pensou nesse  momento. Em seu aspecto, em sua personalidade e em sua atrativa masculinidade. Olhou ao redor da delegacia e tratou de imaginar 
o homem elegante com sua leve urea de homem duro, enfiado em um smoking , trabalhando nesse lugar.
 A delegacia vinte e cinco estava situada em uma das zonas mas violentas da cidade. O lugar que descobriu, quando quis saciar sua curiosidade, haver trabalhado o 
detetive Gage Guthrie durante quase os seis anos inteiros que pertenceu ao corpo de policial. 
Refletiu que era difcil unir o homem sedutor e obstinadamente encantador com o linleo sujo, as duras luzes fluorescentes e o cheiro a suor e  caf frio que se 
misturava com o ambientador com fragrncia a pinheiro. 
Ele gostava a msica clssica, j que dos alto-falantes da limusine havia soado Mozart. No entanto, havia permanecido anos entre os gritos, as maldies e os incessantes 
chamadas telefnicas da vinte e cinco. 
Pela informao que havia lido ao pesquisar  sua historia, sabia que havia sido um bom policial, as vezes temerrio, mas que jamais havia cruzado a linha. Ao menos 
no que figurasse em sua ficha, em  que abundavam as menes honorficas.
Seu parceiro e ele tinham desarticulado uma rede de prostituio que se mantinha com jovens que fugiam de suas famlias, tinham sido reconhecidos por  prender os 
trs mais importantes homens de negcios que tinham dirigido uma operao clandestina de jogo que castigava a seus clientes pouco afortunados com terrveis torturas, 
tinham capturado traficantes de drogas, insignificantes e destacados, e tinham desmascarado  um policial corrupto que empregava seu distintivo para extorquir os 
comerciantes asiticos em troca de proteo.
Em seguida tinham trabalhado disfarados para desmontar um dos cartis de droga mas importantes da costa oeste. E tinha sido a ltima misso deles.
 isso o que o faz to fascinante?, se perguntou. Que parea que o homem sofisticado e rico seja somente uma iluso embaixo da qual est o policial duro que havia 
sido? E encarando  os anos de servio  lei como uma simples aberrao, havia voltado a seu meio privilegiado? Quem  o verdadeiro Guthrie?.
Moveu a cabea e suspirou. Ultimamente estava meditando muito. Desde da noite no beco em que havia visto a aterrorizadora realidade de sua prpria fragilidade e 
havia sido salva, apesar de acreditar firmemente que podia ter salvo a si mesma, por algum a quem muita gente considerava um fantasma. 
Pensou  no fato de Nmesis ser  real. O havia visto, escutado, inclusive a havia irritado. No obstante, quando o recordava, parecia-lhe como uma fumaa. Se tivesse 
alongado a mo para toc-lo, o havia atravessado? 
Que tolices. Vou ter que dormir mais se o excesso de trabalho me provoca estes vos de fantasia em pleno dia. 
Mas, de algum modo, ia voltar a encontrar esse fantasma. 
-Senhorita O'Roarke. 
-Sim -se levantou e lhe ofereceu a mo ao jovem defensor pblico de aspecto inquieto-. Oi outra vez, senhor Simmons.
-Sim, bom... ajeitou os culos de aros grossos que se alojava na ponta do nariz -. Agradeo-lhe em aceitar essa reunio.
-Corte esse papo -por trs de Simmons, Parino estava seguro por dois agentes uniformizados. Tinha uma careta desdenhosa na face e as mos algemadas-. Viemos estabelecer 
um trato, assim deixemos as delicadezas de lado. 
Com um gesto, Deborah abriu o caminho para uma pequena sala de interrogatrios. Deixou o valise na mesa e se sentou. Cruzou as mos. Com seu severo traje azul marinho 
e blusa branca, parecia uma educada beleza sulina. Mas seus olhos, to escuros como o algodo de seu traje, ardiam enquanto observavam a Parino. Havia estudado as 
fotos da polcia sobre Mndez e havia visto o que o dio e um arma automtica podiam fazer-lhe com um jovem corpo de dezesseis anos.
- Senhor Simmons,  voc  consciente de que,  dos quatro suspeitos que estamos acusando pelo assassinato de Rico Mndez, seu cliente  o que tem a condio de receber 
a pena mxima?
-Podem me tirar isto? -Parino levantou as mos algemadas. 
Deborah o olhou. 
-No. 
-Vamos, menina -lhe lanou o que imaginava que era um olhar sexy-. No tem medo de mim, verdade? 
-De voc, senhor Parino? -sorriu mas falou com um tom serenamente sarcstico-. Em absoluto. Todos os dias achato baratas desagradveis. No entanto, voc deveria 
me temer. Sou eu quem vai tir-lo de circulao -voltou o olhar a Simmons-. No percamos tempo outra vez. Nos trs sabemos o que h em jogo. O senhor Parino tem 
dezenove anos e ser julgado como um adulto. Ainda vamos analisar se os outros sero julgados como adultos ou como menores. -sacou suas notas, mesmo sem necessit-las 
-. O arma do assassinato foi encontrada no apartamento do senhor Parino, com suas impresses. 
-A puseram ali -insistiu Parino-. Nunca em minha vida a havia visto.
-Guarde-se isso para o juiz -sugeriu Deborah-. Duas testemunhas o colocam na tera-feira as doze e quarenta da noite dia dois de junho no  local exato do crime. 
Essas mesmas testemunhas identificassem ao senhor Parino em uma roda de amigos como o homem que saiu do carro e  fez dez disparos  em direo de Rico Mndez. 
Parino comeou a amaldioar e gritar a respeito dos fofoqueiros e dedos duros, sobre o que lhes faria quando sasse. Sobre o que faria a ela. Sem molestar-se com 
o aumentar da voz, Deborah continuou com a vista fixada em Simmons. 
-Temos o seu cliente acusado de assassinato em primeiro grau. E o estado solicitar a pena de morte -cruzou as mos sobre suas notas e assentiu-. E agora, de que 
quer que falemos? 
Simmons  afrouxou a gravata. O fumaa do cigarro que fumava Parino flutuava  em sua direo e lhe irritava os olhos.
-Meu cliente tem informaes que estaria disposto a revelar-lhe ao escritrio do promotor pblico - disse meio que irritado-. Em troca de imunidade e das mudanas 
acusaes que pesam sobre ele. De assassinato em primeiro grau e posse ilegal de um arma de fogo. 
Deborah ergueu uma sobrancelha e deixou que o silncio se prolongasse. 
-Estou esperando que conclua a piada. 
-No  uma brincadeira - Parino se inclinou sobre a mesa-. Tenho algo que oferecer e ser melhor do que escute. 
Com movimento deliberado, Deborah guardou as notas na valise e a fechou. 
-Voc  lixo, Parino. Nada, nada que possa me oferecer ir faze-lo voltar as ruas. Se cr que pode passar por  cima do escritrio da promotoria, pense melhor.
Simmons se levantou quando ela se dirigiu para a porta. 
-Senhorita O'Roarke, por favor, no podemos discutir o assunto? 
-Claro -girou e o olhou-.Quando me fazer um oferta realista.
Parino soltou uma obscenidade que fez que Simmons empalidecer e Deborah o observasse com olhos frios. 
-O estado o acusar de assassinato em primeiro grau e solicitar a pena de morte -exps com acalma-. Creia quando lhe digo que me responsabilizarei  de que seu cliente 
seja arrancado da sociedade como se fosse um sanguessuga. 
-Me livrarei -lhe gritou Parino. Tinha vos olhos arregalados ao levantar-se-. E quando eu o fizer, irei atrs de voc, cadela! 
-No se livrar - o olhou do outro lado da mesa o. Seus olhos estavam frios como o gelo e em nenhum momento titubearam-. Sou muito boa em meu trabalho, Parino, o 
qual consiste em pr animais raivosos como voc em jaulas. Em seu caso, no terei misericrdia. No se livrar -repetiu-. E quando estiver suando no corredor da 
morte, quero que pense em mim.
-Assassinato em segundo grau -pediu Simmons com calma, e recebeu o uivo selvagem de seu cliente. 
-Est me vendendo, filho da puta. 
Deborah olhou de lado a Parino e estudou os olhos nervosos de Simmons. Percebia que ali havia algo. 
-Assassinato em primeiro grau -insistiu-, com a petio de priso perptua em vez da pena de morte... isso se tiver algo que prenda meu interesse.
-Deixe-me  falar com meu cliente, por favor. Conceda-nos um minuto. 
-Estarei esperando -deixou o ardoroso defensor pblico com seu desequilibrado cliente. 
Vinte minutos mais tarde, voltava a plantar-se ante Patino do outro lado da mesa cheia de marcas. O percebia mais plido e calmo ao acender um cigarro.
-Mostre suas cartas, Parino -aconselhou. 
-Quero imunidade. 
-De acordo com o que voc ir me apresentar poder t-la. -J o tinha justo onde queria. 
-E proteo -comeou a suar. 
-Se est for justificada. 
Ele vacilou e brincou com o cigarro e o cinzeiro de plstico. Mas estava contra a parede e sabia. Vinte anos. Seu advogado lhe havia dito que provavelmente obteria 
a liberdade condicional em vinte anos. 
Vinte anos em o buraco eram melhor do que a cadeira eltrica. Qualquer coisa o era. Um tipo preparado podia dar-se bem em o buraco. E ele se considerava bastante 
preparado.
-Tenho estado fazendo algumas entregas para uns sujeitos. Sujeitos importantes. Transportes em caminhes desde dos cais at uma elegante loja de antiguidades na 
cidade. Pagam bem, muito bem, de maneira que sabia que havia algo nas caixas aparte de vasos enfeitados - acendeu outro cigarro com a ponta do que acabava de tragar 
- Isso me impulsionou a dar uma olhada. Abri uma das caixas e vi que estava cheia de cocana. Jamais havia visto tanto p. Uns cinqenta quilos. E era pura. 
- Como o sabe? 
Umedeceu os lbios e sorriu.
Peguei uma das bolsas e a meti embaixo da camisa. Vou repeti, havia coca suficiente para encher a nariz de todo o estado nos prximos vinte anos. 
- Como se chama a loja? 
- Quero saber se temos um trato -voltou a umedecer os lbios. 
- Se a informao for verdadeira , sim. Se isto for uma embromao, no.
- Timeless. Assim se chama. Se encontra na Stima Avenida. Entregvamos uma carreta, umas duas vezes por semana. No sei quando levamos coca ou antiguidades. 
- Quero alguns nomes. 
- O sujeito com quem eu trabalhava no ancoradouro se chamava Rato, apenas Rato.  a nica coisa que eu sei.
- Quem o contratava? 
- Um sujeito. Entrou em Loredo, o bar do West End onde os Demons se encontram.  Disse que tinha um trabalho se eu tivesse coragem e mantivesse a boca fechada. De 
maneira que Ray e eu o aceitamos. 
- Ray?
Ray Santiago.  um dos nossos. Os Demons. 
- Que aspecto tinha o homem que os contratou? 
- Baixo, atarracado e nervoso.. Bigode grande, um par de dentes de ouro. Entrou em Loredo com uma traje caro, mas ningum se meteu com ele. 
Ela tomou notas, assentiu e lhe arrancou informao at onde conseguiu. 
-De acordo, o comprovarei. Se foi honesto comigo, descobrir que eu o serei com voc -se ps de p e olhou a Simmons-. Entrarei em contato. 
Ao sair da sala de interrogatrios, a cabea lhe palpitava. Tinha uma sensao de confinamento, que lhe sucedia sempre que tratava com gente como Parino. 
Pelo o amor do cu, tinha dezenove anos, pensou enquanto lhe devolvia a placa de visitante ao sargento da recepo. Mal tinha idade para votar, no entanto, havia 
matado a outro ser humano sem nenhum arrependimento. Sabia que no experimentava arrependimento. Os Demons consideravam esses incidentes como um ritual tribal. E 
ela, como representante da lei, havia feito um trato com ele.
Ao sair  tarde calorosa se recordou que o sistema funcionava dessa maneira. Descartaria a Parino como se tratasse de uma ficha de pquer e esperaria conseguir uma 
presa maior. Ao final, Parino passaria o resto de sua juventude e parte de sua vida adulta no crcere.
Esperava que a famlia de Rico Mndez considerasse que se havia feito justia.
-Mau dia? 
Sem deixar de franzir o cenho, girou, protegendo os olhos do sol e viu a Gage Guthrie. 
-Oi. Que faz aqui? 
-A esperava. 
Ela ergueu uma sobrancelha e analisou a resposta apropriada. Esse dia Guthrie usava um traje cinza, de excelente corte e caro sem ostentao. Ainda que a umidade 
fosse intensa, sua camisa branca parecia impecvel. O n da gravata cinza de seda era perfeito.
Dava a impresso de ser precisamente quem era. At o momento que lhe fitassem os olhos, concluiu. Ento, veras que as mulheres se sentem atradas por ele por 
um motivo mais bsico que o dinheiro e a posio social. 
-Por que? -respondeu com a nica pergunta que parecia adequada. 
-Para convid-la a comer -sorriu. 
- muito amvel, mas... 
-No come, verdade? 
-Sim, quase diariamente -era evidente que ele se divertia com ela-. Mas neste  momento estou trabalhando. 
- voc uma dedicada servidora pblica, no , Deborah? 
-Gosto de pensar que sim -captou suficiente sarcasmo em sua voz para retrair-se um pouco. Comeou a caminhar em direo a rua e levantou o brao para chamar um txi-. 
Foi muito amvel ao deixar-me sua limusine ontem  noite -se voltou e o olhou-. Mas no era necessrio.
-Com freqncia fao o que outros consideram desnecessrio -lhe tomou a mo e, com somente uma leve presso, baixou-lhe o brao-. Se no quer almoar, iremos jantar. 
-Soa mas com uma ordem  do que como um convite -havia apartado a mo, mas parecia infantil entabular uma discusso ali na rua -. Sim, a qualquer hora, mas agora 
tenho que declinar. Esta noite trabalho at tarde. 
-Amanh, ento -sorriu com expresso cativante -. Uma convite, advogada. 
Custava no sorrir quando a olhava com humor e... solido?... nos olhos. 
-Senhor Guthrie. Gage -se corrigiu antes que o fizesse ele-. Os homens persistentes em geral me irritam. E voc no  uma exceo. Mas, por algum motivo, Acredito 
que gostaria de jantar com voc. 
- Eu a pegarei as sete. 
-Perfeito. Lhe darei meu endereo. 
-O tenho. 
-Ento at mais - na noite anterior o motorista dele a havia deixado diante de sua casa-. Se me devolver a mo eu gostaria de pegar um txi.
No cedeu de imediato, ento  baixou os olhos.  Era delicada e pequena, como o resto de ela. No entanto, em seus dedos havia fora. Levava as unhas curtas, bem arredondadas 
e com uma capa de esmalte transparente. No cintilava anis nem pulseiras, somente um relgio fino e prtico que notou que era exato at nos minutos. 
Levantou vista at seus olhos. E l viu curiosidade, um pouco de impacincia e, outra vez, cautela. Obrigou-se a sorrir enquanto se perguntava como um simples contato 
de mos podia t-lo incendi-lo de forma to rpida. 
-A verei amanh -a soltou e se afastou. 
Ela assentiu, sem confiar em sua voz. Ao subir ao txi, voltou-se. Mas ele j no estava l. 







Passava das dez horas quando Deborah se aproximou da loja de antiguidades. Estava fechada, mas ela no havia esperado encontrar nada que a delatasse. Havia redigido 
seu relatrio e comunicado os detalhes da entrevista com Parino a seu superior. Mas no havia sido capaz de resistir a dar uma olhada pessoalmente.
Nesta parte elegante da cidade, as pessoas no tinham pressa para jantar ou desfrutar de um espetculo. Alguns pares passaram diante dela a caminho de  um clube 
ou  restaurante. As luzes projetavam halos luminosos de segurana.
Supunha-se que era uma tolice vir ali. Sabia que as portas no estariam abertas para que pudesse entrar e descobrir um esconderijo de drogas em uma armadura do sculo 
dezoito.
As janelas no somente estavam a escuras, como tambm tinham grades e cortinas cerradas. Era como se a loja estivesse envolvida em uma manto de mistrio. Aquele 
dia havia dedicado horas procurando o nome do proprietrio. Haviam se protegido bem, por trs de uma rede de corporaes.  O rastro que seguia dava voltas e voltas 
. At o momento, Deborah havia se deparado com um beco sem sada.
Mas a loja era real. No dia seguinte, o mais tardar no outro, disporia de uma ordem judicial. A policial revistaria cada greta de Timeless. E confiscaria seus livros 
contbeis. 
Aproximou-se da janela escura. Algo a fez  girar com rapidez para estudar a luz e a sombra da rua que havia atrs de si.
O trfico passava com seu habituai rudo. Um casal que ia de braos dados, ria na calada adiante. Tudo normal, falou com si mesma. No havia nada que justificasse 
o formigamento em sua costas. No entanto, enquanto observava a rua e os edifcios adjacentes para assegurar-se de que ningum lhe prestava ateno, persistiu a sensao 
de que era vigiada. 
Decidiu que aquela reao no era justificvel. Esses estremecimentos de medo eram vestgio do incidente no beco. No poderia viver o resto da vida assustada com 
o que acontecera aquela noite, paranica ao extremo de olhar primeiro cada esquina antes de curv-la. Isso no era aceitvel para ela.
Sua irm mais velha havia cuidado dela durante quase toda a sua vida, inclusive a mimado. Ainda que, sempre tivesse gratido pelo que Cilla tinha feito para ela, 
quando partiu de Denver para ir a Urbana havia estabelecido um compromisso consigo mesma. Deixaria sua marca. E no poderia faz-lo se fugia das sombras.
Decidida a lutar contra sua prpria inquietude, rodeou o edifcio e com passos rpidos adentrou-se em o beco longo e estreito que havia entre a loja de antiguidades 
e a boutique ao lado. 
Os fundos do edifcio era to normal quanto sua frente. Havia uma janela reforada com barras de ao e uma porta dupla que ostentava trs trancas. Ali no havia 
nenhuma luz que anulasse a escurido.
-No parece estpida. 
Ao ouvir a voz se sobressaltou e teria cado sobre um dos cestos de lixo se uma mo no a tivesse segurado pela cintura. Abriu a boca para gritar e levantou o punho 
para lutar quando reconheceu seu  acompanhante. 
- Voc!- ele estava de negro. Mal o via na escurido, mas ela sabia que era ele. 
-Havia imaginado que j tinha satisfeito sua dose de becos -no a soltou, ainda que pensasse que seria o melhor. Sob seus dedos sentiu o ritmo louco de sua pulsaes.
- Tem estado me vigiando! 
-H algumas mulheres que eu custo a abandonar se aproximou. Sua voz soou baixa e spera. Ela pde ver um reflexo de ira em suas olhos. A mistura lhe resultou estranhamente 
atraente-. Que fazes aqui? 
Deborah tinha a boca to seca que lhe doa. Ele estava to prximo que  suas coxas se roavam. Podia sentir o hlito dele em seu lbios. Para assegurar-se um pouco 
de distncia e um pouco de controle, apoiou uma mo mo peito dele. A mo no o atravessou, ao contrrio,  encontrou uma parede slida e clida, sentiu a batida rpida 
e firme de seu corao. 
- assunto meu. 
-Teu assunto  preparar casos e exp-lo nos tribunais, no brincar detetive. 
-No estou brincando... -calou e estreitou os olhos-. Como sabe que sou advogada?
- Sei muito sobre voc, senhorita O'Roarke -sorriu sem nenhum vislumbre de humor-.  assunto meu sab-lo. No acredito que sua irm  tenha trabalhado para pagar 
sua faculdade de direito e a visto se graduando entre os melhores de sua classe para que voc rasteje sorrateiramente em locais estreitos e escuros. E, muito menos, 
quando o local em questo  a fachada de um negcio obscuro.
-Conhece este lugar? 
-Como j falei, conheo muitas coisas. 
Mas para frente se ocuparia da intromisso que ele havia feito em sua vida particular. Neste momento tinha que realizar um trabalho. 
-Se tem alguma informao, alguma prova sobre esta suposta operao de drogas,  teu dever entregar a informao ao escritrio do promotor  pblico. 
-Sou bem consciente de meus deveres. Entre eles no se inclui fazer tratos com a escria.
Ela se ruborizou. Nem sequer questionou como ele estava a par de sua entrevista com Parino. Bastava-lhe com saber que questionava sua integridade. 
-Atuei dentro dos parmetros da lei  assegurou empertigada -.  mas do que voc pode dizer. Veste uma mscara e julgas ser o Capito Amrica, estabelecendo suas 
prprias regras. Isso te converte em parte do problema, no da soluo. 
Sob as aberturas da mscara, ele estreitou os olhos. 
-H algumas noites atrs parecia agradecida pela minha soluo. 
-J lhe agradeci por sua ajuda -levantou as sobrancelhas e desejou poder enfrentar ele em seu prprio terreno, a luz-, Apesar de ter sido desnecessria. 
- sempre to arrogante, senhorita O'Roarke? 
-Confiante -corrigiu. 
-E sempre vence nos tribunais? 
-Possuo um histrico excelente. 
-Sempre ganha? -repetiu. 
-No, mas essa no  a questo.
- Esta  exatamente a questo. Nesta cidade est em guerra. 
-E voc se nomeou general dos mocinhos. 
-No, luto sozinho -no sorriu. 
-Por que no tem...? 
Mas ele a interrompeu com calma, colocando uma mo enluvada em sua boca. O escutou, mas no com os ouvidos. No se tratava de algo que pudesse ser ouvido, era mais 
algo que tivesse sentido, como alguns homens sentiam a fome ou a sede, o amor ou  dio, h sculos atrs quando seus sentidos no se achavam embotados pela civilizao, 
ou perigo. 
Antes de que Deborah tivesse comeado a debater-se, a puxou de lado e a protegeu com seu corpo contra a parede de outro local. 
-Que diabos pensa que est fazendo?
A exploso que soou ao terminar de falar lhe provocou um retumbar poderoso nos ouvidos. O reflexo de luz lhe contraiu as pupilas. Antes que pudesse fechar os olhos 
ao esplendor, viu os fragmentos irregulares dos cristais que voaram pelo ar, e os pedaos de tijolos quebrados. Sob seu corpo, o solo tremeu quando a loja de antiguidades 
explodiu. 
Com horror e fascinao, viu um pedao letal de cimento cado a somente um metro de sua face. 
-Voc est bem? -quando no obteve resposta, tomou-lhe o rosto trmulo entre as mos e a virou para que o olhasse-. Deborah, voc est bem? -teve que repetir sua 
nome duas vezes at conseguir que de sua rosto se desvanecesse a expresso vtrea. 
-Sim -conseguiu balbuciar-. E voc? 
-Voc no l os jornais? -esboou uma sorriso quase imperceptvel-. Sou invulnervel. 
- verdade -suspirou e tentou se sentar.
Durante um momento ele no se moveu, ao contrrio,  deixou seu corpo onde estava, onde queria estar. Colado ao dela. Tinha o rosto a poucos centmetros do de Deborah. 
Perguntou-se o que aconteceria se diminusse a distncia e permitisse que suas bocas se encontrassem. 
Deborah compreendeu que ia beij-la, e ficou absolutamente quieta. A emoo a embargou. No a ira, tal como havia esperado. Ao contrrio, era excitao, descarnada 
e selvagem. A invadiu com tanta velocidade que bloqueou tudo mais. Com um ligeiro murmrio de consentimento, levou a mo a sua face. 
Quando vos dedos lhe roaram a mscara, ele se apartou do contato como se tivesse recebido uma bofetada. Levantou-se e a ajudou a pr-se de p. Lutando contra uma 
poderosa mistura de humilhao e fria, Deborah rodeou a parede em direo  loja de antiguidades. 
Pouco restara dela.  Havia espalhado tijolos, cristais e cimento. No interior do local, ardia o fogo. O teto veio abaixo com um gemido prolongado e sonoro.
-Eles se adiantaram -sussurrou ele-. No ficar nada que possa encontrar... nem papis, nem drogas nem registros. 
-Destruram o local  deixou escapar o ar entre os dentes apertados. Disse a si mesma que no havia querido que ele a beijasse .Havia estado sacudida, aturdida, 
vtima de uma loucura temporria-. Mas deve de ter um proprietrio, e averiguarei quem . 
-Isto foi uma advertncia. Uma que voc deveria escutar.
-No me assustaro. Nem pela destruio de edifcios nem por voc -se voltou para olh-lo, mas no a surpreendeu quando no mais o avistou.






Captulo 3



J passada da uma da manh quando Deborah chegou ao seu apartamento. Tinha dedicado quase duas horas respondendo  perguntas,  e fazendo objees em sua declarao 
 polcia e evitando os jornalistas. Mas durante todo  o processo experimentou uma persistente irritao para com o homem chamado Nmesis. 
Tecnicamente  tinha voltado a salvar lhe a vida. Devia estar a trs metros da loja de antiguidades quando a bomba estourou, sem dvida teria tido uma morte desagradvel. 
Mas a tinha obrigado a contar uma histria complicada  antes da polcia, sem importar que fosse ajudante do promotor.
E adicionado a isso, tinha deixado claro, na breve conversa mantida no ter o mnimo respeito algum por sua profisso ou juzo. Tinha estudado e trabalhado para 
atingir o objetivo de ser promotora desde que tinha dezoito anos. Mas ele, com um simples encolhimento de ombros, descartava esses anos de sua vida como um tempo 
desperdiado. 
No, pensou enquanto remexia na bolsa procurando as chaves, ele prefere percorrer as ruas oferecendo seu pessoal sentido da justia. Isso era inaceitvel. Antes 
que tudo terminasse, pensava em demonstrar-lhe que o sistema funcionava.
E ao mesmo tempo  demonstraria a si mesma que no  tinha se sentido atrada por ele. 
-Parece que teve uma noite dura. 
Com as chaves na mo, Deborah se voltou. Sua vizinha da frente, a senhora Greenbaum, achava-se de p no umbral de sua casa, olhando-a atravs dos culos cor de cereja. 
-Senhora Greenbaum, que faz levantada?
-Acabo de terminar de ver o programa de David Letterman. Esse garoto me encanta -com setenta anos e uma cmoda penso para proteg-la das tormentas da vida, Lil 
Greenbaum tinha seu horrio pessoal e fazia o que lhe apetecia. Nesse momento vestia uma camisola de flanela, sapatilhas e um lao de um rosa pink em seu cabelo 
tingido-. No quer beber algo? O que acha de um chocolate quente? 
Deborah ia declinar quando se deu conta de que era exatamente isso que ansiava. Sorriu, guardou as chaves no bolso da jaqueta e cruzou a rua.
- Espero que seja uma dose dupla. 
-J coloquei o leite ao fogo. Sente-se e tire o sapato lhe indicou com a  mo e se dirigiu  cozinha.
Agradecida, Deborah se estendeu sobre as almofadas de um sof. A televiso seguia ligada; nesse momento passavam uma velha pelcula em branco e preto. Reconheceu 
um jovem Cary Grant, mas no o filme que passava. A senhora Greenbaum o saberia. Sabia de tudo. 
O apartamento de dois dormitrios, um dos quais sempre estava preparado para qualquer um de seus numerosos netos, achava-se abarrotado de coisas e arrumado. As mesas 
exibiam fotografias e enfeites, entre os quais predominava um smbolo da paz lavrado em latim. Lil era orgulhosa por ter marchado contra o governo nos anos sessenta. 
Igualmente orgulhosa por ter protestado contra os reatores nucleares, a Guerra das Galxias, queima-a dos bosques tropicais e o aumento da manuteno dos servios 
mdicos pblicos.
Com freqncia  dizia a Deborah que gostava de protestar. Em suas palavras, Quando podemos protestar contra o sistema, significa que estamos vivos.
-Aqui est -trazia duas xcaras de cermica. Jogou uma olhada ao televisor-. Penny Serenade, 1941. Que atraente era Cary Grant, verdade? -depois de deixar as xcaras 
na mesinha,  pegou o controle e desligou o televisor. E agora  diga-me, em quais problemas voc anda se metendo?
-Est to na cara? 
A senhora Greenbaum bebeu um gole de ch enriquecido com umas gotas de whisky. 
-Sua roupa  um desastre -se aproximou e observou-. Cheira a fumaa. Tem o rosto sujo, a meia desfiada e fogo nos olhos. Por sua expresso, tem que ter se envolvido 
com  um homem.
-O departamento de polcia gostaria de contar com seus servios, senhora Greenbaum -bebeu o chocolate e absorveu seu calor-. Estava realizando um pouco de trabalho 
de campo. O lugar que examinava explodiu.
-Ficou ferida? -o interesse que tinha mostrado se transformou em preocupao. 
-No. S alguns arranhes fariam companhia aquelas que ganhara na semana anterior -. Imagino que meu ego sofreu um pouco. Encontrei-me com Nmesis -no tinha 
mencionado seu primeiro encontro porque era consciente da profunda adorao que sua vizinha  tinha pelo homem de negro.
-O viu pessoalmente? -os olhos estiveram a ponto de saltar-se das rbitas. 
-O vi, falei com ele e terminou por atirar-me ao solo um momento antes de que explodisse o lugar.
-Deus -Lil se levou a mo ao corao-.  muito mais romntico que quando conheci ao senhor Greenbaum na manifestao diante do pentgono. 
-No teve nada de romntico. O homem  impossvel, mais parece um manaco e decididamente perigoso. 
- um heri -lhe apontou com um dedo-. Ainda no aprendeu a reconhecer os heris. Isso por que hoje em dia h muito pouco deles. Bem, como ele ? Os relatos so 
confusos. Um dia  um homem negro de dois metros e ao seguinte um vampiro plido com caninos. No outro dia li que era uma mulher pequena com olhos vermelhos.
-No  uma mulher -murmurou. Recordava com muita clareza o contato de seu corpo-. No posso lhe dizer como ele . Estava escuro e seu rosto  quase todo coberto 
com uma mscara negra. 
-Como o Zorro? -perguntou a anci  esperanosa.
-No. Bem, no sei. Talvez suspirou e decidiu satisfazer a sua vizinha-. Mede um metro oitenta ou oitenta e cinco, Acredito, delgado e de compleio forte. 
- Qual  a cor de seu  cabelo? 
-Estava escondido. S vi a mandbula -forte, tensa-. E a boca -tinha boiado durante um momento longo e excitante sobre a sua-. Nada especial -se apressou a comentar, 
e bebeu mais chocolate.
-Mmm -a senhora Greenbaum tinha suas prprias idias. Tinha-se casado e enviuvado duas vezes, e entre seus casamentos tinha desfrutado do que ela considerava uma 
quantidade apropriada de romances. Reconhecia os sinais-. Seus olhos? Sempre podes reconhecer a qualidade de um homem por seus olhos. 
-Escuros -Deborah rio entre dentes. 
-Escuros como? 
-S escuros. Ele se mantm nas sombras. 
-Se move entre as sombras para erradicar o mau e proteger os inocentes. Que h mais romntico que isso?
-Ele enfrenta o sistema. 
-Exato. Deveria ter mais homens como ele. 
-No digo que no tenha ajudado a algumas pessoas, mas para isso temos a agentes da lei especialmente treinados -franziu o cenho. Em cada ocasio em que tinha precisado 
ajuda no tinha encontrado  nenhum policial. Tambm no podiam estar em todas partes. Decidiu empregar seu ltimo e definitivo argumento-. No mostra nenhum respeito 
pela lei. 
-Penso que esteja enganada. Me parece que ele a respeita muito. Simplesmente a interpreta de maneira diferente da sua.  voltou a balanar a mo-.  uma boa garota, 
Deborah, e inteligente, mas foi treinada para caminhar por um caminho muito estreito. Deve recordar que este pas se fundou pela rebeldia. Com freqncia nos esquecemos 
disso, depois ficamos condescendentes e preguiosos at que surge algum que questiona o status vigente. Precisamos dos rebeldes do mesmo modo que precisamos dos 
heris. Sem eles, o mundo seria um lugar aborrecedor e triste
- possvel -ainda que no estivesse convicta-. Mas tambm precisamos regras. 
-Oh, sim -a senhora Greenbaum sorriu-. PRECISAMOS DELAS. De que outro modo poderamos romp-las? 





Gage manteve os olhos fechados enquanto o motorista levava a limusine pela cidade. No dia decorrido desde a noite da exploso, tinha pensado em dzias de razes 
para cancelar seu encontro com Deborah Ou'Roarke. 
Todas eram pragmticas, lgicas, cordatas. Uma pouco prtica, ilgica e potencialmente louca as contradizia.
PRECISAVA DELA. 
Interferia com seu trabalho, de dia e de noite. Desde o momento em que a viu, no tinha sido capaz de pensar em ningum mais. Tinha empregado sua vasta rede de computadores 
para obter toda a informao disponvel sobre ela. Sabia que tinha nascido em Atlanta fazia vinte e cinco anos e que tinha perdido  seus pais de forma trgica e 
brutal quando tinha doze. Sua irm a tinha criado e juntas tinham vivido em vrios estados do pas.
A irm trabalhava na rdio e nesse momento era diretora da KHIP/ em Denver; onde Deborah tinha feito universidade. 
Ao acabar a graduao tinha solicitado um posto no escritrio do promotor do distrito em Urbana, onde tinha ganhado fama de ser meticulosa e ambiciosa. 
Sabia que tinha tido uma relao amorosa importante em seu perodo universitrio, ainda que desconhecesse por que tinha terminado. Logo tinha sado com diversos 
homens, ainda que no tivesse tido nenhuma relacionamento srio. 
Odiava o fato de que essa informao lhe tivesse proporcionado um tremendo alvio. 
Estava seguro de que representava um perigo para ele, entendia isso mas era incapaz de evitar. Inclusive depois de seu encontro a noite anterior, quando tinha estado 
a ponto de fazer-lo perder o controle, no era capaz de tirar da mente. 
Continuar vendo-a significava continuar enganando-a. E a si mesmo tambm.
Mas quando o carro se deteve diante de sua casa, saiu, entrou no prdio pegando o elevador at seu andar.
No momento em que Deborah ouviu o telefonema, deixou de caminhar pela sala. Tinha se perguntado nos ltimos vinte minutos por que tinha aceitado sair com um homem 
ao qual mal conhecia e que ainda por cima tinha fama de ser um grande sedutor, mas casado s com seus negcios. 
Teve que reconhecer que tinha cado sob seu encanto e a corrente subterrnea de perigo que emanava dele. Era possvel que inclusive tivesse ficado fascinada por 
sua tendncia a dominar, o qual representava um desafio. Disse a si mesma que no importava, que s era um encontro para jantar. No era ingnua e no esperava nada 
mais que uma boa comida e uma conversa inteligente.
Deborah ia vestida de azul. De algum modo Gage tinha sabido que assim seria. A saia azul de seda fazia jogo com seus olhos. Era singela e curta, celebrando suas 
pernas longas e formosas. A jaqueta quase masculina fez que se perguntasse se embaixo usaria algo. O lustre que tinha junto  porta captava o reflexo azul e alvo 
das pedras que levava nas orelhas. 
Os elogios padres que estava acostumado a dispensar neste momento lhe faltaram. 
-Est pronta -conseguiu comentar. 
-Sempre - sorriu-.  como um vcio -fechou a porta a suas costas sem convid-lo a entrar. Parecia mais seguro dessa maneira. Momentos mais tarde se acomodou na limusine 
e prometeu aproveitar a noite-.         Sempre viaja assim? 
-No. S quando  mais conveniente.  
- Se fosse meu eu o faria -incapaz de resistir-se, tirou-se os sapatos e deixou que seus ps se afundassem no macio tapete-. Seria maravilhoso no me preocupar em 
conseguir um txi ou correr para pegar um metro.
-Mas deixar de conhecer muitas histrias. Conhecer pessoas. 
-No me diga que viaja de metr - se voltou para ele. Com aquele traje escuro e gravata de riscas sutis parecia um homem de sucesso. Levava uns abotoaduras de ouro 
nos punhos de sua camisa branca. 
-Quando resulta mais conveniente -sorriu-. Talvez crs que o dinheiro deveria ser usado para se isolar da realidade? 
-No, em absoluto. Na realidade, jamais tive o suficiente para verme tentada. 
-No a tentaria  se contentou, ou pelo menos tentou, brincando coma ponta de seu cabelo-. Poderia ter se dedicado ao trabalho particular, de pessoas importantes, 
com um salrio que teria feito que o cheque que te do no escritrio do promotor parecer trocado. E no o fez. 
-No pense que no h momentos que eu questiono minha prpria insensatez. - encolheu os ombros. Olhou pela janela-. Aonde vamos?
- Jantar. 
-Me alivia sab-lo, j que no pude comer. Referia-me ao lugar. 
-Aqui -lhe tomou a mo quando a limusine se deteve. 
Tinham chegado at o limite da cidade, at o mundo do dinheiro e do prestgio. Ali o som do trfico s era um eco distante, e se percebia o leve e delicado aroma 
das rosas em flor. 
Deborah conteve uma exclamao ao sair para a calada. Tinha visto fotos daquela casa, mas era muito diferente de estar diante dela. Erguia-se imensa sobre a rua, 
e ocupava meio quarteiro.
Tinha um estilo gtico, construda por um filantropo no comeo do sculo. Em alguma parte tinha lido que Gage a tinha comprado antes de que lhe dessem alta no hospital. 
Pelo cu se erguiam torres e chamins. As imensas janelas resplandeciam com o sol que comeava a se esconder no oeste. As sacadas sobressaam e rodeavam as paredes 
abraando toda a construo. O ltimo andar era dominado por uma abbada de vidro e de l podia se completar toda a cidade.
-Vejo que leva a srio a idia de que o lar de um homem  seu castelo. 
-Eu gosto  do espao e da privacidade. Mas decidi descartar o fosso -ela riu e se dirigiu para as portas talhadas da entrada-. Quer que eu lhe mostre tudo antes 
do jantar? 
-Est de brincadeira? -enlaou o brao com o de Gage-. Por onde comeamos? 
A conduziu por corredores sinuosos, sob tetos altos, e quartos enormes e pomposos. Ele no recordava de ter desfrutado tanto de seu lar como vendo pelos olhos dela.
Tinha uma biblioteca de dois nveis que continha desde primeiras edies at livros de bolso velhos. Sales com sofs antigos e delicadas porcelanas. Vasos Ming, 
cavalos Tang, cristais de Lalique e cermica maia. As paredes estavam pintadas com cores ricas e profundos, enfeitadas com frisos lustrosos e quadros impressionistas.
A ala leste continha um jardim de inverno tropical, uma piscina coberta e um ginsio plenamente equipado com um jacuzzi e uma sauna separados. Por outro corredor 
e subindo por uma escada curva, tinha dormitrios mobiliados com camas com dossel e com cabeceiras talhados em madeira nobre. 
Deborah deixou de contar as habitaes. 
Mais escadas, depois um gabinete enorme com uma escrivaninha de mrmore negro e uma ampla janela que com o crepsculo tinha adquirido uma tonalidade rosada. Alguns 
computadores esperavam em silncio.
Uma sala de msica, completada com um piano de cauda e uma velha radiola Wurlitzer. Quase mareada, entrou num salo de baile coberto de espelhos e observou seu reflexo 
multiplicado. No teto, trs candelabros cintilavam com uma luz suntuosa
- como uma manso tirada de filme -murmurou. Seguindo um impulso, deu trs rpidas voltas-.  incrvel, sem dvida. No sente nunca o desejo de vim aqui e danar?
-No at agora -surpreendendo-os aos dois, tomou-a pela cintura e a fez danar uma valsa. 
Deborah deveria de ter rido, deveria de ter-lhe lanado uma olhada divertida e coquete e ter aceitado o impulso pelo que era. Mas no pde. S foi capaz de olh-lo 
fixamente nos olhos enquanto ele a fazia dar mais e mais giros no salo com espelhos. 
Tinha uma mo apoiada no ombro de Gage e a outra entre seus dedos. Seus passos estavam sincronizados, ainda que no raciocinasse. Tolamente, perguntou-se se ele 
ouviria na cabea a mesma msica que ela.
Gage no ouvia outra coisa se no a firme respirao de Deborah. No recordava ter sido to completamente e exclusivamente consciente de uma pessoa. O modo em que 
suas pestanas longas e escuras lhe emolduravam os olhos. A linha sutil de tonalidade acobreada que se tinha passado pelas plpebras. O brilho plido, mido e rosado 
nos lbios. 
Ali onde a mo se posava em sua cintura, a seda irradiava o calor dela. E esse corpo parecia fluir com o seu, antecipando cada passo, cada giro. Seu cabelo se abria, 
provocando-lhe o profundo desejo de lhe acariciar. Sua fragrncia flutuava em torno dele, no de tudo doce e de uma tentao absoluta. Gage se perguntou que sabor 
teriam  em seus lbios se os colasse  longa coluna branca do pescoo de Deborah.
Esta notou a mudana em seus olhos  medida que aumentava o desejo e no s o seguiu com os ps, como tambm com a necessidade. Sentiu que crescia e se estendia 
por seu interior como algo vivo, at que seu corpo latejou. Curiosa, inclinou-se para ele. 
Gage se deteve. Por um momento permaneceram quietos, refletidos dzias e dzias de vezes. Um homem e uma mulher atracados num abrao tentador,  beira de algo que 
nenhum dos dois entendia. 
Ela se moveu primeiro, dando um cauteloso passo para atrs. Era sua natureza analisar todo com precauo antes de tomar uma deciso. A mo dele se fechou com mais 
firmeza em torno da sua. Por algum motivo, Deborah  considerou o gesto como uma advertncia. 
-Eu... minha cabea est girando. 
Muito devagar, Gage separou a mo de sua cintura e o abrao se rompeu.
-Ento  melhor eu aliment-la. 
-Sim -quase conseguiu esboar um sorriso. 
Jantaram camares ao molho de laranja e alecrim. Ainda que ele tivesse mostrado o enorme refeitrio com seus pesados aparadores de madeira, jantaram num salo pequeno 
com a mesa disposta junto a um observatrio. Entre taas de champanhe, podiam observar o crepsculo sobre a cidade. Na mesa, entre ambos, tinha duas finas e longas 
velas brancas e uma nica rosa vermelha. 
- Daqui a cidade  formosa -comentou ela-. Podemos ver todas as suas possibilidades e nenhum de seus problemas.
-As vezes ajuda dar um passo atrs -contemplou um momento a cidade, depois girou a cabea, como se a descartasse-. Caso contrrio, esses problemas podem lhe consumir.
-Mas  voc segue sendo consciente deles. Sei que doa muito dinheiro aos sem tetos, aos centros de reabilitao e a outras organizaes. 
- fcil entregar dinheiro quando Tem mais do que precisa.
-Isso soa cnico. 
-Realista -seu sorriso era relaxado-. Sou um homem de negcios, Deborah. Os donativos se podem ser deduzir dos impostos. 
-Acredito que seria uma verdadeira pena que as pessoas fossem generosa s quando isso a beneficia -franziu o cenho e o estudou. 
-Fala como uma idealista. 
- a segunda vez em questo de dias que me acusa disso -irritada, deu alguns pequenos golpes com o dedo na mesa-. Acredito que no gosta de mim.
-No pretendia ser um insulto, s uma observao -levantou a vista quando Frank entrou com os sufls de chocolate-. No precisaremos de nada mais esta noite. 
-Muito bem o homem robusto encolheu os ombros. 
Deborah notou que Frank se movia com a graa de um bailarino, um talento estranho para um homem to grande e magro. Pensativa, introduziu a colher  na sobremesa. 
- seu motorista ou seu mordomo? -perguntou. 
-Ambas as coisas . E nenhuma -lhe recheou a copa de champanhe-. Poderia dizer que  um colega de outra vida. 
-E o que isso significa? -intrigada, arqueou uma sobrancelha. 
-Era um batedor de carteiras que encerrei duas vezes sendo polcia. Depois foi meu enfermeiro. Agora... conduz meu carro e abre minha porta, entre outras coisas. 
-No consigo imaginar voc trabalhando nas ruas.
-Sim, suponho que sim -lhe sorriu e observou o modo em que a luz das velas danava em seus olhos. 
-Quanto tempo foi policial? 
-Me excedi  em uma noite -reps e lhe tomou a mo - Quer ver a vista do telhado? 
-Sim -se afastou da mesa, compreendendo que o tema de seu passado era um livro fechado. Em vez de usar as escadas, levou-a num elevador de vidros escuros-. Todas 
as comodidades -disse enquanto subiam-.  Me surpreende que esta casa no tenha vindo equipada com masmorras e passagens secretas. 
-Oh,claro que as tem. Talvez eu as mostre... em outra ocasio. 
Em outra ocasio, pensou ela. Queria que tivesse outra ocasio? Sem nenhum sombra de dvidas tinha sido uma noite fascinante, e com a exceo do momento de tenso 
no salo de baile, uma noite cordial. No entanto, apesar dos modos extraordinrios de Gage, percebia algo perigoso sob sua fachada.
Teve que reconhecer que era isso  que a atraa nele. Do mesmo modo que era o que a punha nervosa. 
- No que est pensando? 
Deborah decidiu que era melhor ser sincera. 
-Me perguntava quem  voc e se queria permanecer ao seu lado  tempo suficiente para averiguar.
As portas do elevador se abriram, mas ele no se moveu. 
-E chegou a que concluso?
-No estou segura -saiu para a torre mais alta da manso. Com um som de surpresa e prazer, dirigiu-se para a ampla abbada de cristal. Alm, o sol se tinha posto 
e a cidade estava banhada em sombras e luz-.  espetacular -se voltou com um sorriso no rosto-. Espetacular. 
-Melhor -apertou um boto da parede. Em silncio, como por arte de magia, o cristal se deslizou para as laterais. Tomou-a pela  mo e a guiou para a sacada de pedra. 
Deborah apoiou as mos no balastre e se sentiu o vento quente que agitava o ar.
- Consegue-se ver as rvores do Parque da Cidade, e o rio -com gesto impaciente, apartou-se o cabelo dos olhos-. Os edifcios esto to bonitos com as luzes acesas... 
-na distncia, contemplou as luzes brilhantes da ponte suspendida de Dover Heights. Eram como um colar de diamantes contra a escurido. 
-Quando amanhece, os edifcios adquirem uma tonalidade cinza prola e rosa. E o sol converte todo o cristal em fogo. 
-Por isso comprou a casa, pela vista? -o olhou. 
-Cresci a poucos quarteires daqui. Sempre que amos ao parque, minha tia a mostrava. Encantava-lhe. De menina tinha vindo aqui nas festas... em companhia de minha 
me. Eram amigas desde a infncia. Eu fui filho nico, primeiro para meus pais e depois para meus tios. Quando regressei e me inteirei de que tinham morrido... bom, 
a princpio no fui capaz de pensar muito. Depois me pus a refletir sobre esta casa. Pareceu-me apropriado compr-la e viver nela.
- No h nada mais difcil do que perder as pessoas do que amamos e precisamos, verdade? -apoiou uma mo na dele sobre o balastre. 
-No -quando a olhou, viu que seus olhos brilhavam com suas prprias recordaes e com simpatia pelos seus. 
Ergueu uma mo at a face feminina e com os dedos lhe apartou o cabelo, moldando sua queixo com a palma. A mo de Deborah tremeu e pousou sobre a dele. Sua voz soou 
insegura. 
-Deveria ir-me. 
-Sim, deveria -mas no afastou a mo do rosto ao mover-se para imobiliza-la com o corpo contra o  parapeito de pedra. Subiu a mo livre por seu pescoo at emoldurar-lhe 
a rosto-. Alguma vez sentiu impulsionada a dar um passo que sabia que era um erro? Sabia mas no podia deter-se? 
Uma nvoa comeava a apoderar-se da mente de Deborah; moveu a cabea para dispersa-la.
-Eu... no. No, acredito que no gosto de cometer erros -mas j sabia que estava a ponto de cometer um. As mos de Gage eram clidas e speras sobre sua pele. Seus 
olhos eram escuros e intensos. Por um momento piscou, tomada por uma poderosa sensao de dj vu. 
No entanto, enquanto ele lhe acariciava a mandbula com os polegares, assegurou-se que nunca antes tinha estado ali. 
-A mim tambm no -Deborah gemeu e fechou os olhos, mas ele s lhe roou a testa com os lbios. O ligeiro sussurro do contato lhe provocou uma reao poderosa. Na 
noite quente ela tremeu enquanto a boca de Gage  deslizava com suavidade sobre sua tmpora-. Desejo voc -afirmou com voz rouca e tremula enquanto os dedos se fechavam 
em seu cabelo. Ela abriu muito os olhos-. Mal posso respirar pelo muito que a desejo. Voc  meu erro, Deborah. O nico que jamais acreditei que cometeria.
Baixou a boca com fora e fome, sem nada da seduo lenta que Deborah tinha esperado. Disse a si mesma que devia  ter oferecido resistncia. Nesse gesto no tinha 
nada do homem amvel e sofisticado com  quem tinha jantado. Era o homem temerrio e perigoso do que mal tinha vislumbrado algo. 
ASSUSTAVA. FASCINAVA. SEDUZIA. 
Sem vacilao, sem cautela nem reflexo, respondeu ao toque, oferecendo o poder e a necessidade que Gage entregava. 
No sentiu a pedra spera contra as costas, s o comprimento duro e longo de seu corpo  medida que a pressionava contra o seu. Pode saborear o gosto de champanhe 
em sua lngua e algo mais escuro, o potente sabor da paixo mal refreada. Com um gemido de prazer, aproximou-se mais at  que foi capaz de sentir as batidas de seu 
corao.
Ela era mais do que Gage tinha sonhado. Toda seda, fragrncia e beleza. Tinha a boca ardente e cedia  sua, para depois exigir. Deborah introduziu as mos sob sua 
jaqueta e jogou a cabea atrs numa rendio tentadora que o deixou louco. 
Com os dentes a mordiscou e com a lngua a aplacou, aproximando-se mais e mais at o limite da razo.  Absorveu a exclamao emitida por ela e deslizou as mos por 
seu corpo, procurando, moldando, tomando. 
A sentiu tremer e depois experimentou seu prprio tremor antes de se agarrar a um ltimo vestgio de controle. Com certa cautela, como um homem que retrocede de 
um precipcio, afastou-se dela. 
Aturdida, Deborah levou uma mo  cabea. Lutando para recuperar a respirao, olhou-o fixamente. Perguntou-se que classe de poder tinha, que era capaz de transform-la 
de uma mulher sensata num pudim trmulo de necessidades.
Deu a volta para apoiar-se no balastre e engoliu o ar como se fosse gua e se estivesse morrendo de sede. 
-Acredito que no estou preparada para voc -conseguiu murmurar. 
-No. Eu tambm no acredito que esteja para voc. Mas no temos como voltar atrs. 
Ela moveu a cabea. Apertava com tanta fora o balastre que a pedra lhe fincava a pele. 
-Terei que o que pensar. 
-Quando se vira a esquina, no h mais remdio do que seguir adiante.
Mais calma, tentou recuperar a razo. Era hora de estabelecer algumas regras. Para ambos. 
-Gage, no sei o que pode estar pensando depois do que aconteceu, mas no tenho relaes com homens que mal conheo. 
-Bem ele tambm estava mais calmo. Sua deciso estava tomada-. Quando tivermos a nossa, quero que seja exclusiva.
- evidente que no me expliquei com clareza -manifestou com frieza-. No decidi se quero me ligar a voc, e no estou segura se desejo que isto termine na cama.
-J est ligada comigo estendeu  a mo e a apoiou em sua nuca antes de que ela pudesse escapar-. E ambos desejam que isto termine na cama.
Com gesto lento, Deborah levantou a mo para tirar a dele. 
-Entendo que esteja acostumado com as mulheres que se rendem a teus ps. No  minha inteno me juntar a horda. Tomo minhas prprias decises. 
-Terei que beij-la de novo? 
-No -apoiou com firmeza a palma contra o peito de Gage. No mesmo instante recordou  que ficara naquela  mesma postura  com o homem chamado Nmesis. A comparao 
a emocionou-. No. Foi uma noite magnfica, Gage -respirou fundo-. Falo srio. Desfrutei de sua companhia, do jantar e... e da vista. Odiaria que a estragasses mostrando-te 
arrogante.
- No  arrogncia aceitar o inevitvel. No tem por que gostar para aceit-lo -algo se moveu em seus olhos-. Existe uma coisa chamada destino, Deborah. Tive muito 
tempo para meditar sobre isso e fao uma idia -franziu o cenho-. Que Deus ajude a ns dois, mas voc faz parte do meu -lhe ofereceu uma mo-. Te levarei a casa.














Captulo 4


Gemendo, com os olhos bem fechados, Deborah tateou com a mo  procurando o telefone que soava na mesinha de cabeceira. Atirou um livro, um candelabro de lata e um 
bloco de notas antes de conseguir levantar o fone e arrast-lo sob o travesseiro. 
-Oi? 
-O'Roarke? 
-Sim respondeu depois de pigarrear. 
-Aqui Mitchell. Temos um problema. 
-Problema? - tirou o travesseiro da cabea e vasculhou o despertador. O nico problema que via era que seu chefe a chamava s quinze para seis da manh-.  que se 
atrasou o juz de Slagerman? Devo apresentar-me s nove no tribunal? 
-No.  Parino.
-Parino? -se passou uma mo pelo rosto e se esforou por sentar-se-. Que houve com ele? 
-Est morto. 
-Morto -moveu a cabea para dispersar o nevoeiro de sua mente-. Como assim est morto? 
-Numa vala -disse Mitchell-. O guarda o encontrou faz uma meia hora. 
J estava desperta, sentada e com o crebro feito um redemoinho. 
-Mas... mas, como? 
-Apunhalado. Ao que parece se aproximou para falar com algum e lhe fincaram um estilete no corao. 
-Oh, Deus
-Ningum ouviu nada. Ningum viu nada -comentou deixando claro o desagrado-. Tinha uma nota colada a suas calas. Os pssaros mortos no cantam. 
-Algum descobriu que ele estava nos passando informaes.
-E pode apostar que vou averiguar quem foi. Escuta, O'Roarke, aqui no estamos conseguindo aplacar  imprensa. Imaginei que iria querer saber por mim em vez de saber 
a notcia durante o caf da manh. 
-Sim -se levou uma mo ao estmago revolto-. Sim, obrigada. E o que disse Santiago? 
-Ainda no apareceu. Tentamos localiz-los mas ele se escondeu. Imagino que vai passar um bom tempo sem que consigamos notcias dele.
-Tambm iria depois disso -murmurou-. Quem quer que arrumou o assassinato de Parino vai querer morto Ray Santiago. 
-Ento deveremos encontr-lo primeiro. Ter que adiar este assunto -lhe disse-. Sei que  duro, mas agora sua prioridade  o caso Slagerman. O rapaz conseguiu um 
advogado muito astuto. 
- Poderei manej-lo. 
-Jamais duvidei disso. Esmague-os. 
- Sim, o farei desligou a ficou olhando o vazio at que o despertador soou as seis e meia.
-Ei! Ei, preciosa -Jerry Bower subiu os degraus do tribunal atrs de Deborah-. Cus, isso sim que  concentrao -ofegou quando e por fim a deteve pelo brao-. Estou 
chamando voc a algum tempo. 
-Sinto muito. Tenho de estar no tribunal em quinze minutos. 
Ofereceu um sorriso e a observou. Deborah tinha prendido o cabelo e usava prolas nas orelhas. O traje vermelho de algodo era de corte severo, ainda que no pudesse 
ocultar todas as suas curvas sutis. O resultado era competente, profissional e absolutamente feminino. 
-Se  eu fizesse parte do jri, lhe daria um veredicto de culpa antes que terminasses sua exposio inicial. Est incrvel.
-Sou uma advogada -rebateu-. No a Miss Novembro. 
-Ei -teve que correr mais trs degraus para atingi-la-. Sinto, foi um elogio vulgar. 
-No, me desculpe -conseguiu conter-se-. Esta manh estou um tanto susceptvel. 
-J sei o que aconteceu com Parino. 
-As notcias voam depressa -com gesto sombrio, continuou subindo. 
- apenas mais uma estatstica. No deixe que ele te afete. 
-Merecia ter um julgamento -disse ao atravessar o cho de mrmore do vestbulo em direo aos elevadores-. At ele merecia. Sabia que tinha medo, mas no o levei 
bastante a srio. 
- No acredito que isso tivesse mudado algo. 
-No o sei -era a nica pergunta com  que teria que viver o resto de sua vida-. Simplesmente no  sei.
-Olhe, a agenda do prefeito est apertada hoje. Pela noite tem um jantar, mas acredito que poderei escapar antes do brandy e do charuto. O que acha de pegarmos a 
ltima seo do cinema?
-Hoje sou m companhia, Jerry. 
-Sabe que isso no importa.
-A mim sim -o fantasma de um sorriso apareceu em seus lbios-. Eu poderia te morder e voc me odiaria - entrou no elevador 
-Advogados -lhe sorriu e levantou o dedo polegar antes  que as portas se fechassem. 
A imprensa a aguardava no quarta andar. No tinha esperado outra coisa. Passou entre os jornalistas com andar rpido, oferecendo respostas secas e breves. 
- Espera mesmo que um jri condene um cafeto por golpear algumas de suas garotas?
-Sempre espero ganhar quando entro num tribunal. 
-Vai chamar s prostitutas para depor? 
-Ex prostitutas -corrigiu sem responder. 
- verdade que Mitchell lhe atribuiu este caso por  voc ser mulher? 
-O promotor do distrito no elege a seus advogados pelo sexo. 
-Se sente responsvel da morte de Carl Parino? 
Isso a deteve no umbral do tribunal. Mirou ao redor e viu o jornalista de cabelo castanho encaracolado, olhos marrons e famintos e  a careta sarcstica. Chuck Wisner. 
J tinham se enfrentado uma vez e voltaria a faz-lo. Em sua coluna diria no World preferia o sensacionalismo a verdade. 
-O escritrio do promotor do distrito lamenta que Carl Parino tenha sido assassinado e no lhe fosse negada a oportunidade de ter um julgamento. 
Com movimento rpido, ele lhe bloqueou o caminho. 
-Mas, se sente responsvel? Depois de todo, foi voc quem estabeleceu um trato com ele.
Ignorou o impulso de querer se defender e o encarou. 
-Todos somos responsveis, senhor Wisner. Desculpe-me. 
Ele simplesmente se moveu, afastando-a da porta. 
-Teve mais um encontro com Nmesis? Que pode contar-nos de suas experincias pessoais com o mais novo heri da cidade? 
Deborah sentiu que estava a ponto de estourar. E o pior era isso que ele queria. 
-Nada que possa competir com sua criatividade. Agora, seja amvel e me de licena.
-No to importante j que voc est se relacionando socialmente a Gage Guthrie. Tm um romance?  um tringulo selvagem, verdade? Nmesis, Guthrie e voc.
-Consiga uma vida prpria, Chuck -sugeriu, depois o apartou com o cotovelo. 
Mal disps de tempo para ocupar a mesa do promotor e abrir a valise antes de que entrasse o jri. A defesa e ela tinham demorado dois dias  elegendo seus membros; 
estava satisfeita com a mistura de gneros, raas e profisses de seus componentes. No obstante, ia ter que convencer a esses doze homens e mulheres de que um par 
de prostitutas mereciam justia. 
Voltou-se um pouco e estudou s duas mulheres da primeira fila. Tinham seguido suas instrues e  vestido com singeleza, com um mnimo de maquiagem e  laque no cabelo. 
Sabia que as duas iam ser julgadas esse dia, tanto como o homem sentado no banco do ru. Estavam muito juntas, mulheres jovens e bonitas que poderiam ter sido tomadas 
por estudantes universitrias. Sorriu-lhes para tranqiliz-las e lhes deu as costas.
James P. Slagerman se encontrava sentado atrs da mesa do advogado de defesa. Tinha trinta e dois anos era loiro e estava atraente com traje escuro e gravata. Dava 
o aspecto preciso do que afirmava ser, um jovem executivo. Seu servio de escolta era perfeitamente legal. Pagava seus impostos e contribua a obras de caridade. 
A principal tarefa de Deborah seria convencer o jri  que ele no diferia em nada de um cafeto de rua, que ganhava dinheiro com a venda do corpo de uma mulher. 
At ento, no acalentava esperanas de que o condenassem por agresso 
Quando anunciou o juiz, a sala se ps de p. 
Deborah realizou uma exposio breve, centrando-se no jri enquanto expunha os fatos. No tentou deslumbrar-los. J era consciente de que esse era o estilo da defesa. 
Com sua conteno esperava captar a ateno do jri com o contraste da singeleza.
-Terei que subir hoje para depor, senhorita O'Roarke? -Marjorie no parou de mover-se em seu assento. Ainda que os hematomas tivessem desaparecido nas semanas decorridas 
desde a surra, a mandbula ainda lhe doa-. Talvez tenha bastado com o que disseram os mdicos e Suzanne e eu no tenhamos que testemunhar. 
-Marjorie -apoiou uma mo sobre a da jovem e a encontrou fria e trmula-. Escutaro os mdicos e olharo as fotos. Iro acreditar que Suzanne e voc foram golpeadas. 
Mas ser voc, ambas, que  convencero ao jri que Siagerman foi quem o fez, que no  o agradvel um homem de negcios que finge ser. Se vocs deixarem ele sair 
livre dessa, ele voltara a fazer.
Suzanne mordeu o lbio.
 
-Jimmy disse que de qualquer modo o absolvero. Que eles sabem que somos putas, ainda que voc nos ajude a consegui trabalhos normais. Disse que quanto tudo acabar 
vai nos encontrar e nos machucar de verdade.
-Quando ele disse isso? 
-Nos ligou ontem a noite-os olhos de Marjorie se encheram de lgrimas-. Descobriu onde vivamos e nos ligou. Disseque amos nos dar mal-se secou uma lgrima com 
o dorso da mo-. Disse que ia fazer que lamentssemos ter iniciado este processo. No quero que ele volte s nos machucar. 
-No o far. No posso ajudar vocs se vocs no me ajudarem, a no ser que no confie em mim.
Durante sessenta minutos falou, tranqilizou-as e as convenceu com promessas. s duas da tarde, assustadas voltaram ao tribunal.
-O estado chama a Marjorie Lovitz -anunciou Deborah, lanando-lhe uma olhada fria a Slagerman. 



Gage entrou no tribunal no instante em que ela chamava a sua primeira testemunha da tarde. Tinha tido que cancelar duas reunies a fim de poder estar ali. A necessidade 
de v-la tinha sido muito mais forte do que a de ouvir os relatrios trimestrais da empresa. De fato, teve que reconhecer que tinha sido mais poderosa que nada do 
que tivesse experimentado at ento. 
Tinha mantido  distncia durante trs dias. Trs dias muito longos.
Pensava que a vida com freqncia era como uma partida de xadrez, na que te tomava o tempo necessrio para preparar a seguinte jogada. Elegeu um assento no fundo 
da sala e a observou. 
-Qual  a sua idade, Marjorie? -comeou Deborah. 
-Vinte e um. 
-Sempre viveu em Urbana? 
-No, cresci na Pennsylvania. 
Com umas perguntas casuais, ajudou  que Marjorie traasse um quadro de seu passado, a pobreza, a infelicidade, os abusos paternos. 
-Quando veio  cidade? 
-Faz uns quatro anos. 
-Quando tinha dezessete anos. Por que veio? 
-Queria ser atriz. Sei que soa idiota, mas costumava atuar nas obras de teatro da escola. Pensei que seria fcil consegu-lo. 
-E foi?
-No. Foi duro. Duro para valer. A maioria das vezes nem sequer conseguia um teste. E fiquei sem dinheiro. Encontrei um trabalho de meio perodo como garonete, 
mas o que ganhava no era o bastante. Cortaram a minha luz e a calefao. 
-Pensou alguma vez em regressar para sua casa? 
-No podia. Minha me me disse que se eu fosse embora, que nunca mais contasse com ela. E pensava, e ainda penso, que conseguiria se me dessem uma oportunidade.
-E lhe deram? 
-Foi o que eu achei. Esse homem entrou na cafeteira que eu trabalhava. Pos-se a falar, j sabe. Contei-lhe que queria ser atriz.  Ele disse que percebeu isso logo 
que me viu e me perguntou o que eu  fazia num espelunca como aquela quando era to bonita e tinha tanto talento. Me assegurou que conhecia um monto de gente e que 
eu ia trabalhar com ele, me apresentaria pessoas. Me entregou um carto comercial e tudo mais.
-O homem que conheceu se encontra na sala, Marjorie? 
-Claro, era Jimmy -baixou a vista para os dedos trmulos-. Jimmy Slagerman. 
-E ento comeou a trabalhar para ele.
-Sim. No dia seguinte fui a seu escritrio. Tinha uma sute inteira, cheia de escrivaninhas e telefones. Um lugar muito bonito, na parte alta da cidade. Chamava-o 
Elegante Escorts. Disse que poderia ganhar cem dlares por noite indo jantar e acompanhar homens de negcios a festas. Inclusive me comprou roupas bonitas e me levou 
ao cabeleireiro.
-E por esses cem dlares por noite, a nica coisa que teria que fazer era ir a festas e a jantares? 
-Isso  o que ele me disse, no princpio. 
-E depois as condies mudaram? 
-Passado um tempo... levou-me a restaurantes e a lugares bonitos. Comprou-me flores e...
-Manteve uma relao sexual com ele? 
-Protesto.  irrelevante. 
-Senhora,  muito relevante a relao fsica que tinha a testemunha com o acusado. 
-NegadO. Responda a pergunta, senhorita Lovitz. 
-Sim. Fui para cama com ele. Me tratou to bem. Depois, deu-me dinheiro.., para as faturas, comentou. 
-E voc aceitou? 
-Aceitei. Achei que sabia o que se passava. Sabia, mas fingi que no. Alguns dias depois, me disse que tinha um cliente para mim. Me mandou arrumasse bem e sai com 
este homem de Washington, D.C. 
-Que instrues te deu o senhor Slagerman?
-Me disse: Marjorie, vai ter que ganhar esses cem dlares>>Constatei o que j sabia quando ele me disse que eu devia ser bem agradvel com este cliente. Eu disse 
que o seria.
-O senhor Slagerman definiu para voc o significado da palavra agradvel, Marjorie? 
Ela titubeou, depois voltou a olhar  as mos. 
-Disse que tinha que fazer o que me pedisse. Que se esse homem quisesse que eu o acompanhasse ao hotel, tinha que obedecer ou no pagaria. Afirmou que tudo era como 
uma atuao. Eu tinha que aparentar que desfrutava da companhia desse homem, como se me atrasse, e eu atuei como se me sentisse muito bem com ele na cama. 
-O senhor Siagerman te especificou que  seus servios requereriam que praticasses  sexo com esse cliente?
-Disse que era parte do trabalho, igual quando sorrimos ao ouvir uma piada ruim. E que se eu fosse boa me apresentaria a um diretor de cinema que conhecia. 
-E voc aceitou?
-Ele fez parecer que tudo era normal. Sim. Aceitei.
-Houve outras ocasies em que aceitou trocar sexo por dinheiro na qualidade de acompanhante para a empresa do senhor Siagerman? 
-Protesto. 
-Voltarei a fazer a pergunta -dirigiu a olhada ao jri-. Seguiste trabalhando para o senhor Slagerman? 
-Sim, senhora. 
-Quanto tempo? 
-Trs anos. 
-Estava satisfeita com o trabalho? 
-No  sei. 
-No sabe se estava satisfeita?
-Me acostumei ao dinheiro -respondeu com dolorosa sinceridade-. E passado algum tempo a gente consegue esquecer o que fazemos e pensar em outra coisa no momento 
que estamos trabalhando. 
-E o senhor Siagerman estava contente contigo?
 -As vezes -temerosa, olhou ao juiz-. As vezes se enfurecia, comigo ou com alguma das outras garotas. 
-Tinha outras garotas? 
-Aproximadamente uma dzia, as vezes mais. 
-E o que ele fazia quando se enfurecia? 
-Nos batia. 
-Queres dizer que as golpeava? 
-Se portava como um louco e... 
-Protesto. 
-Concedido. 
-Te bateu alguma vez, Marjorie?
-Sim.
Deborah deixou que a singeleza da resposta flutuasse alguns momentos sobre o jri. 
-Quer nos contar os acontecimentos que tiveram lugar a noite do 25 de fevereiro deste ano? 
Tal como a tinha instrudo, Marjorie no apartou a vista de Deborah e no se permitiu desviar os olhos para Slagerman. 
-Tinha um encontro, mas fiquei doente. Uma gripe ou algo assim. Nunca tinha acontecido comigo e sentia meu estmago dar voltas. No conseguia manter nada no estmago. 
Suzanne veio me ajudar.
-Suzanne 
-Suzanne McRoy. Tambm trabalhava para Jimmy e nos ficamos amigas. No podia levantar-me para ir trabalhar, assim que Suzanne chamou a Jimmy para contar...-comeou 
a retorcer as mos no colo. - A ouvi discutindo com ele pelo telefone, insistindo em lhe dizer que eu estava mal. Suzanne lhe falou que ele podia aparecer e comprovar 
com seus prprios olhos.
- E ele o fez? 
-Sim -nesse momento  lgrimas grandes e silenciosas caram por sua face-. Estava furioso de verdade. Ps-se a gritar com Suzanne e ela lhe respondeu a gritos tambm, 
repetindo que eu estava enferma, que tinha muita febre. Ele disse... -umedeceu os lbios-.Ele disse que as duas ramos umas cadelas preguiosas e mentirosas. Ouvi 
o rudo de algo se quebrando e o choro dela Levantei-me, mas estava enjoada esfregou a mo nos olhos manchados de rmel-. Ele entrou no dormitrio e me atirou no 
cho. 
-Quer dizer que ele se chocou contra voc? 
-No, me jogou no cho. Com o dorso da mo. 
-Entendo. Continue.
-Depois ordenou que levantasse a bunda e que me vestisse. Disse que o cliente tinha pedido a mim, que o nico que tinha que fazer era me deitar de costas e fechar 
os olhos -procurou um leno de papel e se limpou o nariz-. Eu lhe disse que estava doente, que no era capaz de faz-lo. Ai ele comeou a gritar e atirar coisas. 
Depois ele me disse que mostraria o que era estar doente para valer e comeou a me bater.
- Onde ele a bateu?
- Em todos os lugares. Na face, no estmago. Principalmente no meu rosto. No parava.
- Gritou pedindo ajuda?
- No pude. Quase no conseguia respirar.
- Tentou se defender?
-Tentei me afastar engatinhando, mas ele no parou de me ataca. Perdi a conscincia. Quando acordei, Suzanne estava ao meu lado com o rosto cheio de sangue. Foi 
ela que chamou a ambulncia.
Com gentileza, Deborah prosseguiu com o interrogatrio. Quando ao final se sentou em sua cadeira de promotor, rezou para que Marjorie resistisse ao interrogatrio 
da defesa.
Depois de quase trs horas testemunhando, Marjorie estava plida e trmula. Apesar da tentativa do advogado de defesa de fazer que se desabasse, saiu da cadeira 
de depoimento com o aspecto de uma mulher jovem e vulnervel. 
Com satisfao, Deborah pensou que era essa imagem a que ficaria nas mentes dos membros do jri. 
-Excelente trabalho, advogada. 
Deborah girou a cabea e, com uma mistura de irritao e prazer, encontrou o olhar de Gage.
-Que faz aqui? 
-Vim ver voc trabalhar. Talvez eu precise de advogado um dia. 
-Sou promotora, esqueceu? 
-Ento me certificarei de jamais me surpreendam infringindo a lei -sorriu.
Quando ela se levantou, tomou-lhe a mo. Um gesto casual e amistoso. Mas Deborah no soube dizer por que lhe pareceu to possessivo-. Posso acompanh-la? Jantar, 
sobremesa? Uma noite calma?
E pensar que se tinha dito que ele nunca mais a tentaria. Impossvel. 
-Sinto muito, mas tenho que fazer uma coisa. 
-Imagino que esteja falando srio estudou-a com a cabea inclinada. 
-Tenho trabalho. 
-No, referia-me ao fato de sentir muito.
Os olhos de Gage eram to profundos e clidos, que ela suspirou. 
-Indo de encontro a minha inteligncia devo dizer que sim  -saiu do tribunal para o corredor. 
-Ento te acompanharei at seu trabalho. 
-No te disse o que sinto pelos homens persistentes? -o olhou acima do ombro com expresso exasperada. 
-Sim, mas de todo jeito jantou comigo. 
Teve que rir. Depois de todas as horas Temas no tribunal, era um alvio. 
-Bem, como meu carro ainda est na loja- sorriu- Eu aceito.

Entrou no elevador com ela. 
-Pegou um caso duro. Desse que podem acabar com a reputao.. 
-Acha? -seus olhos se esfriaram. 
-Recebeu ateno nacional da imprensa. 
-No aceito os casos para conseguir reportagens -falou com voz to fria como seus olhos. 
-Se quer ter uma longa carreira vai ter que endurecer a pele. 
-Minha pele est bem, obrigada. 
-Notei -relaxado, apoiou-se na parede do elevador-. Acho que qualquer um que te conhea, compreender que a imprensa  um efeito secundrio, no o objetivo principal. 
Neste momento est estabelecendo uma declarao de direitos, no qual afirma que ningum, no importa quem seja, tem de ser submetido a violncia e humilhado. Espero 
que ganhe.
-Ganharei  perguntou a si mesma por que a irritava tanto o fato dele compreender, com exatido, qual era sua meta. Saiu do elevador para vestbulo de mrmore. 
- Eu gosto quando prende os cabelos -comentou, satisfeito em v-la desconcertada-. Muito competente. Quantos grampos eu teria que rancar para que ele se soltasse?
-No acredito que isso seja... 
-Relevante? -contribuiu ele-. Para mim  . Tudo sobre voc o , j que me parece no vou conseguir tir-la da minha cabea.
Ela no diminuiu o passo. Imaginou que era tpico que lhe dissesse algo assim a uma mulher num lugar cheio de gente e conseguir faze-la sentir que estavam a ss.
-Estou segura que ir consegui se manter ocupado. Esta manh vi uma foto sua no jornal... com a uma loira colada ao seu brao. Era no jantar do candidato Tarrington 
-apertou os dentes quando ele no deixou de sorrir-. Voc muda com muita facilidade e rapidez suas alianas, politicamente falando.
-No tenho alianas, politicamente falando. Estava interessado em ouvir o que tinha que dizer a oposio de Fields. Fiquei impressionado. 
-Aposto que sim -comentou, recordando  loira exuberante com o esplendido vestido negro. 
-Lamento que no estivesses presente -sorriu. 
-J te disse que no tenho inteno de fazer parte da horda -diante das portas duplas de vidro, deteve-se-. Falando de hordas -com a cabea erguida, misturou-se 
com a multido de jornalistas que esperava na escadas do tribunal.
A crivaram de  perguntas. Ela respondeu como podia cada uma delas. E apesar de sua irritao ficou agradecida em ver a limusine negra de Gage com seu enorme motorista 
esperando-os na rua. 
-Senhor Guthrie, qual  seu interesse neste caso? 
-Fico satisfeito em ver a justia funcionando. 
-Lhe agrada ver como funciona a nossa famosa promotora? - Wisner abriu espao entre seus colegas para meter um gravador em seu  rosto-. Vamos, Guthrie, que h entre 
a formosa Deb e voc? 
Ao ouvir seu rosnado, Gage apoiou uma mo no brao de Deborah em sinal de advertncia e se voltou  para o jornalista. 
-O conheo, no? 
- Desde de sempre -rebateu Wisner com voz desagradvel-. Encontrvamo-nos com bastante freqncia nos velhos tempos onde voc trabalhava para a cidade em vez de 
ser seu dono.
- Sim. Wisner -avaliou ao homem com um olhar indiferente-. Pode ser que minha memria esteja ruim, mas no me recordo de voc ser to imbecil assim-ajudou a subir 
a uma Deborah sorridente  limusine. 
-Bem feito -disse ela. 
-Tenho de pensar na possibilidade de comprar o World, s por ter o prazer de despedi-lo. 
-Tenho de acolher o modo em que pensa -suspirou, tirou os sapatos e fechou os olhos, cansados. Pensou que podia acostumar-se a viajar dessa maneira. Assentos grandes 
e cmodos e Mozart pelos alto-falantes. Uma pena que no fosse realidade-. Meus ps  esto me matando. Vou ter que comprar um pedmetro para ver quantos quilmetros 
fao durante um dia normal no tribunal. 
-Se eu lhe prometer uma massagem nos ps viria para casa comigo?
- No. Devo voltar para meu escritrio. Alm disso, estou segura de que h muitos mais ps para voc massagear. 
Gage baixou o vidro o suficiente para dar-lhe a Frank a direo. 
- o que te preocupa? Os outros... ps de minha vida? 
- A vida  sua.  mesmo que odiasse esse fato. 
-Me agrada os seus. Teus ps, tuas pernas, teu rosto. E tudo o que h entre eles.
Deborah tentou disfarar a reao que isso lhe provocou 
-Sempre tentas seduzir s mulheres na banco de trs da limusine? 
-Preferiria outro lugar. 
-Gage, tenho pensado nesta situao. 
-Situao? -sorriu com todo seu encanto. 
-Sim -no optou cham-la de relao-. No vou fingir que no me sinto atrada por voc, ou que no me agrada que  esteja atrado por mim. Mas...
-Mas? -lhe tomou a mo e beijou-lhe os dedos. Sua pele era to fresca e clara quanto gua de chuva. 
-Pare -conteve o gemido quando ele girou  mo para beijar-lhe a palma-. No faa isso. 
-Adoro quando se  mostra fria e lgica, Deborah. Me deixa louco ver a rapidez com que posso acender seu corpo- roou os lbios em seu punho e sentiu sua pulsao 
rpida-. Sobre que falava? 
Sobre o que ela falava?. Que mulher podia mostrar-se frieza e lgica quando Gage olhava daquele modo? Tocava-a? Afastou a mo e recordou que este era exatamente 
o problema.
- Por vrios e bons motivos no quero que esta... situao v mais longe. 
-Mmm.
Afastou a mo esta comeou a brincar com seu brinco de prola. 
-Falo srio. Compreendo que est acostumado a escolher e descartar mulheres como se fossem fichas de pquer, mas no estou interessada. Assim acho melhor procurar 
outra. 
-Usou uma metfora interessante. Posso dizer que h alguns ganhos que prefiro reter antes que arriscar. 
-Vamos esclarecer uma coisa -irritada, voltou-se para ele-. No sou o prmio desta semana. No tenho inteno de ser a morena da quarta-feira, depois da loira da 
tera-feira. 
-Voltamos ao assunto dos ps.
- Pode parecer uma brincadeira para voc mas levo minha vida pessoal e profissional muito a srio. 
-Talvez srio demais. 
- assunto meu - cortou-. A questo  que no me interessa me transformar em uma de suas conquistas. No vou me enrolar nessa teia que armou -girou a cabea quando 
a limusine se deteve-. Eu salto aqui.
Deixando ambos surpreendidos ambos ele se moveu velozmente e a arrastou pelo assento at deix-la estendida sobre seu colo.
- Vou me encarregar que voc se esteja to enrolada em minha teia , querida, que no ser capaz de se libertar -firme e dura, sua boca encontrou a de Deborah. 
Ela no se resistiu nem titubeou. Cada emoo que tinha experimentado durante todo o trajeto tinha sido reduzida a apenas uma: Desejo. Irrevogvel. Instantneo. 
Irresistvel. Afundou seus dedos no cabelo escuro e enquanto sua boca se movia inquieta e faminta.
Desejava-o como nunca tinha desejado algum mais. Ou sonhado em desejar. A nsia que ele produzia era to grande que no ficava espao para a razo. Parecia-lhe 
to certo restar espao para a dvida. S restava o momento... e tomar.  No se lembrava por que no podiam.  Sentia a boca febril enquanto lhe percorria a face 
e deslizava pelo pescoo. Com um murmrio urgente, ela voltou a atrair-lhe os lbios aos seus. 
Nunca tinha conhecido algum que tivesse satisfeito suas necessidades com tanta preciso. Em seu interior ardia um fogo que Gage podia avivar s com seu toque. Ela 
j conhecera o desejo, mas desconhecia esse desespero aterrador. 
Gage tinha ganas de deit-la sobre o assento, arrancar suas roupas at deix-la nua e ardente sob seu corpo.
Mas tambm queria dar-lhe compaixo e amor. Teria que esperar at que estivesse preparada para aceit-lo. Com sincero pesar, afastou-se. 
-Voc  tudo o que desejo -lhe disse-. E aprendi a consegui aquilo que desejo. 
Com os olhos muito abertos, a paixo desapareceu  para ser substituda por um medo aturdido que perturbou a Gage. 
-Voc no pode. -sussurrou Deborah-. No pode fazer isso comigo. Isso no  certo...
-No, no  certo para nenhum dos dois. Mas  real. 
-No deixarei que minhas emoes  me controlem.
- Elas nos controlam a ambos. 
-A mim, no -agitada, pegou os sapatos-. Tenho que ir. 
-Voc ser minha-estendeu o brao para abrir  a porta. 
-Primeiro tenho de ser minha -moveu a cabea e se marchou. 
Gage a observou afastar-se antes de abrir a mo fechada. Contou seis grampos e sorriu. 

Deborah passou a noite com Suzanne e Marjorie no pequeno apartamento das duas. Enquanto jantavam  pratos chineses que ela trouxera, falaram do caso. Centrar-se no 
trabalho a ajudou. Deixou por certo tempo sem pensar em Gage e nas reaes que lhe provocava. Reaes que a deixavam muito preocupava tanto pela atrao sexual poderosa 
como pela semelhana do que j tinha experimentado com outro homem. 
Queria entregar-se a ambos, mas no podia faz-lo a nenhum. Era uma questo de tica. Para Deborah, quando uma mulher comeava a duvidar de sua tica, tinha que 
duvidar de tudo.
Tambm a ajudou recordar que tinha algumas coisas que podia controlar. Seu trabalho, seu estilo de vida, suas ambies. Essa noite esperava fazer algo para controlar 
o resultado do caso que tinha nas mos. 
Cada vez que soava o telefone, ela respondia, enquanto Marjorie e Suzanne permaneciam sentadas no sof com as mos agarradas. No quinto telefonema, obteve a recompensa 
que procurava. 
-Marjorie? 
-No respondeu. 
-Suzanne,  sua vadia.
Ainda que esboasse um sorriso sombrio, fez que sua voz  soasse trmula. 
-Quem ? 
-Sabe muito bem quem . Sou Jimmy. 
-Acho que no posso falar com voc.
-No seja idiota. S escute. Se voc acha que eu te machuquei, vai percebe que no foi nada perto do que vou fazer com voc se testemunhar amanh. Sua rameira, tirei 
voc das ruas onde ganhava vinte dlares por cliente e a fiz trabalhar para gente endinheirada. Voc me pertence e no deve esquecer-se disso. Faa um favor a voc 
mesma, Suze, diga a esta arrogante promotora que mudou de idia, que voc e Majorie mentiram todo o tempo. Caso contrrio eu vou acabar com voc, entendeu?
- Sim- desligou e ficou olhando o telefone- Claro que eu entendi- voltou-se para as duas  Tranquem a porta esta noite e no saiam. Ele ainda no sabe, mas acabou 
de pendurar uma corda em seu prprio pescoo.
Chateado consigo mesma, deixou-as. Tinha requerido com urgncia um grampo para a linha de Suzanne e Marjorie. Precisaria de mais que persuaso para conseguir o mesmo 
para o telefone de Siagerman. Mas conseguiria. Quando Slagerman subisse para depor em alguns dias, tanto seu advogado como ele teriam uma surpresa. 
Decidiu caminhar alguns quarteires antes de parar um txi. A noite era sufocante. At os edifcios transpiravam. Do outro lado da cidade, seu quarto a esperava 
com ar acondicionado, um chuveiro refrescante e uma bebida fria. Mas ainda no queria ir para casa e ficar sozinha. Seria fcil voltar a pensar em sua vida. Em Gage.
 Aquela tarde tinha perdido o controle de seu movimentos. Era um hbito que no lhe agradava. No era possvel negar que a atraa. Mais ainda, que a arrastava em 
sua direo de um modo bsico, quase primitivo, era praticamente impossvel resistir. 
No entanto, sentia algo muito forte por um homem mascarado.
Como isso era possvel, se  sempre tinha valorizado a fidelidade e a lealdade acima de todo, ter sentimentos to profundos por dois homens diferentes? 
Esperava que isso se limitasse a algo fsico. Desejar  um homem no era o mesmo que o precisar dele. No estava preparada para precisar de um homem, quanto mais 
de dois!
O que precisava era de controle, sobre suas emoes, sua vida, sua carreira. Durante grande parte de sua vida tinha sido vtima das circunstncias. A trgica morte 
de seus pais e o insondvel poo de medo e dor que viera depois. As exigncias do trabalho de sua irm as tinham obrigado a viajar de cidade em cidade.
Nesse momento estava deixando sua prpria marca, a sua maneira e no seu prprio ritmo. Os ltimos dezoito meses tinha trabalhado duramente, com uma determinao 
obsessiva por ganhar e merecer a reputao como uma representante forte e honesta do sistema judicial. A nica coisa que tinha que fazer era seguir avanando pelo 
mesmo caminho estreito.
Ao entrar nas sombras do World Building, ouviu que algum sussurrava seu nome. Conhecia essa voz, a tinha escutados durantes seus sonhos...sonhos que ela se negava 
a reconhecer. 




Pareceu sair da escurido, uma sombra, uma silhueta, depois um homem. Pde ver-lhe os olhos, seu brilho por trs da mscara. O anseio a invadiu com tal poder que 
quase a fez  gemer em voz alta. 
E quando ele tomou sua mo para arrast-la em direo as sombras, no ops resistncia. 
- Me parece que  um costume seu caminhar sozinha pelas ruas sombrias da cidade. 
-Tinha um trabalho a fazer -automaticamente baixou a voz ao nvel da dele-. Est me seguindo?  ele no lhe respondeu, mas seus dedos se fecharam em torno dos dela 
de uma maneira que falava de posse-. O que quer?
-Voc est em perigo aqui sozinha -viu que ela tinha soltado os cabelos, que caiam soltos por sobre seus ombros-. Os  assassinos de Parino esto vigiando voc -sentiu 
que o pulso dela se acelerava, mas no de temor. Reconhecia a diferena entre medo e excitao. 
-O que voc sabe de Parino? 
-Eles no vo se importar por voc ser uma mulher. No se coloque no caminho deles. No quero que nada de mal acontea a voc. 
-Por que? -incapaz de evit-lo, inclinou-se em sua direo.
To impotente quanto ela, levou suas mos aos lbios. As apertou com fora. 
OLHOU-A. 
-Voc sabe por que. 
-No  possvel -mas no pde nem quis afastar quando lhe acariciou o cabelo-. No sei quem voc . Nem entendo o que voc faz. 
-As vezes eu tambm no.
Deborah desejou enrrodilhar-se em seus braos, aprender o que era  ser abraada por ele,  ter seus lbios na boca. Mas ao conter-se disse  a si mesma que tinha razes 
para ser resistir.
-Diga-me o que  sabe a respeito de Parino e de sua morte. Deixa que faa meu trabalho. 
-Esquea-o.  a nica coisa que tenho para lhe dizer. 
-Sabe de algo. Eu sei. -aborrecida, retrocedeu-. Voc tem o dever de me contar. 
-Sei qual  meu dever. 
Deborah jogou o cabelo para atrs. Atrada por ele? Estava furiosa. 




-Claro, espreitar nas sombras e utilizando-se de seu prprio e pessoal senso de justia aonde lhe der na telha. Isso no  dever, Capito Cabea-dura,  ego - Quando 
no lhe respondeu, suspirou e voltou a aproximar-se - Poderia acusar voc de ocultar informao. Trata-se  de um assunto da polcia e da promotoria, no de um jogo.
-No, no  um jogo -a voz permaneceu baixa, mas a ela lhe pareceu captar um tom entre divertido e frustrado-. Mas h pees. E eu no gostaria que a utilizassem 
como tal. 
-Posso cuidar de mim mesma. 
-Nunca para de repetir isso. Advogada, neste momento voc se encontra fora de seu ambiente, mantenha-se afastada. -deu um passo atrs. 
-Um momento -mas ele j tinha ido-. Maldito sejas, no tinha terminado de discutir com voc -frustrada, deu  um pontap contra a lateral do edifcio,  e por poucos 
centmetros no lhe golpeou a espinha-. Manter-me distante?- murmurou- Nem em sonhos.







Captulo 5



Gotejando e praguejando, Deborah correu at a porta. Bater a campainha as quinze para sete da manh representava o mesmo que cham-la por telefone as trs horas 
da madrugada. Sempre significava um problema. Ao abrir a porta e ver Gage sups que havia se equivocado.
- Tirei voc do banho?
- Sim- passou a mo pelo cabelo molhado impaciente  O que quer?
- Caf da manh  sem esperar um convite, entrou- Muito bonito- decidiu. Viu que ela havia empregado um tom suave de marfim com toques de cor esmeralda, carmim e 
prola na manta sobre o sof e nas almofadas espalhadas sobre o carpete. Havia tambm deixado um rastro de gua sobre o mesmo cho.  Parece que cheguei cinco minutos 
adiantado.
- No.- ao sar-se conta que estava aberto o cinto do roupo o amarrou- Por que nem deveria est aqui. E agora- porm ele a cortou com um beijo prolongado e firme.
-Mmm, est molhada.
Deborah se surpreendeu pelo fato da gua no ter se evaporado e que tivesse vontade de apoiar a cabea no ombro dele.
-Olha, no tenho tempo para isso agora. Eu tenho que esta no tribunal em...
- Duas horas  completou Gage- Tempo o suficiente para tomar caf da manh.
- Se pensa que vou preparar um caf da manh para voc, se decepcionar. 
- Isso nem me passou pela cabea- observou o roupo curto e sedoso. Quando a tocara ficara dolorosamente consciente de que ela no usava mais nada sob ele- Eu gosto 
de azul, devia usar sempre esta cor.
- Agradeo o conselho de moda, mas- calou-se quando a campainha voltou a tocar.
- Eu abrirei- ofereceu ele.
- Eu posso abrir  a porta em minha prpria casa- se dirigiu para a porta mal humorada. As manhs no eram seu melhor momento- Eu gostaria de conhecer a pessoa que 
pendurou o cartaz onde est escrito que eu recebendo visitas de todos.- ao abrir a porta, viu um garom com uma blusa branca e um carrinho.
- Ah sim. Sem dvida  o Caf da manh. Acredito que o melhor lugar ser junto a janela. Fazendo um sinal para que o garom entrasse.
- Sim senhor Guthrie.
Deborah colocou as mos na cintura.
- Gage, no sei o que pretende, mas no vai funcionar. E tentei deixar bem claro qual era minha posio, e neste momento eu no tenho tempo nem inclinao...isso 
 caf?
- Sim.- sorrindo ele levantou a cafeteira e serviu uma xcara. Viu que o aroma a seduzia- Quer um pouco?
- Talvez- fez um muxoxo.
- Gosto dessa safra.  um de meus favoritos.
- Voc no joga limpo- disse Deborah depois de beber um pouco.
- No.
Ela abriu os olhos para estudar o camareiro , que se dedicava a cumprir seu trabalho.
- O que tem mais ai?
- Omelete com chapion, presunto assado, croissant e suco de laranja natural, feito agora.
- Feito agora.- esperava no estar salivando sobre a mesa.
- Morangos com creme.
- Ah...- cerrou a boca para evitar que a lngua casse.
- Quer se acomodar?
Assegurou-se que no era uma mulher de personalidade fraca, mas sua sala havia sido invadida pelos odores deliciosos.
- Imagino que sim- rendida, afastou uma cadeira que o camareiro havia colocado prximo a mesa. Gage entregou uma nota ao garom e lhe deu instrues para que viesse 
recolher os pratos em um hora. Ela no teve fora para reclamar  Imagino que eu tenha que lhe perguntar o que provocou tudo isso.
- Queria ver como voc estava nesta manh- serviu o suco de uma jarra de cristal  Est me pareceu a melhor maneira. No momento- a fitou- Voc est linda.
- Voc  encantador- tocou as ptalas da rosa vermelha que estava junto a seu prato  Mas isso no muda nada. Contudo, no vejo razo para desperdiar tanta comida- 
acrescentou pensativa.
-  uma mulher prtica  havia contado com isso  Isso  uma das coisas que mais admiro em voc.
- No sei o que tem de atraente em ser prtica- cortou um pequeno pedao de presunto e o levou a boca. Os msculo do estmago se contraram.
- Pode ser muito...atrativo.
- Diga  mudou o tema  para um mais seguro  Sempre toma caf de manh desse modo extravagante?
- Quando me  conveniente  apoiou a mo sobre a dela- Tem olheiras. No dormiu bem?
- No- disse pensando na noite longa e inquietante.
- Por causa de seu caso?
Encolheu os ombros. A insnia no tinha nada a ver com o caso e muito com o homem que havia encontrado entre as sombras da noite. Pois agora estava ali, igualmente 
fascinada pelo homem sentado a frente dela a luz do dia, e frustrada com aquilo tudo.
- Quer me contar?
Levantou a vista e nos olhos de Gage viu pacincia e compreenso e algo oculto, algo que ela sabia que se poria em fogo ao toque.
- No- disse brusca e rompeu o contato de seu mo.
- Trabalha demais.
-  algo que tenho que fazer. O que me diz de voc? Na verdade, nem sei o que voc faz.
- Comprar e vender, assistir reunies e ler informaes.
- Estou certa que  mais complicado que isso.
- E bem mais aborrecido.
- No acredito.
- Construo coisas, compro coisas- abriu um croissant que parecia ter acabado de sair do forno.
- Que tipo de coisas?  no o deixaria escapar com tanta facilidade.
- Por exemplo, sou o proprietrio deste edifcio- sorriu para ela.
- Ele  propriedade da empresa Tojan.
- Certo. Ela  minha.
-Oh.
- A maior parte do dinheiro dos Guthrie procedia de bens imobiliares- sua reao o tinha encantado- E ainda segue sendo a base de nossos negcios. Ns temos diversificado 
bastante nos ltimos dez anos. De modo que um ramo se dedica a fretes, outros a minerao e outros a manufatura.
- Entendo- Gage no era um homem qualquer Se bem que, ultimamente , no se sentia atrada por qualquer homem-  Percorreu um longo caminho desde da vigsima quinta 
delegacia.
- Sim  uma sombra passou por seus olhos   o que parece- espetou um morango com um garfo e passou pelo creme lhe oferecendo.
- Sente saudades?  ficou pro alguns momentos degustando o sabor da fruta em seu lngua antes de engolir.
Gage sups que se a beijasse neste momento teria um sabor intenso e vivo.
- No me permito sentir saudades. H uma diferena.
- Sim- o entendia. O mesmo acontecia com ela a no se permitir sentir saudades de sua famlia, aos ausentes e aos que moravam a quilmetros de distncia.
- Voc fica linda quando est triste, Deborah- passou um dedo pelo dorso de sua mo- Irresistvel, com efeito.
- No estou triste.
-  irresistvel de qualquer jeito.
- No comece- se distraiu servindo mais caf- Posso formular uma pergunta de negcios?
- Claro.
- Se o dono, ou os donos de uma propriedade especfica no quisessem que o fato fosse pblico. Teriam como ocult-la?
- Com suma facilidade. Enterrando-a por debaixo de corporaes  e debaixo de diferente notas fiscais. Uma corporao  dona da outra, que  dona da outra e assim 
sucessivamente. Por que?
- Seria difcil rastrear os proprietrios reais?  acrescentou ignorando a pergunta dele.
- Depende da maneiras que eles fizeram isso e  dos cuidados que eles tomaram para se manterem em anonimato.
- Se algum se mostrar decidido e paciente, poderia localizar suas identidades?
- Com o tempo. Se puderem localizar um vnculo de unio.
- Um vnculo de unio?
- Um nome, um vnculo, um lugar. Algo que aparece constantemente- se no estivesse um passo na frente dela iria lhe preocupar a linha de interrogatrio, mas de qualquer 
maneira era melhor demonstrar cautela- O que voc pretende, Deborah?
- Fazer meu trabalho.
- Tem algo haver com Parino?
- O que voc sabe sobre Parino?
- Eu sigo tendo contatos na vigsima quinta. No basta a voc o julgamento de Alagerman?
- No tenho o luxo de trabalhar com um caso de cada vez.
- No deveria trabalhar com este.
- Desculpe?  seu tom era glido.
-  perigoso. Os homens que ordenaram a morte de Parino so perigosos. No sabe com que est jogando.
- No estou jogando.
- No. Nem eles. Esto bem protegidos e informados. Sabem qual ser seu prximo movimento antes de voc  a expresso tornou-se sombria- Se eles a considerarem um 
obstculo, a eliminaro sem hesitar.
- Como sabe tanto sobre os homens que mataram Parino?
- Fui policial, lembra-se? No  algo que voc devia mexer. Quero que entregue o caso a  outro.
- Isso  ridculo.
- No quero que te machuquem.  pegou sua me antes que ela pudesse evitar.
- Queria que as pessoas parassem de dizer isso para mim.  se soltou dele e levantou-se -  meu caso e vai continuar sendo meu caso.
- Sua ambio  outro qualidade atraente sua, Deborah  ele no se levantou- At que ela te cegue.
Ela girou em sua direo dominada pela fria.
- Sim certo, em parte  ambio. Mas no de tudo, em absoluto. Eu acredito no que fao, Gage, e na minha capacidade de fazer-lo bem. Comeou com um rapaz chamando 
Rico Mendez no era o pilar da comunidade. De fato, era um ladro que j havia estado na priso e sem dvida iria voltar para l. No entanto foi crivado de balas 
enquanto estava em uma esquina. Por que pertencia a um gangue  de cores diferentes- se ps a caminhar pela sala, gesticulando para realar suas palavras  Logo matam 
seu assassino, apenas por falar comigo. Por haver feito um trato comigo. Ento, quando  que vamos parar e perceber que isso no  aceitvel, quando iremos assumir 
a responsabilidade e mudar?
- No questiono sua integridade, Deborah.
- Somente o meu juzo?
- Sim...e o meu- introduziu as mos no interior das mangas de sua bata- Me preocupo...
- No acho que...
- No, no pense  cobriu sua boca com a dele e a apertou entre seus braos.
Deborah experimentou um calor e uma necessidade instantnea. Como ia lutar contra isso? E o corpo de Gage era to slido e seu lbios to hbeis. E ela podia experimentar 
as ondas no s de desejo, mas de algo mais profundo e verdadeiro, que emanavam dele para ela. Como se estivesse em seu interior.
Seu mundo se resumia nela. Quando a tinha nos braos no questionava o poder que ela tinha de esvaziar sua mente e enche-la, para saciar sua fome, mesmo senso ela 
sua causadora.  Dava-lhe foras, e o deixava fraco. Quase comeava a crer outra vez em milagres.
Se afastou sem deixar seus braos. Ela lutou para buscar equilbrio. Ainda no sabia como ele podia fazer isso com ela com um simples toque.
- No estou preparado- murmurou.
- Nem eu to pouco,e no Acredito que isso importe- voltou a se aproximar- Quero ver voc est noite -  achatou sua boca com os lbios  Quero estar com voc est 
noite.
- No, no posso- era capaz apenas de respirar- O julgamento.
- Certo  conteve um maldio- Quando acabar o julgamento. Nenhum dos dois pode seguir fugindo.
-No.- ele tinha razo. Era hora de resolver aquele assunto- No podemos. Pois eu necessito de tempo. Por favor, no me pressione.
- Pode ser que eu tenha que faze-lo  se dirigiu a porta e se deteve com a mo na maaneta  Deborah, h algum mais?
 Ia negar, mas com Gage s cabia a honestidade.
- Eu no sei.


Aquela noite trabalhou at tarde, repassando documentos e livros de leis em seu quarto. Depois do julgamento tinha se dedicado algumas horas limpando seu apartamento. 
Era uma das melhores maneiras que conhecia de aliviar a tenso. Ou esquecer. A outra maneira era trabalhando e ela havia mergulhado neste, sabendo que no conseguiria 
dormir.
Ao estender a mo at a xcara de caf o telefono soou.
- Al.
-O'Roarke? Deborah O'Roarke?
- Sim. Quem ?
- Santiago.
De pronto ela pegou um lpis.
- Sr. Santiago. Temos procurado voc.
- Sei.
- Eu gostaria de falar com voc. O escritrio do gabinete est pronto para lhe oferecer cooperao e proteo.
-Como as que recebeu Parino?
Controlou uma pontada de culpa.
- Conosco estar mais seguro do que sozinho.
- Talvez- o medo soava em sua voz.
-Estou disposta a aceitar uma entrevista quando voc quiser.
-Nem em sonhos. No irei a nenhuma parte. Me matariam antes de dois quarteires -. Venha me encontrar. Escute, posso lhe oferecer mais do que Parino lhe forneceu. 
Muito mais. Nomes, papis...se quer averiguar, venha at aqui.
-De acordo. Farei que a polcia... 
-Nada de tiras! -a voz soou aterrorizada-. Nem um policial seno no haver trato. Venha sozinha.
-Faremos de seu jeito. Quando?
-Agora mesmo. Estou no Hotel Darcy, no cento sessenta e sete da Rua 38. Quarto 27 
-Chegarei em vinte minutos.




- Est certa que quer descer aqui, senhorita?  Ainda que sua cliente estivesse vestido com calas jeans e uma camiseta, o taxista pde ver que tinha demasiada classe 
para um antro como o Darcy. 
Deborah olhou atravs da intensa chuva que caa. A rua se achava deserta e a calada suja. 
-Sim. Suponho que no poderei convenc-lo a esperar, verdade? 
-No, senhorita. 
-J imaginava -introduziu um nota atravs da abertura do plstico de segurana- Fique com o troco-respirou fundo e se lanou atravs da chuva at a escada de degraus 
rachados.
Gotejando, entrou no vestbulo. A recepo ficava atrs de alguma mesa de ao enferrujado e estava vazia. A luz projetava sob sua superfcie pegajosa e brilhante. 
A atmosfera cheirava a suor, a lixo e a algo pior. Girou e se dirigiu para as escadas.
Um beb chorava. O som de tristeza baixava pelas escadas cheias manchas. Observou algo pequeno e veloz correr entre seus ps para uma greta na parede. Com um arrepio, 
continuou subindo. 
Ouviu as vozes de um homem e uma mulher entretidos em uma feroz discusso. Ao entrar no corredor do segundo andar, uma porta se entreabriu. Viu um par de olhos pequenos 
e assustados antes de que se fechasse outra vez e fechasse a corrente de segurana. 
Pisou em alguns cacos de vidro quebrados que outrora haviam sido a luz do teto. Pelo corredor fracamente aluminado, ouviu alguns sons de carros que vinham de um 
filme de televiso. Um relmpago cortou o cu. 
Deteve-se diante do  quarto 27. Do outro lado da porta, o rudo da televiso era estrondoso. Chamou em quase gritando. 
-Senhor Santiago. 
No obtendo resposta, gritou outra vez. Com cautela, provou o maaneta. A porta se abriu com facilidade.
A luz cinza e instvel da televiso viu o quarto desarrumado e a janela suja. Tinha roupa e lixo. Na nica cmodo faltava uma gaveta. Reinava o fedor da cerveja 
que  tinha esquentado e da comida que  tinha estragado. 
Viu  figura estendida sobre a cama e soltou um praga. No s teria o prazer de conduzir uma entrevista naquela pocilga, como tambm fazer que a testemunha se pusesse 
sbrio. 
Irritada, desligou o televisor. S se ouvia o som da chuva e a discusso no outro extremo do corredor. Viu um pia suja em um canto do quarto. Imaginou se serviria 
para afundar a cabea de Santiago.
-Senhor Santiago  elevou  a voz ao atravessar o quarto, tratando de esquivar-se da comida e das latas de cerveja-. Ray - comeou a sacudi-lo pelo ombro, depois 
notou que tinha os olhos abertos. -Sou Deborah Ou'Roarke- mas se deu conta de que no a encarava.
Afastou a mo tremula e comprovou que estava mida de sangue-. Oh, Deus - deu um passo para atrs enquanto continha a nusea. Um passo mais, e outro. Deu meia volta 
e praticamente bateu com tudo com um homem pequeno e de boa compleio fsica que usava um bigode 
-Senhorita -disse baixinho. 
-A polcia -conseguiu balbuciou-. Temos que chamar  polcia. Est morto. 
-Eu sei -sorriu. Ela viu um reflexo de ouro em sua boca. E o resplendor de prata quando levantou o estilete-. Senhorita O'Roarke, Estava esperando por voc.
Quando Deborah se lanou na direo da porta, agarrou-a pelos cabelos. Gritou de dor, depois quedou em um silncio, imvel ao sentir a ponta da faca na base de sua 
garganta.

-Ningum presta ateno a gritos em um lugar como este - disse, e a gentileza de sua voz fez com que ela experimentasse um arrepio quando a fez girar at fit-lo-. 
Voc  muito bonita. Pena eu ter que desfigurar seu rosto-apoiou a faca contra sua pele-. Vai me dizer, por favor...o que falou Parino com voc antes de sofrer o 
acidente? Os nomes, os detalhes. Com quem compartilhava essa informao. 
Lutando por dominar seu terror, olhou-o nos olhos. E neles viu o que a aguardava. 
-Vai me matar de qualquer jeito. 
-Inteligente e bonita -sorriu outra vez-. Mas h formas e formas. Algumas so muito lentas e dolorosas -deslizou a lmina levemente por sua face-. Me contar o que 
eu preciso saber. 
Deborah no dispunha de nomes, nada que pudesse trocar. S sua inteligncia.
- Eu os escrevi, escrevi e os guardei em um lugar seguro. 
-E para quem contou? 
-A ningum -engoliu  a saliva-. No contei a ningum. 
Ele a estudou um momento, girando o estilete na mo. 
-Acredito que est mentido. Talvez, depois que eu mostrar  o que posso fazer com isto, esteja mais disposta a cooperar. Ah, essa face, como  macia. Pena eu ter 
que rasg-la.
Nesse instante o cu se iluminou com outro relmpago e o cristal da janela espatifou-se. 

Ele estava ali, todo de negro. Outro relmpago o iluminou e o trovo sacudiu o quarto. Antes de que Deborah pudesse respirar, a faca se colou a seu pescoo e um 
brao firme lhe rodeou a cintura.
- Aproxima-se mais e eu cortarei seu pescoo de orelha a orelha. 
Nmesis permaneceu onde estava. No a olhou. No se atreveu. Mas em sua mente podia v-la, o rosto plido pelo medo. No soube se era o temor dela ou o seu prprio 
que lhe impedia concentrar-se, entrar na habitao como uma sombra em vez de como um homem. Se nesse instante fosse capaz de esquecer do medo que lhe inspirava a 
situao de Deborah e desaparecer, seria um arma ou  resultaria na morte dela degolada pelo estilete afiado? No tinha sido rpido o bastante para salv-la. Era 
a hora de ser inteligente. 
-Se mat-la perder sua proteo.
-Um risco que ambos correramos. No se aproxime mais -apertou a lmina com mais fora sobre o pescoo, at que ela gemeu. 
- Se voc machuc-la -falou com temor e fria-,  farei coisas  a voc que nem em seu piores pesadelos imaginou.
Ento viu-lhe a face, o bigode, o brilho do ouro. E regressou aos ancoradouros , com o cheiro do pescado e do lixo, o som do gua. Sentiu a ardente exploso no peito 
e quase cambaleou. 
-Eu o conheo, Montega -disse com voz baixa e spera-. Procuro voc h algum tempo. 
-Pois  me encontrou -ainda que a voz soasse arrogante, Deborah pde perceber seu suor. Isso lhe deu esperanas-. Jogue sua arma no cho.

-No carrego armas. -afirmou Nmesis, afastando  as mos do corpo-. No preciso delas. 
-Ento  um idiota afastou a mo da cintura dela e introduziu no bolso. No momento que soou o disparo Nmesis se afastou para o lado.
Aconteceu num abrir e fechar de olhos. Mais tarde Deborah no estava segura de quem se moveu primeiro. Viu que a bala encravava no papel sujo da parede e no gesso, 
viu Nmesis cair para o lado. Com uma fora potenciada pela fria e pelo medo, afundou o cotovelo no estmago de Montega. 
Mais preocupado com sua nova presa que por ela, a jogou para o lado. A cabea dela golpeou a borda da pia. Viu outro claro. Depois a escurido.

-Deborah. Deborah. Preciso que abra os olhos. Por favor. 
Ela no queria. Exploses intensas aconteciam sob suas plpebras. Mas a voz soava to desesperada, to suplicante. Obrigou-se a levantar suas plpebras . Nmesis 
ganhou  nitidez. 
Segurava sua cabea, com cuidado. Durante um momento, s pde ver seus olhos. Lindos, pensou mareada. Tinha se apaixonado por eles a primeira vez que os viu. Tinha 
olhado atravs da multido, atravs do esplendor de luzes, e o tinha visto. 
Com um leve gemido, levou-se a mo ao calo que j comeava a se formar em sua tmpora. Devo ter sofrido uma contuso, refletiu. A primeira vez que tinha visto 
a Nmesis se achava num beco a escuras. E havia uma faca. Igual aquela desta noite. 
-Uma faca -murmurou-. Tinha uma faca.
-Est tudo bem -aliviado, segurou sua face-. Ele no teve oportunidade de us-la.
-Pensei que tinha matado voc- tomou seu rosto nas mos e sentiu a calidez.
-No. 
-Voc o matou? 
Os olhos dele mudaram E preocupao para fria. 
-No -tinha visto  Deborah cair desacordada e  tinha  sido dominado por um terror cego, que tinha acreditado no ser mais capaz de sentir.  Para Montega tinha sido 
fcil escapar. Mas prometeu si mesmo que eles teriam outra oportunidade. E que ele receberia sua justia. E sua vingana. 
-Escapou? 
-Por enquanto. 
-O conhecia -acima da dor que sentia em sua cabea comeou a pensar-. Lhe chamou pelo nome. 
-Sim, o conheo.
- havia uma pistola -fechou os olhos com fora, mas a dor no desapareceu-. Onde estava?
-No bolso. Ele costuma estragar seu trajes. 
Era algo que Deborah analisaria mais tarde. 
- Tenho que chamar  polcia -apoiou a mo no brao dele para se equilibrar e sentiu algo pegajoso e clido nos dedos-. Est sangrando. 
-Um pouco -baixou a vista onde a bala o tinha roado. 
- uma ferida grave?  tentando ignorar as pontadas de dor em sua cabea ela aprumou. Antes que ele pudesse responder, abriu-lhe a manga para deixar a ferida descoberta. 
O corte que viu lhe provocou um n em seu estmago-. Temos de deter a hemorragia. 
-Poderia fazer um torniquete com a sua camiseta.

-No ter tanta sorte -olhou ao redor da habitao, sem deter-se na figura estendida na cama-. No h nada que, se for usado, no causa uma infeco.
-Tente com isto -lhe ofereceu um quadrado de tela negra. 
- a primeira ferida de bala que atendo, mas imagino que teria que  limpar  passou a tela pelo brao dele fazendo um torniquete. 
-Depois me encarrego disso  era prazeroso ser cuidado por ela. Os dedos de Deborah eram muito suaves sobre sua pele. Tinha encontrado a um homem morto, ela mesma 
tinha estado a ponto de ser assassinada, mas tinha se recuperado e realizava com eficcia o que tinha que fazer. Pragmatismo. Esboou um leve sorriso. Sim, podia 
ser uma qualidade muito atraente. 
Ao terminar, Deborah se apoiou nos calcanhares. 
-Bem, aqui se acaba o mito da invulnerabilidade -o sorriso dele quase parou seu corao.
-L se vai minha reputao. 
Ela s podia olh-lo, encantada enquanto os dois permaneciam de joelhos no quarto suja e pequeno. Esqueceu onde estava e quem era. Incapaz de evit-lo, baixou a 
vista at a boca masculina. Perguntou-se que sabores encontraria ali. Que maravilhas seria capaz de mostrar-lhe Nmesis? 
Ele quase no pode respirar quando Deborah o olhar de Deborah voltou para seu olhos. Viu uma paixo abrasadora e uma aceitao que resultava pavorosa. Os dedos dela 
seguiam em sua pele, acariciando-a devagar. 
-Sonho com voc -aproximou sem encontrar resistncia-. Inclusive quando estou acordado sonho com voc - Com cuidado estendeu a mo para envolveu e acariciar seus 
seios-. Em provar seu sabor -enterrou a boca em seu pescoo, onde seu sabor e fragrncia eram mais ardentes.
Apoiou-se nele, aturdida e comocionada pelos impulsos primitivos e selvagens que ferviam em seu sangue. Os lbios de Nmesis eram como uma marca sobre os seus. E 
as mos... Santo cu, as mos. Com um gemido profundo e rouco, se arqueio para atrs, ansiosa e disposta. 
E a face de Gage flutuou ante seus olhos.
-No -se apartou, assombrada e envergonhada-. No, isso no  certo. 
-No, no  -se amaldioou. Como tinha podido toc-la ali? Levantou afastando-se dela-. Voc no pertence a este lugar. 
-E voc pertence? -perguntou com voz aguda, quase  beira das lgrimas. 
-Mais do que voc -murmurou-. Muito mais do que voc. 
-Cumpria com meu trabalho. Santiago me chamou.
-Santiago est morto. 
-No  estava - levou os dedos aos olhos e rezou para manter a serenidade.-Telefonou e me pediu que viesse. 
-Montega se adiantou. 
-Sim -baixou as mos e o olhou-. Como? Como soube onde encontrar Santiago? Como soube que eu iria  est aqui noite? Esperava por mim. Chamou-me por meu nome. 
-Contou para algum que vinha ao hotel? -perguntou, interessado. 
-No. 
-Comeo a pensar que  uma tola -lhe deu as costas-. Vem a um lugar como este, sozinha, para ver um homem que iria preferir colocar uma bala na sua cabea que falar 
com voc. 
-No teria me machucado. Estava aterrorizado. Pronto para falar. Esse  meu trabalho.
-No tem nem idia -voltou a olh-la.
-Mas voc sim, imagino afastou o cabelo revolto do rosto e uma nova onda de dor a invadiu-. Oh, por que demnios no vai embora? No preciso de ficar ouvindo isso 
de voc. Tenho um trabalho que cumprir. 
-Precisa ir para casa e deixar isso com os outros. 
-Santiago no chamou a outros -retorquiu-. Chamou-me a mim, falou comigo. E se eu tivesse chegado primeiro saberia de tudo o que estou procurando. No... -calou 
quando se lhe ocorreu um pensamento-. Meu telefone. Maldito seja. Me grampearam. Sabiam que esta noite viria aqui. E tambm o do meu gabinete. Por isso souberam 
que eu ia conseguir uma ordem judicial para pesquisar a loja de antiguidades -os olhos emitiram fogo-. Bem, podemos arrum-lo de imediato se levantou rpido e o 
quarto comeou a dar voltas. Ele a apoiou com um brao.
-No far nada durante um ou dois dias -com suavidade  passou um brao por trs de seus joelhos e pegou no colo.
-Entrei andando aqui, Zorro, e sairei por meus prprios ps -ainda que tivesse que reconhecer que  era encantador estar em seus braos. 
- sempre to renitente? -perguntou ao sair para o corredor. 
-Sempre. No preciso da sua ajuda. 
-Vejo que se vira muito bem sozinha. 
-Pode ser que eu tivesse uns problemas antes-disse quando ele comeou a baixar as escadas-. Mas agora disponho de um nome. Montega. Um metro setenta, setenta quilos, 
cabelo, olhos e bigodes castanhos, dois dentes de ouro. No pode ser to difcil conseguir sua ficha. 
-Montega  meu de deteve deixando que ela visse seus olhos gelados. 
-A lei no permite as vinganas pessoais. 
-Tem razo. A lei no permite -a acomodou melhor ao chegar ao p das escadas. 
Algo em seu tom a  impulsionou  e estendeu a mo para lhe acariciar a face.
-Foi to ruim? 
-Sim foi -Deus, quanto desejava enterrar o rosto em seu cabelo e deixar que  ela o apaziguasse-. Foi muito ruim. 
-Me deixe ajud-lo. Conte para mim o que voc sabe e juro a voc que farei tudo  que posso para que Montega e quem quer que esteja por trs dele paguem pelo que 
lhe fizeram. 
Sabia que ela  tentaria. Compreend-lo o comoveu, tanto como o assustou. 
-Pago as minhas dvidas, a minha maneira. 
-Maldito sejas, olha quem diz que sou renitente -se encolheu quando saram na chuva-. Estou disposta a ser flexvel com meus princpios e a trabalhar com voc,  
formar uma equipe, e voc...
-No quero um parceiro. 
-Certo, certo. Ponha-me no cho. No vai poder me carregar por dez quarteires.
-No era minha inteno -mas poderia t-lo feito. Imaginou-se levando-a a seu apartamento, a sua cama. Mas se dirigiu  at  a esquina, em direo ao trfico e as 
luzes. Deteve-se ao chegar a borda da calada-. Chamarei um txi. 
Levantou o brao e esperaram. Passados cinco minutos, um veculo se deteve junto a eles. Irritada como estava, teve que conter um sorriso quando a boca do motorista 
se abriu com incredulidade ao ver quem a acompanhava. 
-Cus,  ele, de verdade?  Nmesis. Ei, amigo, quer que eu te leve?
-No, mas a senhorita sim -sem esforo, introduziu a Deborah no assento de atrs. A mo mida lhe acariciou uma vez a bochecha, como uma recordao - Eu receitaria 
uma bolsa de gelo e algumas aspirinas. 
-Obrigadas. Olhe,  eu ainda no terminei... -mas ele retrocedeu e desapareceu na escurido e na chuva.
 -Era ele, no? -o taxista girou o pescoo, sem prestar ateno as buzinas que recebia de outros motoristas enfadados-.  O que ele fez, salvar-lhe a vida ou algo 
assim? 
-Algo assim -murmurou ela. 
-Cus. Espera s at eu contar para minha esposa -com um sorriso, subiu a bandeira do taxmetro-. Esta viagem vai corre por minha conta.



Captulo 6


Grunhindo e com o corpo suado, Gage voltou a levantar os pesos.  Fazia muito calor e s tinha posto um calo de ginstica.  Seus msculos doam, mas estava decidido 
a cumprir com sua cota de cem repeties. Concentrado em um ponto no teto, concluiu que tinha satisfao inclusive na dor. 
Recordava muito bem quando tinha estado to debilitado que mal tinha sido capaz de levantar uma revista. Houvera um tempo em que suas pernas tinham sido como borracha 
e ficavam sem apoio quando resolvia percorrer o corredor do hospital. Recordava a  sensao de frustrao e a impotncia. 

E um dia, fraco, enfermo, deprimido, tinha-se apoiado na parede de seu quarto e desejado com todas suas foras, com toda sua vontade, desaparecer. 
E tinha acontecido. 
Por um momento pensou que estivesse tento alucinaes. Que estava ficando louco. Depois, entre aterrorizado e fascinado, tinha tentando fazer outra vez, at chegar 
um ponto de colocar-se na frente de um espelho para ver a si mesmo desaparecer. 
Jamais esqueceria aquela manh  quando entrou uma enfermeira no quarto e passara por ele com o caf da manh reclamando sobre pacientes que no ficavam em seu leito. 
E ento soube o que tinha trazido consigo ao sair do coma.

Depois disso a terapia tinha se convertido em uma religio, algo  a que tinha se dedicado cada grama de suas foras, cada partcula de sua vontade. Tinha se esforado 
mais e mais, at que seus msculos se tonificarem e endureceram. Tinha recebido lies de artes marciais, dedicado horas  levantando pesos, e castigando-se com longas 
maratonas na piscina.
Tambm tinha exercitado a mente, lendo tudo, obrigando-se a entender os mltiplos negcios que tinha herdado, dedicando um dia depois do outro a adquirir destreza 
nos complexo mundo da informtica.
Nesse momento estava mais forte, veloz e agudo que durante os anos passados na polcia. Mas nunca mais usaria um distintivo. Jamais teria outro parceiro.
Jamais se sentiria impotente. 
Soltou o ar e continuou levantando pesos quando Frank entrou com um copo grande de suco gelado. 
Frank o deixou na mesa junto ao banco e o observou um momento. 
-Est se esforando de novo hoje -comentou-. O fez ontem e no dia anterior tambm -sorriu-. O que tem as mulheres que impulsionam aos homens a levantar objetos pesados? 
-V para o inferno, Frank. 
-Certo,  bonita -indicou, sem se ofender com o insulto-. E tambm inteligente, suponho, j que  advogada. No entanto, deve ser  difcil  pensar com sua mente quando 
ela o olha com aquele par de olhos azuis.
Com um ltimo rosnado, Gage apoiou a barra nos suportes. 
-V roubar uma carteira. 
-J sabe que no fao mais isso -na face larga apareceu um sorriso-. Nmesis poderia me pegar -recolheu uma toalha limpa e a ofereceu. Em silncio, Gage a aceitou 
e  secou o suor da face e do peito-. Como vai o brao?
- Bem -no se importou em olhar para  o atadura branca  que Frank substitura em lugar do torniquete de Deborah. 
-Est se tornando lento. Nunca antes o tinham surpreendido assim. 
-Quer que eu o despea? 
-Outra vez? No -esperou com pacincia enquanto Gage se centrava em realizar  mais exerccios com outro aparelho-. Procuro segurana no trabalho. Se durante uma 
de suas sadas o matam, terei que roubar de turistas incautos novamente. 
-Ento tenho que permanecer vivo, os turistas j tem problemas suficientes em Urbana. 
-No teria acontecido isso se eu tivesse acompanhado voc. 
-Trabalho sozinho -afirmou sem interromper o exerccios-. J conhece o trato. 
-Ela estava l. 
- ai que est o problema. Seu lugar no  nas ruas,  e sim nos tribunais. 
-No a quer no tribunal,  e sim na sua cama. 
-Deixe-me em paz -soltou a peso com um rudo seco.
Conhecia a Gage a tempo demais para deixar que ele o intimidasse. 
-Olhe, est louco por ela e por isso no se concentra, ela faz com que perca a concentrao. Isso no  bom para voc. 
-No sou bom para ela -tomou o copo com suco-. Sente algo por mim e tambm por Nmesis. Isso a deixa confusa. 
-Pois diga-lhe que seus sentimentos esto dirigidos para uma nica pessoa e faa-a feliz. 
-E como, diabos, voc acha que  eu devo fazer isso?  Gage apertou o corpo entre os dedos mal se contendo em despeda-lo contra a parede-. Convid-la para jantar 
e durante a sobremesa dizer-lhe, ah, Deborah, tirando o fato de eu ser um homem de negcios e um pilar da maldita comunidade, tenho um alter ego.  imprensa gosta 
de cham-lo de Nmesis. E ambos estamos loucos por voc. Assim sendo, quando fomos para a cama, quer que eu ponha a mscara? 
-Algo parecido  Frank respondeu divertido. 
Com um riso sem humor, Gage deixou o copo.
- um caminho sem volta, Frank. Eu sei do que estou falando por que costumava ser como ela. Via as coisas em preto e branco... lei e crime- cansado de repente, olhou 
para as guas cintilantes da piscina-. Jamais compreenderia  o que fao e por que o fao. E ela vai me odiar por mentir, porque cada vez que estou com ela,  eu a 
engano.
-Acredito que no est sendo justo com ela. Voc tem razes para levar a cabo o que faz. 
-Sim -distrado, levou-se a mo  cicatriz no peito-. Tenho razes. 
-Poderia conseguir que o entendesse. Se ela realmente sente algo por voc, teria que compreender.
-Talvez, talvez ela entendesse, inclusive o aceitasse mesmo sem estar de acordo. Poderia at me perdoar pelas mentiras. Mas, e o resto? -apoiou a mo no banco, esperou 
e a observou desaparecer sobre o couro molhado-. Como lhe peo que compartilhe sua vida com uma aberrao?
-No  uma aberrao -Frank soltou uma maldio violenta-. Voc tem um dom. 
-Sim -levantou a mo e flexionou os dedos-. Mas sou eu quem tem que viver com ela.

Era meio dia e quinze em ponto quando Deborah entrou na Prefeitura. Dirigiu-se para o gabinete do prefeito. Passou na frente dos bustos que mostravam os fundadores 
do pas. O prefeito de Urbana gostava de est rodeado de tradio e tapetes vermelhos. 
Deteve-se ao chegar  zona de recepo. A secretria de Tucker Fields ergueu a vista e, ao reconhec-la, sorriu. 
-Senhorita O'Roarke. O prefeito a est esperando. Deixe que eu o comunique. 
Em vinte segundos foi escoltada at o gabinete. Fields se achava sentado atrs de sua escrivaninha, um homem severo e organizado, com o cabelo branco e a tez morena 
de uma pessoa que vivia ao ar livre. A seu lado, Jerry parecia um executivo. 
Durante os seis anos que levava no cargo, Fields  tinha ganhado a reputao de no temer sujar suas mos para manter limpa a cidade.
-Nesse momento, estava sem jaqueta e com a camisa branca arregaada, mostrando seus antebraos poderosos. Tinha a gravata frouxa e quando Deborah entrou, ele a ajustou. 
-Deborah, sempre  um prazer v-la. 
-Me alegro em v-lo, prefeito. Oi, Jerry 
-Sente-se, sente-se -Fields lhe indicou uma cadeira enquanto se reclinava na sua-. Como vai o julgamento de Slagerman? 
-Muito bem. Acredito que subir ao estrado depois do recesso do meio dia. 
-E est pronta para ele. 
-Mais do que pronta. 
-Bem, bem -lhe fez um gesto a sua secretria para que entrasse quando ela apareceu com uma bandeja nas mos-. Pensei que, como lhe fiz perder o almoo, ao menos 
podia oferecer-lhe um caf e alguns petiscos.

- Obrigado -tomou a xcara e manteve uma conversa formal e educada, ainda que soubesse que ele no a tinha chamado para bater um papo enquanto tomava caf.
- Tomei conhecimento que ontem  noite voc se divertiu um pouco. 
-Sim -no tinha esperado outra coisa-. Perdemos a Ray Santiago. 
-Ouvi sobre isso.  uma pena. E esse tal de Nmesis, tambm esteve presente? 
-Esteve.
-E na loja de antiguidades que explodiu na Stima Avenida -juntou os dedos e voltou a reclinar-se na cadeira-. Poderia comear a acreditar que esto envolvidos. 
-No, no do modo que voc quer dar a entender, prefeito. Se ele no tivesse aparecido ontem a noite eu no estaria aqui sentada conversando - mesmo  irritada, sentia-se 
impulsionada a defende-lo - No  um criminoso.., ao menos no no sentido clssico. 
-No meu sentido clssico -o prefeito ergueu uma sobrancelha-, prefiro que seja a polcia  que imponha a lei em minha cidade.
-Sim, certamente.. 
Satisfeito, Fields assentiu. 
-E esse homem... -olhou alguns papis sobre sua mesa-. Montega? 
-Enrico Montega -contribuiu Deborah-. Tambm conhecido como Ricardo Snchez e Enrico Toya. Um cidado colombiano que chegou aos Estados Unidos faz uns seis anos. 
Suspeita-se que  o assassino de dois traficantes colombianos. Teve seu quartel central em Miami durante algum tempo, o departamento de antidrogas daquela cidade 
possui uma ficha bem suja sobre ele. Igualmente a Interpol. Ao que parece,  o principal traficante da Costa Oeste. Quatro anos atrs, matou um oficial de polcia 
e feriu com gravidade a outro -calou, pensando em Gage. 
-Fez seu trabalho de casa -comentou Fields. 
-Sempre gosto de ter alicerces slidos quando vou atrs de algum.
-Mmm. Sabe, Deborah? Mitchell a considera seu melhor promotor -o prefeito sorriu - No  que ele tenha reconhecido isso. Mitchell no  de fazer elogios.
-Sou consciente disso. 
-Todos estamos muito contentes com seu histrico, em particular com o modo em que leva o caso Siagerman. Tanto Mitch como eu concordamos que queremos que se concentre 
mais plenamente em seu litgio. Assim que decidimos tir-la deste caso em particular. 
-Perdo? -piscou. 
-Decidimos que queremos que entrega suas anotaes e a sua pasta a outro promotor.
-Tiraram-me dele? 
-S queremos ajudar uma investigao policial -ergueu uma mo-. Sobrecarregada como voc est  prefervel que entregue este caso a outro promotor. 
-Parino era meu -deixou a xcara sobre a mesa com um golpe seco. 
-Parino est morto. 
Encarou  Jerry, este apenas levantou a mo. Se ps de p lutando para controlar a vontade explodir.
-Tudo surgiu disso. Tudo. Este  meu caso. Sempre foi meu, em cada momento. 
-E ele j ps voc em perigo duas vezes. 
-Fiz meu trabalho.
- Outra pessoa o continuar agora, a partir de hoje -estendeu as mos - Deborah, no se trata de um castigo, s de uma mudana de responsabilidades. 
Ela moveu a cabea e recolheu sua valise. 
-No me convenceu. Vou falar com Mitchell em pessoa -se voltou e saiu. Viu-se obrigada a manter a dignidade e  fechou a porta delicadamente. 
-Deb, espera -Jerry a atingiu antes que chegasse aos elevadores. 
-Nem sequer tente. 
-O que? 
-Apaziguar e aplacar -depois de apertar o boto de chamada, voltou-se para ele-. Que demnios foi isso, Jerry? 
-Como disse o prefeito... 
-No repita essa tolice. Voc sabia o que iria acontecer e sabia por que ele tinha me chamado, e no me  disse. Nem sequer me deu uma advertncia para que pudesse 
me preparar. 
-Deb... -apoiou uma mo em seu ombro, mas com um movimento ela a tirou- Escuta, no  que eu no esteja de acordo com tudo o que disse o prefeito...
- Sempre  est. 
-No sabia. No sabia, maldita seja -repetiu quando ela s o olhou sem expresso-. No at as dez desta manh. E sem importar no que voc acredita, eu teria lhe 
dito. 
Deborah parou de golpear com o punho o boto do elevador. 
-Certo, desculpe-me ter descontado em voc. Mas no  justo. H algo  que no me soa bem.
- Eles estiveram a ponto de matar voc  a recordou-. Quando Guthrie veio esta manh... 
-Gage? -interrompeu-. Gage esteve aqui? 
-Tinha um encontro s dez. 
-Compreendo -com as mos fechadas, virou outra vez para o elevador-. Isso quer dizer que ele est por trs de tudo.
-Estava preocupado, nada mais. Sugeriu... 
- Fao idia o que ele sugeriu-o cortou e entrou no elevador-. Isto no terminou. E pode contar para seu chefe que eu disse isso. 
Teve que controlar seu mal humor ao entrar no tribunal. Os sentimentos e os problemas pessoais no tinham vez ali. Tinha duas jovens assustadas e o sistema justicial 
dependia dela.

Sentada, tomou cuidadosas notas enquanto a defesa interrogava a Slagerman. Eliminou  Gage e suas atividades da cabea. 
Quando chegou  sua  vez de interrogar, estava pronta. Permaneceu sentada um momento, estudando a Slagerman. 
-Considera-se um homem de negcios, senhor Slagerman? 
-Certamente.
-E seu negcio consiste em oferecer escolta, tanto feminina como masculina, a seus clientes? 
-Correto. Elegant Escorts proporciona um servio, que tem como objetivo  encontrar acompanhantes adequadas para homens e mulheres de negcios, com freqncia de 
fora da cidade. 
Deixou-o descrever sua profisso. 
-Compreendo - levantou e passou de frente ao jri-. E faz parte de... digamos que da descrio do trabalho, que alguns de seus empregados troquem sexo por dinheiro 
com esses clientes?
- Com certeza que no -atraente e apaixonado, estufou o peito-. Meu pessoal passa por uma seleo rigorosa e est bem treinado.  uma firme poltica da empresa que 
se, algum empregado estabelece essa classe de relao com um cliente, o resultado  a demisso imediata. 
-Sabe se algum de seus empregados trocou sexo por dinheiro? 
-Descobri isso agora -olhou com expresso sria para Suzanne e a Marjorie. 
-Solicitou que Marjorie Lovitz ou Suzanne McRoy atendessem a algum cliente num plano sexual? 
-No. 
-Mas tem noo que elas o fizeram? 
Se lhe surpreendia a linha do interrogatrio, Slagerman no moveu nem um msculo. 
-Sim, claro.  Elas reconheceram sob juramento que o fizeram. 
-Sim, estavam sob juramento, senhor Slagerman. Igual a voc. Golpeou um empregado seu alguma vez sr. Slagerman?
-De nenhuma maneira.
-No entanto, tanto a senhorita Lovitz como a senhorita McRoy afirmam, sob juramento, que voc lhes bateu. 
-Mentem -lhe sorriu. 
-Senhor Slagerman,  voc foi ao apartamento da senhorita Lovitz na noite do dia vinte e cinco de fevereiro, aborrecido porque no podia ir trabalhar e, em sua revolta, 
a golpeou? 
-Isso  ridculo. 
-Voc afirma, estando sob juramento? 
-Protesto. A pergunta foi respondida. 
-A retiro. Senhor Siagerman, voc teve algum contato com a senhorita Lovitz ou a senhorita McRoy desde que comeou o julgamento? 
-No. 
-No telefonou para nenhum das duas? 
-No. 
Com um gesto de consentimento, dirigiu-se a sua mesa e recolheu alguns papis. 
-O nmero 555 2520 lhe soa familiar? 
-No -titubeou.
-Que estranho.  sua linha privada, senhor Siagerman. No deveria reconhecer sua prpria linha privada? 
Ainda que sorrisse, Deborah pde perceber o dio gelado em seus olhos. 
-Eu telefono dela, no para ela, de maneira que no preciso sabe-la. 
-Compreendo. E voc a usou na noite de dezoito de junho essa mesma linha privada para ligar para o apartamento onde vivem agora as senhoritas Lovitz e McRoy? 
-No. 
-Protesto, senhorita. Este interrogatria no vai dar em lugar nenhum. 
Deborah olhou para o juiz e deixou a imagem de Slagerman visvel para o jri. 
-Senhora, em alguns momentos eu lhe mostrarei para onde isso nos conduz. 
-Protesto negado. 
-Senhor Siagerman, talvez possa nos explicar por que, segundo seu extrato telefnico, por que consta um telefonema se sua linha privada para o apartamento das senhoritas 
Lovitz e McRoy faltando trezes minutos para as onze horas da noite do dia dezoito de junho.
-Qualquer um poderia ter usado meu telefone. 
-Sua linha privada? -arqueou uma sobrancelha-. De que serve uma linha privada se qualquer um pode us-la? Quem telefonou se identificou a si mesmo como Jimmy. Voc 
se chama Jimmy,  no  verdade? 
-Eu e muitas outras pessoas. 
-Lembra de ter falado comigo na noite do dia dezoito de junho? 
-Jamais falei com voc por telefone. 
Ela sorriu com frieza e se aproximou mais da cadeira onde estava o interrogado.
- J percebeu alguma vez, senhor Slagerman,  que o para alguns homens  as vozes de todas as mulheres soam igual? Do mesmo modo que para alguns homens todas as mulheres 
so iguais? E que do mesmo jeito, para alguns, o corpo da mulher s serve para um propsito? 
-Senhorita -o advogado de defesa se colocou de p.
- Retiro - Deborah no desviou o olhar do acusado-. Pode nos explicar, senhor Siagerman, como algum que usa sua linha privada e seu nome telefonou para a senhorita 
McRoy a noite do dezoito de junho? E como, quando eu respondi, essa pessoa, que usou sua linha privada e seu nome, confundiu minha voz com a dela e ameaou  senhorita 
McRoy? -aguardou um segundo-. Gostaria de saber o que disse essa pessoa? 
-Pode inventar o que voc quiser -o suor molhava seu lbio superior. 
-Isso  verdade. Por sorte tnhamos grampeado a linha da senhorita McRoy. Aqui est a transcrio -girou uma folha-. Vou refrescar sua memria. 

Tinha vencido. Ainda que faltasse as exposies finais, sabia que tinha vencido. Enquanto avanava pelo Palcio de justia, pensou que agora iria se ocupar de outros 
assuntos.
Encontrou a Mitchell em seu gabinete, colado ao telefone. Era um homem grande que tinha sido jogador de defesa na universidade. Entre seus diplomas, tinha fotos 
suas com o uniforme da equipe de futebol. Era ruivo e cheio de sardas que no suavizavam em nada sua expresso dura. 
Ao ver a Deborah, indicou-lhe que se sentasse. Mas ela permaneceu de p at que terminasse de falar. 
-Slagerman? 
- Tenho-o crucificado -avanou um passo para a escrivaninha-.Voc me vendeu. 
-Bobagem. 
-Como, diabos, chama o que fez? Me chamaram ao gabinete do prefeito para me tirar do caso. Maldito sejas, Mitchell. O caso  meu!
- do estado -corrigiu ele, mordendo a extremidade do charuto sem no entanto acende-lo-. No  a nica que pode faze-lo. 
-Eu falei com Parino, eu estabeleci o trato -apoiou as palmas das mos sobre a escrivaninha para que ficassem frente a frente-. Sou eu que tenho me dedicado a este 
caso. 
-E tem extrapolado os limites.
-Foi voc quem me ensinou que levar um caso requer algo mais que se colocar em um traje bonito e me apresentar diante do  jri. Conheo meu trabalho, maldito seja. 
-Ir se encontrar com Santiago a ss no foi uma conduta acertada. 
- Isso  uma tolice. Ele me chamou. Pediu falar comigo. Diga para mim, o que teria feito se em vez de mim ele tivesse ligado para voc?
-Isso  diferente -franziu o cenho. 
- exatamente a mesma coisa -revidou, convicta pela expresso que viu em seus olhos de que tambm sabia-. Se eu tivesse fazendo algo de errado ou contra a regras, 
esperaria que me afastassem. Mas eu no o fiz. Sou eu que estou me dedicando a este caso. E quando enfim consigo uma pista, descubro que aparece Guthrie e tanto 
o prefeito quanto voc cedem. Segue sendo uma comunidade machista, no  verdade, Mitch? 
-No me venha com esta merda feminista - lhe apontou com o charuto-. Me preocupa o fato que tem arriscado sua vida.
- Pois vou logo dizer, Mitch, se me afastar do caso sem uma boa causa, largo tudo. No posso trabalhar para voc se no posso contar com seu apoio, se for assim, 
seria melhor que eu trabalhasse por minha conta e aceitasse casos de divorcio por trezentos dlares a hora. 
-No gosto de receber ultimatos.
-Eu tambm no gosto. 
Reclinou-se no cadeira e a estudou. 
-Sente-se
-E? -perguntou furiosa depois de sentar. 
-Se Santiago tivesse me chamado girou algumas vezes o charuto entre os dedos-, eu teria ido, igual voc fez. Mas... -continuou antes de que ela pudesse falar-, 
Mas no  apenas o modo que levou o caso que me fez querer afast-la. 
-O que, ento? 
- Tem recebido muita ateno da imprensa por causa deste caso. 
-No entendo a relao. 
-Leu o jornal desta manh? -o agitou diante de seu rosto-. Leu as manchetes? A Charmosa Deb percorre a Cidade nos Braos de Nmesis.
- O que tem haver com o caso se um taxista gosta de ver seu nome no jornal? 
- Quando um de meus promotores comea a ser associados com um vigilante mascarado, tem tudo a ver- levou o charuto  boca e o mordeu-. No gosto da fato que, no 
para de topar com ele.
Ela tambm no gostava. 
-Olhe, se a polcia  incapaz de det-lo, no pode me considerar responsvel pelo fato dele aparecer em todas as partes. Eu odiaria saber que voc me tirou do caso 
por que um imbecil queria encher sua coluna. 
Pessoalmente Mitch odiava esse tipo de reprter. E tambm no tinha gostado da ttica de fora do prefeito. 
-Voc tem duas semanas. 
-Isso no  tempo suficiente para... 
-Duas semanas, aceita-as ou esquea. Ou me traz algo que a gente possa apresentar ao jri ou eu passarei a bola para outro, entendeu?
-Sim levantou-se-. Entendi.
Ao sair teve que suportar as brincadeiras de seus colegas. Na porta de seu gabinete tinham colado um papel. Algum tinha empregado um caneta colorida  para traar 
uma caricatura dela nos braos de um homem mascarado e musculoso. Embaixo estava escrito: As Aventuras da Charmosa Deb. 
Com um rugido o arrancou,  amassou e  guardou no bolso. Tinha que fazer outra parada.
Manteve o dedo apertado na campainha da manso de Gage at que Frank abriu. 
-Ele est em casa? 
-Sim, senhorita -se afastou quando ela entrou feito uma fera. J tinha visto a mulheres furiosas, e teria preferido enfrentar uma manada de lobos famintos. 
-Onde?
- Em seu gabinete. Ser um prazer comunicar  sua presena. 
-Pode deixar que eu mesmo me anunciou -disse dirigindo-se para a escada. 
Frank a observou com os lbios apertados. Pensou em chamar a Gage pelo telefone interno para avis-lo, mas sorriu. A surpresa faria bem para ele.

Deborah no se incomodou em chamar. Ao entrar viu que Gage se achava atrs da escrivaninha, com o telefone na mo e um lpis na outra. Tinha ligado alguns monitores. 
Na frente dele se sentava uma mulher de meia idade com um bloco de notas. Ante a entrada no anunciada de Deborah, levantou-se e olhou com curiosidade a Gage. 
-Voltarei a chamar -disse Gage no fone antes de coloca-lo no gancho-. Oi Deborah. 
Ela jogou a bolsa sobre uma cadeira. 
-Acredito que queria manter esta nossa conversa em particular -disse e ele assentiu. 
-Pode transcrever essas notas amanh, senhora Brickman. Por que no vai para casa? 
-Sim, senhor -recolheu suas coisas e saiu com discrio. 
Deborah enganchou os polegares nos bolsos da saia. Tinha visto essa postura no tribunal. 
-Deve de ser agradvel -comeou- estar sentado em sua torre e dar ordens. Deve de ser fantstico. Mas nem todos ns somos afortunados. No temos suficiente dinheiro 
para comprar castelos, ou avies privados ou trajes de mil dlares. Trabalhamos nas ruas. Mas a maioria de ns somos bons em nossos respectivos trabalhos, e bastante 
felizes -ao falar, avanou devagar para ele-. Mas, sabe o que nos enfurece, Gage? Sabe o que nos deixa  muito irritado? Que algum numa dessas arrogantes torres 
meta seu rico e influente nariz em nossos assuntos. Enfurece tanto que nos faz pensar seriamente em dar um murro neste nariz abelhudo
- Devemos vestir as luvas de boxer? 
-Prefiro as mos nuas -igual fizera no escritrio de Mitchell, plantou as palmas sobre a escrivaninha-. Quem, diabos, acha que , para se apresentar diante do prefeito 
e pedir para que eu saia do caso? 
-Fui ver ao prefeito e lhe dei minha opinio -respondeu devagar. 
-Sua opinio -levantou um dos pesos de papel de nix  da mesa. Ainda que pensasse seriamente em atir-lo contra a janela que tinha atrs dele, contentou-se com passar-lo 
de uma mo para outra-. E aposto que ele o escutou com muito prazer. A voc e a seus trinta milhes.
Gage a observou caminhar de um lado para o outro e esperou at estar seguro de poder falar com clareza.
-  muita mais conveniente que esteja em um tribunal e no em uma palco de assassinato.
-Quem  voc para dizer que  o que mais me convm? -girou furiosa-. Isso determino eu, no voc. Toda minha vida me preparei para este trabalho e no penso em permitir 
que aparea algum que me diga que no estou pronta para um caso que me foi atribudo -deixou o peso de papel com fora sobre a mesa - Mantenha-se afastado de meus 
assuntos e de minha vida. 
No, compreendeu Gage. No vou poder ser racional. 
-Terminou?
-No. Antes de ir-me quero que fique sabendo que no funcionou. Sigo no caso e assim penso continuar. Desperdiou seu tempo, e o meu. E, por ltimo, acredito que 
 arrogante e insuportvel. 
-Terminou? -repetiu, com as mos fechadas sob a mesa. 
-Pode apostar - recolheu a valise, girou caminhando em direo da porta. 
Gage apertou um boto sob a mesa e os ferrolhos se bloquearam. 
-Eu no - disse com serenidade.
Deborah no tinha imaginado que pudesse ficar mais furiosa. Ao voltar em sua direo uma bruma vermelha flutuava sob seus olhos. 
-Abre essa porta agora ou vou denunci-lo.
-J disse o que tinha que dizer, advogada  levantou-. Agora  a minha fez. 
-No me interessa o que tem para dizer. 
Rodeou a escrivaninha s para apoiar-se na parte frontal. Ainda no confiava em si mesmo para se aproximar dela. 
-Tem todas as provas, no  verdade, advogada? Todos os seus pequenos fatos. Assim eu pouparei tempo e me declararei culpado de tudo o que me acusa. 
-Ento no temos mais nada a dizer. 
-A promotoria no se interessa em averiguar o motivo? 
Deborah jogou a cabea atrs quando ele se aproximou. Algo na maneira dele se mover, lenta, silenciosamente, pareceu faze-la recordar algo. Mas esta se desvaneceu 
rpida sendo dominada pela fria.
-Neste caso o motivo no  relevante, os resultados sim. 
-Est equivocada. Fui ver ao prefeito e lhe pedi que utilizasse sua influncia para que a afastasse do caso. Mas sou culpado de algo mais... sou culpado de estar 
apaixonado de voc - as mos trmulas dela caram frouxas do lado do corpo e a valise no cho. Ainda tentou abriu a boca para falar algo, no foi capaz de articular 
uma palavra -  assombroso - continuou com olhos irados ao dar o passo final para ela - Que uma mulher perspicaz como voc se sinta surpreendida por isso. Deveria 
ter percebido pelo modo que a olho, pelo modo que a toco - apoiou as mos em seus ombros - Deveria ter desconfiado disso quando eu a beijava. 
A apoiou contra a porta e roou a boca contra os lbios dela, uma, duas vezes, antes de devor-la.
Os joelhos de Deborah se transformaram em gelatina. No tinha considerado que fosse possvel, mas tremiam tanto que se no tivesse agarrada  a ele cairia no solo. 
Ainda assim, tinha medo. Porque ver, sentir e perceber no se comparava a ouvir as palavras dos prprios lbios. 

Gage estava perdido nela. E quanto mais se abria Deborah , mais profundo mergulhava. Acariciou e a face, o cabelo, o corpo, almejando toc-la inteira. 
Quando ergueu a face, ela viu amor e desejo. E com eles uma guerra que ela sabia no ter terminado. 
-Houve noites -murmurou ele-, centenas de noite que permaneci acordado apenas esperando chegar o outro dia. Perguntava a mim mesmo se chegaria um dia que encontraria 
algum que eu poderia amar, necessitar. No importa at onde foi a fantasia, no chegou nem perto do que eu sinto por voc.
-Gage - tomou o rosto entre as mos e soube que seu corao estava perdido para ele, mas recordou que na noite anterior tambm tinha sentido isso por outro homem-. 
No sei o que sinto. 
-Sim voc  sabe. 
-Certo, sei, mas tenho medo de sentir. No  justo. No estou sendo justa, mas tenho que pedir para me deixar pensar. 
-No sei se serei capaz. 
-Um pouco mais de tempo, por favor. Abre a porta e me deixa sair. 
-Est aberta -retrocedeu para abrir-la. Mas bloqueou sua sada no ltimo instante-. Deborah... da prxima vez no deixarei voc ir. 
Ela ergueu a vista e em seus olhos viu a verdade de suas palavras. 
- Eu sei.



Captulo 7



O jri delongava no veredicto. Deborah dedicou esse tempo a rastrear do seu gabinete em frente ao telefone e ao computador o que Gage tinha mencionado como vnculo 
comum. A loja de antiguidades, Timeless, tinha pertencido a Imports Incorporated, cuja direo era um Spar vazio na parte comercial da cidade. A empresa no tinha 
apresentado nenhuma reclamao ao seguro pela perda e o diretor da loja tinha desaparecido. A polcia ainda tinha que localizar o homem que Parino tinha chamado 
de Rato. 
Ao escavar tinha vindo a luz a Triad Corporation, com sede em Filadlfia. Um telefonema a Triad tinha posto a Deborah em contato com uma gravao que a informou 
que a linha telefnica tinha sido desconectada. Enquanto chamava o escritrio do promotor de Filadlfia, introduziu todos os dados no computador. 
Duas horas mais tarde, tinha uma lista de nomes, nmeros da segurana social e o comeo de uma enxaqueca.
Antes de realizar o telefonema seguinte, o telefone soou. 
-Deborah O'Roarke. 
- a mesma Deborah O'Roarke que  incapaz de manter seu nome longe dos jornais? 
-Cilla -ao ouvir a voz da irm, a dor de cabea diminuiu um pouco-. Como voc est? 
-Preocupada com voc. 
-Alguma novidade? -moveu os ombros para aliviar os msculos rgidos, depois se reclinou na cadeira-. Como est Boyd? 
-Para voc capito Fletcher. 
-Capito? empertigou-se outra vez-. Quando o promoveram? 
-Ontem -o orgulho se manifestava em sua voz-. Imagino que agora que durmo com um capito da polcia tenho que tomar cuidado. 
-Diga a ele que estou orgulhosa. 
-Vou dizer. Todos estamos. E agora...
- Como est os meninos? -tinha prtica em alongar o momento do interrogatrio. 

- perigoso perguntar-lhe a uma me como esto seus filhos durante as frias.., ganham do capito e de mim por trs a dois -Cilla emitiu um riso clido- Os trs 
membros da brigada infernal esto bem. Mas agora vamos falar de voc. 
-Eu estou bem. Como vai todo pela KHIP? 
-Igualmente catico. Resumindo, preferiria estar em Maui -Cilla reconheceu a ttica de distrao e insistiu-. Deborah, quero saber no que anda metida.
-Trabalho. De fato, estou a ponto de ganhar um caso -olhou o relgio e calculou o tempo que levava a reunio do jri-. Assim espero. 
-Desde de quando voc tem sado com sujeitos mascarados? -Cilla sabia que as vezes tinha que ser direta. 
-Vamos, Cilla, no acredite em tudo o que l nos jornais.
- Certo. E  nem em tudo  que sai pela rdio, mesmo que ontem tenhamos transmitido sua ltima aventura  a cada uma hora. Ainda que eu no lesse os jornais de Urbana, 
teria chegado at a mim toda essa confuso. Apareces nas notcias de mbito nacional, pequena. No me enrole, quero saber que est passando. Por isso estou perguntando. 
No geral era mais fcil de escapar se ela utilizasse fatos verdicos. 
-Esse personagem chamado Nmesis  um problema. A imprensa o glorifica... e o que  pior, nesta manh, a apenas dois quarteires daqui vi algumas camisas com a figura 
dele.
-Deborah no ia permitir que a irm a distrasse-, Trabalho a muito tempo em uma rdio para no ser capaz de reconhecer, pela voz, quando algum me esconde alguma 
coisa, em especial a de minha irm caula. O que h entre vocs dois?
-Nada -insistiu, desejando que fosse verdade-. S me encontrei com ele duas vezes durante a investigao que estou realizando. A imprensa o est endeusando.
-Percebi, Charmosa Deb. 
-Oh, por favor. 
-No sei o que est acontecendo, mas o que importa  que anda metida com alguma coisa perigosa. Por que tenho que ler no jornal para saber que um manaco tinha uma 
faca na garganta de minha irm? 
- um exagero. 
-Ah, isso quer dizer que ningum ameaou voc com uma faca? 
No importa quo bem mentisse, pensou. Cilla o saberia. 
-No foi to dramtico como eles escreveram. E no sa ferida. 

-Facas em tua garganta -murmurou Cilla-. Edifcios que  explodem na sua frente. Maldita seja, Deb, no h policiais neste lugar?
-S  estava realizando um trabalho de campo. No comece -se apressou a dizer-. Faz idia como  frustrante ter que repetir que sabe o que est fazendo, que pode 
cuidar de voc mesma e cumprir com o trabalho? 
Cilla suspirou. 
- Eu sei. Mas no posso deixar de me preocupar com voc, Deborah, pelo simples fato de que est a trs mil quilmetros.  Eu levei anos  para aceitar  o que  ocorreu 
a mame e  papai. Se perdesse voc, no poderia suportar. 
-No vai me perder. Agora mesmo, o ser mais perigoso que enfrento  o meu computador. 
- Sei, sei... -sabia que discutir com a irm no mudaria nada. E qualquer que fosse as respostas que Deborah desse, ela seguiria preocupando-se -Escuta, vi tambm 
uma foto de minha irmzinha com um milionrio. Vou ter que comprar um lbum de fotografia. H algo que queira me dizer?
-No sei. As coisas esto bastantes complicadas atualmente e eu no tive tempo de analis-las.
-H algo para analisar? 
-Sim -a dor de cabea voltava. Abriu uma gaveta para pegar um frasco de aspirinas-. Vrias de coisas -murmurou, pensando em Gage e em Nmesis. Isso era algo que 
nem sequer Cilla poderia ajud-la. Mas poderia ajud-la em outras coisas-. Como  est casada com um capito da polcia, o que lhe parece  utilizar sua influncia 
para me fazer um favor?
-Eu o ameaarei de cozinhar. Ele far qualquer coisa que eu pedir. 
Rindo, Deborah recolheu uma das folhas impressas.
-Gostaria que ele comprovasse alguns nomes para mim. George P. Drummond e R. Meyers, os dois com moradia em Denver -soletrou os nomes e adicionou seus nmeros da 
segurana social-. Anotou? 
-Mmm -murmurou Cilla enquanto escrevia. 
-E Solar Corporao, tambm com sede em Denver. Drummond e Meyers pertencem a junta diretiva. Se Boyd pudesse procurar no computador da polcia, me pouparia vrios 
passos na burocracia. 


-O conseguirei mediante mais ameaas. Deb, vai ter cuidado, certo?
-Claro que sim. Abrace todos por mim. Sinto saudades de todos -Mitchell apareceu na porta e lhe fez um sinal-. Tenho que ir, Cilla, o jri saiu.

Em um dos cmodos ocultos de seu lar, em um quarto enorme e cheia de  mquinas, Gage estudava uma fileira de computadores. Havia certos trabalhos que  no podia 
realizar em seu gabinete,  e que preferia manter em segredo. Com as mos metidas nos bolsos das calas, observou os monitores. Neles apareciam nomes e nmeros. 
Em um deles podia ver a informao que Deborah tinha procurado no outro lado da cidade. Est fazendo progressos, pensou. Lentos, sem dvida, mas se preocupava 
do mesmo jeito. Se ele era capaz de seguir seus passos, outra pessoa podia fazer o mesmo.
Ps-se a digitar. Tinha que encontrar um vnculo. Quando o conseguisse, localizaria o nome do homem que tinha assassinado  Jack. E se ele o encontrasse antes que 
Deborah, ela estaria a salvo. 
Os computadores lhe ofereciam um caminho. Ou podia tomar outro. Deixou que as mquinas desempenhassem sua funo, voltou-se e apertou um boto. Na parede do lado 
oposto da sala de teto alto apareceu um mapa enorme. Aproximou-se  dele e estudou detalhes em grande escala da cidade de Urbana.
Empregando outro teclado, fez que dezenas de luzes coloridas piscassem em diversas partes da cidade. Cada uma representava um ponto importante de intercmbio de 
drogas, muitos dos quais era desconhecido para a polcia. 
Luzes piscavam em East End, em West, na zona exclusiva da cidade, nos bairros pobres, no distrito financeiro. No parecia existir um padro, ainda que sempre o tivesse. 
S tinha que descobrir. 
Enquanto estudava o mapa, deixou que seu olhar mirasse um ponto especifico. O apartamento de Deborah. Teria chegado j a casa? J estaria a  salvo no interior? Teria 
colocado o roupo azul enquanto lia os relatrios? 
Pensaria nele? 
Passou-se as mos pela face. Frank tinha razo, ela interferia em sua concentrao. Mas, que podia fazer a respeito? Cada tentativa que realizava para que se retirasse 
do caso, fracassava. Era obstinada demais.
Sorriu. No tinha acreditado que alguma vez iria chegar a se apaixonar. E o irnico do caso era que tinha que suceder com uma servidora pblica. Sabia que nenhum 
dos dois cederia. Mas, sem importar a disciplina que tivesse sobre corpo e mente, parecia no ter nenhuma sobre o corao. 

No se tratava s da beleza dela. Ainda que sempre tivesse gostado  das coisas belas e tinha chegado a apreci-las s por sua existncia. Depois de sair do coma, 
tinha encontrado um verdadeiro consolo em rodear-se de beleza. Toda essa cor e textura depois de tanta cinza. 
No era s a mente de Deborah. Ainda que respeitasse sua  inteligncia. Como policial e homem de negcios, tinha aprendido que uma mente aguda era o arma mais poderosa 
e perigosa. 
Tinha algo, um algo indefinvel alm de seu aspecto e sua mente que o tinha atrado. Porque era to prisioneiro dela quanto de seu prprio destino. E no tinha idia 
de como achar um soluo nica.
Sabia que o primeiro passo era encontrar um vnculo, um nome e fazer justia. Quando tivesse deixado isso atrs, e o mesmo acontecesse com Deborah, podia existir 
a possibilidade de um futuro. 
A afastou da mente, estudou as luzes e se inclinou sobre um computador  e ps-se a trabalhar. 

Sustentando uma caixa de pizza, uma garrafa de vinho e uma valise cheia de papis, Deborah saiu do elevador. Enquanto se perguntava como poderia pegar as chaves, 
olhou em direo  porta do apartamento. Um cartaz com letras de cores estava escrito: Felicidades, Deborah. 
Com um sorriso pensou que era obra da  senhora Greenbaum. Ao voltar-se para a porta de sua vizinha, Lil a abriu.
-Ouvi as notcias no jornal das seis horas. Acabou esse tormenta miservel-se ajustou o baixo da camiseta-. Como se sente? 
-Bem. Sinto-me bem. O que acha de celebramos com uma pizza?
-Me convenceu -fechou a porta de sua casa e cruzou o corredor descala  Imagino que tenha percebido que o ar condicionado voltou a estragar. 
-O percebi na sauna do elevador. 
-Acredito que nesta ocasio deveramos mobilizar todos os arrendatrios olhou-a com expresso astuta-. Em particular se nossa porta-voz  uma promotora imbatvel. 
-Sempre  voc nossa porta-voz -comentou Deborah ao preparar o vinho-. Mas se no arrumar nas prximas vinte e quatro horas, chamarei o proprietrio e pressionarei 
-remexeu no bolso-. Se puder encontrar as chaves. 
-Tenho a cpia que me deu -meteu a mo no bolso de suas amplas calas e sacou um molho de chave- Deixe-me abrir.
-Obrigada j dentro, Deborah deixou a pizza numa mesa-. Vou trazer copos e pratos.
Lil levantou a tampa e com satisfao viu que tinha todos os ingredientes.
-Sabe, uma jovem bonita como voc deveria celebrar com um jovem atraente em vez de com uma anci. 
-Que anci? -disse Deborah da  cozinha, o que provocou o riso de Lil. 
-Muito bem, ento com uma mulher um pouco acima da meia idade.  O que me diz desse Gage Guthrie?
-No o imagino comendo pizza e bebendo vinho barato -regressou com a garrafa e duas copas, com pratos e guardanapos de papel sob um brao-. Ele combina mais com, 
caviar. 
-E o que isso tem de ruim? 
-Nada -franziu o cenho-. Nada, mas estava com vontade de comer pizza. E depois de tudo, tenho de trabalhar. 
-Querida, voc no descansa nunca? 
-Tenho uma data limite -comentou, e descobriu que ainda estava irritada. Encheu as duas copos e lhe ofereceu um a sua amiga-. Pela justia -brindou-. A dama mais 
formosa que conheo. 
Ao sentar-se cada uma com uma poro de pizza na mo, ouviram a campainha da porta. Deborah  lambeu molho dos dedos e foi abrir. Viu uma enorme cesta de rosas vermelhas 
que pareciam ter pernas.
-Entrega para Deborah O'Roarke. Tem algum lugar onde eu possa deixar isso, senhorita? 
-Oh... sm. Ali  ficou nas pontas dos ps e viu a cabea do repartidor acima das flores-. Na mesinha. 
Enquanto assinava o recibo de entrega, viu que as flores ocupavam toda a mesa
-Obrigado -procurou uma nota na carteira. 
-Bem? -quis saber Lil quando voltaram a ficar a ss-. Quem as enviou? 
Ainda que j soubesse, Deborah recolheu o carto. 

Bom trabalho, promotora. 
Gage 

No pde evitar o sorriso que apareceu em seus lbios. 
-So de Gage. 

-Esse homem sabe como fazer as coisas -os olhos de Lil brilharam por trs dos culos. No tinha nada que gostasse mais do que um bom romance a no ser se fosse uma 
boa manifestao de protesto-. Deve ter pelo menos umas cinco dzias. 
-So lindas - guardou o carto no bolso-. Suponho que terei que ligar e agradecer. 
-No mnimo -Lil deu uma mordida  pizza-. Por que no o faz agora, enquanto ainda est fresco na mente? -e enquanto ela pudesse ouvir.
Deborah titubeou, envolvida na fragrncia das flores. No, concluiu com um movimento de cabea. Se o chamava nesse momento, cm as defesas baixas ainda pelo gesto, 
poderia fazer ou dizer algo precipitado. 
-Depois -decidiu-. O chamarei depois. 
-Ganha tempo -comentou Lil enquanto mastigava. 
-Sim -sem  sentir envergonha de reconhecer, voltou a se sentar. Durante um momento comeu em silncio, depois recolheu o copo de vinho-. Senhora Greenbaum -comeou 
com o cenho franzido-, voc esteve casada duas vezes. 
-At o momento -respondeu com um sorriso. 
-Amou os dois? 
-Completamente. Eram bons homens -seus olhos pequenos e agudos adquiriram uma expresso juvenil e sonhadora-. Em ambas ocasies pensei que ia a ser para sempre. 
Tinha mais ou menos a sua idade quando perdi  meu primeiro marido na guerra. S passamos  uns poucos anos juntos. O senhor Greenbaum e eu tivemos mais sorte. 
-Sinto pelos dois. J se perguntou alguma vez.., imagino que  uma pergunta incomum, mas j se perguntou o que teria acontecido se os tivesse conhecido ao mesmo 
tempo. 
-Teria sido um problema -respondeu as sobrancelhas, intrigada pela idia. 
-Compreende o que quero dizer. Amou os dois, mas se eles tivessem aparecido em sua vida ao mesmo tempo, no poderia amar os dois. 
-No h como saber que truques pode realizar o corao. 
-Mas no pode amar  dois homens do mesmo jeito ao mesmo tempo adiantou-se e em seu rosto ficou refletido o conflito que a dominava. E se tivesse amado? Ou acreditasse 
que estivesse amando ambos. Como estabelecer um compromisso com um sem ser infiel ao outro?
-Ama  Gage Guthrie? -perguntou Lil passado um momento, servindo mais um pouco do vinho. 
- possvel -Deborah olhou a cesta que transbordava de flores-. Sim, acredito que amo. 
-E ama outro tambm? 
Com o copo entre as mos, Deborah  levantou e caminhou pela sala. 
-Sim, mas  uma loucura no  verdade?
No, pensou Lil. Nada que tinha a ver com amor podia ser  uma loucura. E ela sabia que a situao podia ser deliciosa e excitante para algumas pessoas, mas no 
para Deborah. Para ela seria  uma situao dolorosa.
 -Est segura que em ambos o caso no  sexo e sim amor? 
-Pensei que era apenas algo fsico -suspirou e voltou a sentar-. Queria que fosse assim. Mas pensei muito a respeito e tratando de ser sincera comigo mesma, e sei 
que no o . Inclusive os misturo em minha cabea. 
-No apenas comparando-os, mas tambm tratando de convert-los em um s homem, para que tudo fosse mais simples -bebeu outro gole-. Gage disse que me ama e eu acredito, 
no sei o que fazer.
-Faa o que seu corao mandar -disse Lil-. Sei que isso soa utpico, mas as coisas verdadeiras sempre o so. Deixe que sua mente ocupe um segundo plano e segue 
seu corao, geralmente ele indica a direo certa.


s onze horas, Deborah assistiu a ltima edio de notcias. No foi desagradvel ver que sua atuao no caso Slagerman fosse a reportagem principal. Observou sua 
prpria imagem dando uma declarao breve nos degraus dos tribunal, franzindo um pouco o cenho quando Wisner se adiantou para formular suas tolices habituais sobre 
Nmesis. 
O jornal aproveitou esse momento para narrar as ltimas faanhas de Nmesis: o roubo que frustrou numa joalheria, o ladro que capturou, o assassinato que tinha 
impedido. 
- um homem ocupado -murmurou, bebendo-se o resto do vinho. Se a senhora Greenbaum no tivesse passado quase toda a noite com ela, teria se contentado em beber um 
copo de vinho em vez de quase meia garrafa.
Bem, amanh  sbado, encolheu-se de ombros. Poderia dormir um pouco mais antes de ir ao gabinete. Ou, se tivesse sorte, descobriria algo essa mesma noite. Mas 
no faria nada se continuasse sentada em frente ao televisor.
Esperou at ouvir parte do tempo, que prometia mais calor, muita umidade e possibilidades de tempestades de vero. Desligou o televisor e foi at o  dormitrio para 
sentar-se ante sua escrivaninha. 
Tinha deixado a janela aberta com a v esperana de capturar uma brisa fresca. Noites quentes. Necessidades ardentes. 
Aproximou-se da janela para respirar e mitigar o anseio que nem sequer o vinho tinha aplacado. Mas ele seguia sendo uma palpitao profunda e lenta. Estaria l 
fora?, perguntou-se levando-se uma mo  tmpora. Nem sequer sabia em que homem pensava. E sabia que seria melhor se no pensasse em nenhum. 
Acendeu o lustre da escrivaninha, abriu uma pasta e olhou o telefone. 
Tinha ligado para Gage h uma hora, para que um taciturno Frank respondesse que o senhor Guthrie no se encontrava. No podia voltar a ligar. Daria a impresso de 
que controlava seus movimentos. Algo que no tinha direito, em especial por que fora ela quem solicitara tempo e espao. 
Reafirmou que era isso  que desejava. Que precisava. E pensar nele no a ajudaria a encontrar as respostas enterradas em alguma parte dos papis que tinha sobre 
sua mesa. 
Comeou a l-los outra vez, fazendo anotaes num bloco de papel branco. Enquanto trabalhava, o tempo passou e o som de um trovo soou na distncia. 

No deveria est ali. Sabia que no era certo. Mas enquanto percorria as ruas, os passos tinham o aproximado mais e mais ao apartamento de Deborah. Banhado em sombras, 
ergueu os olhos e viu a luz em sua janela. Esperou na noite calorosa, dizendo a si mesmo que, quando a apagasse, partiria. 
Mas ela permaneceu acessa, uma luz fraca, mas constante.
Tentava convencer a si mesmo que s queria v-la, falar com ela. Era verdade que precisava averiguar quanto Deborah sabia, estava a par dos fatos. Mas os fatos no 
revelavam a intuio nem as suspeitas dela. Quanto mais ela se aproximasse das respostas , mais perigo ela correria.
Mais do que desejava am-la, precisava proteg-la. 
Mas no foi isso o que o impulsionou a cruzar a rua e a subir pela escada de incndios. O fez porque no conseguiu se conter. 
Viu-a atravs da janela aberta. Se encontrava sentada em sua escrivaninha, com a luz dirigida sobre os papis que repassava. Um lpis se movia com velocidade em 
sua mo. 
Podia sentir seu odor. Sua fragrncia tentadoramente sexy chegava at ele como um convite. Ou um desafio. 
S podia ver seu perfil, a curva de sua face e mandbula, a forma de sua boca. Levava o curto robe azul frouxo e isso lhe permitia vislumbrar a longa coluna branca 
de seu pescoo
Enquanto a contemplava, ela ergueu uma mo para esfregar-se a nuca. A bata se moveu, subindo por suas coxas, afastando-se um pouco quando cruzou as pernas e voltou 
a concentrar-se no trabalho. 
Deborah leu a mesma frase trs vezes antes de dar conta de que sua concentrao  tinha evaporado. Esfregou os olhos com a inteno de comear de novo. E todo o corpo 
ficou rgido. Sentiu o calor percorrer sua pele. Devagar, girou o corpo e o viu. 
Achava-se no interior do quarto, longe da luz. O corao comeou a bater de forma transloucada... tanto pela comoo como pela expectativa. 
-Um descanso em sua luta contra o crime? -perguntou, com a esperana que o tom agudo da voz ocultasse o tremor-. Segundo as notcias das onze, Esteve bastante ocupado.
-E voc tambm. 
-E ainda estou ocupada afastou  o cabelo e descobriu que sua mo no estava firme-. Como entrou?  fez um gesto de assentimento enquanto olhava para  a janela-. 
Tenho que lembrar de fech-la 
-No teria importncia. No depois de ver voc. 
Ela sentiu todo seu corpo tremer. Levantou, dizendo que isso adicionaria mais autoridade. 
-No vou permitir que isto continue. 
-No pode deter -avanou para ela-. Eu tambm no mirou os olhos nos papis da escrivaninha-. No ouviu meus conselhos. 
-No. Nem penso em ouvir. Esclarecerei todas as mentiras e percorrerei todos os becos sem sada at que encontre a verdade. Depois concluirei meu trabalho -o desafiou 
com um olhar-. Se quer me ajudar, conte-me o que sabe. 
-Sei que a desejo  segurou o cinto do roupo para imobiliz-la Nesse momento Deborah era sua nica necessidade, sua nica busca, seu nico alimento-. Agora. Esta 
noite. 
- Deve ir em embora -no pde fazer nada para impedir o arrepio de seu prprio desejo. A integridade lutou contra a paixo-. Deve ir embora. 
-Sabe quanto a desejo? -perguntou com voz spera colando seu corpo ao dele- No h nenhuma lei que no quebrasse, nenhum valor que no sacrificasse por voc. Compreende 
este tipo de necessidade?
-Sim  pois era assim mesmo que se sentia neste momento-. Sim. Mas  errado. 
-Certo ou errado, ser esta noite -com um movimento da mo, empurrou a luminria para o cho, onde ela se espatifou. Quando o quarto foi  tomado pela escurido a 
pegou no colo.
-No podemos -mas seus dedos se fincaram nos ombros dele, cancelando a negativa. 
-Mas faremos.
Quando Deborah moveu a cabea, a boca de Nmesis se apoderou da sua, febril, poderosa e sedutora. O poder que irradiou dela a deixou aturdida e impotente para resistir 
a necessidade que queimava em seu interior. Suavizou os lbios sem ceder, separou-os sem se entregar. E enquanto se lanava s cegas ao beijo, sua mente ouviu o 
que tinha tentado dizer-lhe seu corao. 
A pressionou contra o colcho enquanto a boca impaciente percorria sua face e as mos  arrancavam a bata que a cobria. Embaixo estava tal como ele tinha sonhado. 
Ardente, suave e nua. Tirou suas luvas para permitir sentir o que havia ansiado.
Como um rio Deborah fluiu sob suas mos. Poderia ter se afogado nela. Ainda que estivesse ardendo por saber o que fazia sua, contentou com desfrutar da textura de 
pele, do sabor, do aroma. Na noite abrasadora, mostrou-se implacvel.
Seguia sendo uma sombra, mas ela o conhecia. E o desejava. Descartada toda racionalidade, agarrou-se a ele e seu lbios o procuraram enquanto rolavam na cama. Desesperada 
por senti-lo contra si, de sentir as batidas selvagens de seu corao, levantou a camisa. Ouviu palavras sussurradas sobre seus lbios, sobre seu pescoo, seus seios, 
enquanto com frenesi o despia. 
Ento ele ficou to vulnervel quanto Deborah. O trovo soou e o relmpago clareou a noite sem lua. Na atmosfera boiava a fragrncia das rosas e da paixo. Ela tremeu, 
com a cabea girando devido aos prazeres que ele a mostrava. 
Tudo foi calor, desejo, glria. Inclusive em seu pranto, colou-se a ele e exigiu mais. Mas antes de que ela pudesse exigir, Nmesis lhe deu, enviando-a outra vez 
s alturas, onde a esperavam deleites escuros e secretos. Gemidos e sussurros. Carcias apaixonadas. Anseios insaciveis
Quando pensou que sem dvida enlouqueceria, penetrou-a. E ento imperou a loucura. Entregou-se com toda sua fora e ansiedade. 
-Te amo -o abraou enquanto pronunciava as palavras. 
Essas palavras o encheram tal como ele a enchia a ela. Comoveram-no enquanto seus corpos se moviam. Enterrou a face no cabelo de Deborah e sentiu as unhas em suas 
costas. Experimentou sua prpria e aterradora libertao, depois a dela ao gritar seu nome.  

Jaziam na escurido. O rugido em sua cabea tinha diminudo gradualmente at que o nico som que ouvisse fosse o do trfico na rua e a respirao profunda de Deborah. 
Seus braos j no o apertavam. Nesse momento estava quieta. 
Devagar, aborrecido por sua prpria debilidade, afastou-se dela. Deborah no se moveu, no falou. Na escurido, aproximou uma mo da sua face e a encontrou mida. 
Odiou essa parte de si mesmo que a tinha provocado dor. 
-A quanto tempo sabe? 
-No sabia at esta noite -antes que ele pudesse voltar a toc-la, girou o corpo e tateou a escurido a procura do robe-. Pensou que eu no ia dar conta que era 
voc quando o beijasse? No percebe que, no importando quanto escuro estivesse e a confuso que provoca em mim, eu ira saber quando acontecesse?
- No, no pensei. 
-No? -acendeu o lmpada da mesinha e o olhou-.  inteligente demais Gage. Inteligente demais para no ter pensado nisso.
Observou-a. Tinha o cabelo revolto e a pele ainda acalorada pelo contato ntimo. Em seus olhos tinha lgrimas. 
-Talvez eu soubesse. Talvez no quisesse que tivesse importncia  aprumou-se no leito e estendeu a mo para ela-. Deborah... 
O esbofeteou duas vezes. 
-Maldito, mentiu para mim. Me fez duvidar de mim mesma, de meus valores. Sabia, tinha que saber, que eu estava me apaixonando por voc -com um riso apagado  deu-lhe 
as costas-. Por vocs dois. 
-Por favor, me escute quando a tocou no ombro ela o afastou com brusquido.
-No aconselho que me tocar neste instante.
- Est bem -fechou a mo-. Apaixonei-me to rapidamente por voc que no pude pensar. A nica coisa que sabia era que precisava de voc e   queria que estivesses 
segura. 
-De modo que vestiu uma mscara e saiu pela noite para me proteger. No vou lhe agradecer por isso. Por nada. 
O tom de voz triste, quase apagado o fez sentir um incio de pnico. 
-Deborah, o que aconteceu aqui esta noite... 
-Sim, o que aconteceu aqui. Para isso eu lhe servi  mostrou  a cama-. Mas no para o resto. No para me dizer a verdade 
-No. No podia, porque sei o que voc pensa sobre aquilo que fao.
- Essa  uma outra histria, no?  secou suas lagrimas. A fria dava  lugar ao infortnio-. Se sabia que precisaria mentir, por que no ficou longe de mim? 
 Tinha mentido para ela e por causa disso a magoado. Nesse momento ele s podia oferecer a verdade  e esperar que isso pudesse ajudar a curar suas feridas.
- Em quatro anos, voc  nica coisa que eu no consegui superar. Em quatro anos, voc foi a nica coisa que precisei mais do que a mim mesmo. No espero que voc 
entenda ou que o aceite, mas sim que acredite em mim. 
-No sei em que acreditar. Gage, desde que te conheo me senti rasgada em duas direes diferentes, acreditando que estava apaixonada por dois homens diferentes. 
Mas era somente voc. No sei o que fazer -suspirou e fechou os olhos-. No sei o que  certo. 
-Te amo, Deborah. No h nada mais correto que isso. Me de oportunidade para demonstrar e tempo para explicar o resto.
-No parece que  eu tenha muita opo. Gage, no posso me impedir... -abriu os olhos e pela primeira vez pareceu perceber as cicatrizes que tinha em peito. A dor 
a atravessou e quase a ps de joelhos.
 -No quero compaixo, Deborah -comentou com o corpo rgido. 
-Cale a boca- aproximou  dele e envolvendo-o com seus braos-. Me abraa -moveu a cabea quando ele o fez com carinho-. No, mais forte. Poderia t-lo perdido h 
anos sem ter desfrutado da oportunidade de estar com voc quando levantou a cabea nos seus olhos novas lgrimas caiam -. No sei que fazer. Mas nesta noite quero 
apenas que esteja aqui. Ficar? 
-O tempo que quiser -lhe deu um beijo nos lbios.














Captulo 8





Deborah sempre despertava alerta para os sons da manh. Mas no foi o rudo do carro  que a fez que abrisse os olhos, e sim o leve o glorioso odor do caf. O relgio 
marcava dez e meia.<<Dez e meia!>> Lutou para sentar-se e descobriu que estava sozinha na cama.
Esfregou os olhos e pensou em Gage. Havia se encarregado do caf da manh novamente? Haveria panquecas? Bolos frescos? Frutas e champanhe? Daria qualquer coisa por 
um taa de caf e um biscoito duro qualquer.
Se levantou e se agachou para pegar a roupo que estava jogado no cho. Sob ele viu um tecido negro. O reconheceu e voltou a se sentar na cama.
Uma mscara. A apertou na mo. No havia sido um sonho. Tudo era real. Ele havia aparecido aquela noite e durante toda a madrugada tinham feito amor. Suas duas fantasias. 
O encantador homens de negcios e o arrogante desconhecido de negro. Eram um homem s. Um amante.
Gemeu e afundou o rosto entre as mos. O que iria fazer? Como, demnios, iria manejar aquela situao? Como mulher e como promotora?
O amava. E ao am-lo traa seus princpios. Se revelasse seu segredo, trairia seu corao. E como poderia am-lo sem compreende-lo?
Mas o fazia, e era impossvel que seu corao fizesse o caminho inverso, agora.
Decidiu que teriam que conversar. Como calma e sensatez. Rezava para que encontrasse foras e palavras adequadas. No bastaria dizer que desaprovava seu comportamento. 
Ele j sabia disso. No bastaria dizer que sentia medo. Isso s o impulsionaria a tranqiliza-la. De algum modo, teria que falar algo para convence-lo de aquele 
caminho que tinha escolhido era  alm de perigoso, errado.
Quando o telefone soou, soltou uma praga. Vestiu o roupo rapidamente e atravessou a cama para responder.
- ...irm de Deborah- a voz de Cntia mostrava diverso e curiosidade- Como est?
- Bem, obrigado- respondeu Gage- Deborah est dormindo. Quer que eu...?
- Estou aqui- suspirou e afastou o cabelo revolto  Oi Cilla.
- Oi.
- Adeus Cilla- Deborah voltou a ouvir a voz de Gage. Reinou um momento de silncio vibrante.
- Hum..suponho que telefonei em um momento ruim.
- No. Estava me levantando. No  um pouco cedo demais em Denver?
- Com trs crianas,  como se fosse meio dia. Bryant, tire esta bola de dentro de casa. Fora! Ningum chegue perto da cozinha! Deb?
- Sim.
- Sinto muito. Boyd fez a pesquisa sobre os nomes e pensei que voc gostaria de ser informado de imediato.
- timo- pegou um lpis.
- Me deixe coloc-lo na linha.- ouve um rudo- No,  deixe-me peg-lo. Deus do cu, Boyd. O que Keenan tem espalhado pela cara?  ouviu algumas risadas, logo o estrondo 
o telefone caindo no cho e o som de ps correndo- Deb?
- Congratulaes Capito Fletcher.
- Obrigado. Imagino que Cilla j lhe contou. Como vai tudo?
Baixou o olhar para a mscara que segurava entre as mos.
- No estou bem segura- sorriu- As coisas parecem bem normais por ai.
- Aqui nunca est nada normal. Ei Allison!, no deixe esse cachorro...- outro estampido e mais latidos- Tarde demais.
- Boyd, agradeo sua rapidez.
- No  nada. Parecia importante.
- E .
- Bom, no consegui muita coisa.. George P. Drummond era um forasteiro com um negcio prprio...
-Era?
-Sim. Morreu h trs anos. Por causas naturais. Tinha oitenta e dois anos e nenhuma relao com a  Solar Corporao.
-E o outro? fechou os olhos.
-Charles R. Meyers. Professor de cincias  e treinador de futebol. Faleceu  h cinco anos. Ambos estavam limpos.
-E Solar Corporao?
-At agora no tenho descoberto muita coisa. O lugar que voc disse a Cilla no existe.
-Eu imaginei. Cada vez que viro um esquina nesse assunto eu topo com um beco sem sada.
- Conheo a sensao. Investigarei mais. Lamento no ter sido de muita ajuda.
- Mas  claro que ajudou.
- Dois sujeitos mortos e uma localizao falsa? No  muita coisa. Deborah, Pode me dizer se esse assunto tem algo haver com seu fantasma mascarado?
- Extra oficialmente, sim-  fechou a mo sobre o tecido negro.
- Imagino que Cilla j lhe disse, mas tenha cuidado, certo?
- Eu terei.
- Ela quer falar com voc de novo- murmrios e risinhos- Algo a respeito do sujeito que atendeu seu telefone- Boyld voltou a rir e Deborah pode ver-los lutando pelo 
telefone.
- S quero saber...- Cilla disse ofegante- Boyld, para com isso. Vai dar comida ao cachorro ou algo assim. S quero saber- repetiu- quem  o proprietrio da voz 
sexy e maravilhosa.
- Um homem.
- Eu imaginei que sim. Esse homem tem nome?
- Sim.
- Bem,quer que eu adivinhe?Phil? Thomas? Maximilian?
- Gage- murmurou rindo.
- O milionrio? Boa escolha.
-Cilla...
- Eu sei, eu sei.  uma mulher adulta e sensata com uma vida prpria. No direi mais nenhuma palavra. Mas, est...?
- Antes que eu diga alguma coisa, quero adverti-la que eu no tomei caf ainda.
- Certo. Pois quero saber e pronto.  Preciso dos detalhes.
- Vou te dar detalhes quando eu os tiver. Entrarei em contato.
- Espero que sim.
Desligou e sentou por um momento. Parecia que voltava a linha de sada. Tinha que raciocinar. Tinha prioridades, e por isso levantou-se e seguiu o aroma do caf.
Gage usava uma cala e estava descalo e com a camisa desabotoada. No o surpreendeu encontr-lo na cozinha e sim o que ele fazia ali.
- Est cozinhando?- perguntou da porta.
- Oi- voltou-se- Sinto pelo telefone, pensei que poderia responder antes que voc acordasse.
- Sem problemas. Estava...acordada - sentido-se incomodada, tirou um copo de do armrio e serviu-se do caf - Era minha irm.
- Sim- apoiou as mos nos ombros dela e as deslizou at as suas costas ao longa da espinha. Quando Deborah ficou rgida, sentiu como se uma navalha o atravessasse.- 
Preferia que eu no estivesse aqui?
- No sei- bebeu um pouco do caf sem se voltar- Suponho que tenhamos que conversar  mas talvez no fosse capaz de faze-lo- O que preparou?
- Torradas francesas. No tinha muito na geladeira, assim eu fui at o supermercado da esquina comprar algumas coisas.
- Voc levantou a quanto tempo?
- H trs horas.
- No dormiu muito- comentou quando ele voltou a mexer na cozinha.
Ele a observou.<< Est se contendo>>, pensou<< Mas a mgoa e a fria ainda esto ali>>
- No preciso de muito sono...agora no- adicionou os ovos ao leite em uma tigela - Passei a maior parte de uma ano dormindo. Depois  de meu regresso, me satisfao 
com quatro horas de sono.
- Imagino que isso seja uma vantagem me relao a seus negcios...ambos.
- Sim- continuou misturando os ingredientes e depois introduziu as torradas na tigela - Podemos dizer que meu metabolismo mudou...entre outras coisas- as torras 
encharcadas crepitaram ao serem mergulhadas no leo quente- Quer que eu me desculpe por ontem a noite?
- Vou pegar alguns pratos- comentou ela depois de algum momento.
- Perfeito- sussurrou uma maldio- Estar pronto em um minuto.
Esperou at que se sentassem juntos de frente a uma janela. Ela no disse nada enquanto brincava com o caf da manh. Seu silncio e sua expresso abatida o perturbavam 
mas que cem acusaes
-  sua vez- murmurou.
- Eu sei- murmurou.
- No vou me desculpar por ter me apaixonado por voc ou por haver feito amor com voc a noite passada. Estar com voc ontem foi a coisa mais  importante que aconteceu 
em minha vida- esperou observando-a- No acredita em mim, no ?
- No sei bem em que acreditar, nem se posso acreditar- fechou as mos em torno do copo- Voc mentiu para mim, Gage, desde do incio.
- Sim- conteu a necessidade de toc-la- As desculpas na realidade no so importantes. Menti deliberadamente e, se fosse possvel, teria continuado a mentir.
- Sabe como sinto ao saber disso?- levantou-se da cadeira e cruzou os braos.
- Imagino que sim.
- No pode- magoada moveu a cabea de um lado para o outro- Me fez duvidar de mim mesma em nveis muito bsicos. Eu estava me apaixonando por voc...vocs dois...e 
me sentia envergonhada. Sim, agora posso ver como sou uma tonta de no ter percebido antes. Meus sentimentos eram exatamente os mesmos em considerao a dois homens. 
Olhava para voc e pensava nele. Olhava para ele e pensava em voc - levou os dedos at os lbios. As palavras saiam com muita rapidez - Aquela noite no quarto de 
Santiago, ao recuperar a conscincia e me encontrar abraada com voc, olhei em seus olhos e recordei a primeira vez que o vi no salo de Baile do Palcio Stuart. 
Pensei que estava ficando louca.
- No fiz isso para mago-la, e sim para proteger voc.
- De que?- exigiu-  De mim? De voc? Cada vez que me tocava, eu...- lutou para acalmar-se. Depois de tudo, esse era o problema. Suas emoes - No sei se posso perdoa-lo, 
Gage, ou voltar a confiar em voc. Inclusive amando voc, no sei.
Ele permaneceu onde estava, sabendo que , se tentasse se aproximar ela resistiria.
- No posso desfazer o que est feito. No queria voc em minha vida, Deborah. No queria ningum que pudesse me deixar vulnervel a cometer  um erro- pensou em 
seu dom, em sua maldio- Nem sequer tenho direito de pedir que me aceite como sou.
-Com isto? -sacou a mscara do bolso Do roupo-. No, no tem direito de me pedir que aceite isto. Mas  exatamente o que faz. Voc me pede que eu lhe ame. Que eu 
fecha os olhos para aquilo que voc faz. Entreguei minha vida  lei. E voc supe que eu no deva dizer nada enquanto voc a subestima?
-Estive a ponto de perder minha vida pela lei seus olhos  escureceram-. Meu colega morreu por ela. Jamais a subestimei.
-Gage, isso no pode uma questo pessoal.
- Besteira que no pode. Tudo  pessoal.  No importa que leis o seus livros de direito tem escrito. Sem importar que precedentes ou descoberta faa. No fim, tudo 
se reduz a pessoas. Sabe disso. Sente isso. Eu a vi trabalhar.
-Dentro da lei -insistiu-. Tem que saber que, o que voc faz no  certo, sem mencionar que  perigoso. Deve parar. 
-Nem sequer por voc  ele replicou rpido.
-E se for at a Mitchell, ao comissrio de polcia, ou a Fields? 
-Ento farei o que for necessrio. Mas no vou parar.
-Por que? -se aproximou dele com sua mscara apertada entre as mos -. Maldio, por que? 
-Porque no tenho escolha -se se levantou a segurou seus ombros com fora antes de solt-la e lhe das as costas- No h nada que possa fazer para mudar o  que sou. 
Nada.
-Sei o que aconteceu entre voc e Montega -quando ele virou para olh-la, viu a dor em sua face-. Sinto muito Gage, sinto muito o que aconteceu. Sinto por voc e 
sinto por seu parceiro. Prenderemos Montega, juro. Mas vingana no  a resposta que voc procura. No pode ser.
-O que me aconteceu h quatro anos, mudou a minha  vida. No  um fantasia.  uma realidade -apoiou a mo na parede e a observou, depois voltou a coloc-la no bolso-. 
Leu os relatrios sobre o que aconteceu na noite que assassinaram  Jack? 
-Sim, os li. 
-Todos os fatos -murmurou-. Mas no toda  verdade. Figurava no relatrio que eu admirava? Que tinha uma linda esposa e um filho que gostava de montar em um triciclo 
vermelho?
-Oh, Gage -no pde evitar que seus olhos se enchessem de lgrimas nem de estender os braos, mas ele os apartou. 
-Figurava no relatrio que tnhamos entregado quase dois anos de nossas vida para fechar esse caso? Dois anos trabalhando com a classe de lixo que tem grandes iates 
e manses comprados com o dinheiro que ganham vendendo drogas aos traficantes pequenos, que pagam seus alugueis vendendo-as nas ruas? Dois anos para infiltrar em 
sua rede. Porque ramos polcias e acreditvamos que poderamos fazer uma diferena -apoiou as mos tensas no respaldo da cadeira. Deborah s conseguia olh-lo-. 
Quando terminasse o caso, Jack ia tirar umas frias. No para ir a algum lugar extico, e sim para ficar na sua casa, cortar a grama, arrumar uma piscina, passar 
um tempo com Jenny e seu filho. Isso  o que ele me dizia. Eu pensava em ir para Aruba  e ficar l umas duas de semanas, mas Jack no tinha sonhos grandes. S normais.
Levantou o olhar e observou pela janela, mas no viu a luz do sol nem o trfico que congestionava as ruas. Sem esforo, remontou ao passado. 
-Deixamos o carro. Tnhamos uma valise cheia de notas marcadas, respaldo policial e uma fachada slida. O que poderia sair de errado? Estvamos preparados. Ns amos 
nos reunir com o chefe. Podamos sentir o cheiro da maresia, ouvir como rompia contra os ancoradouros. Eu suava, mas no pelo calor, mas sim porque sentia que alguma 
coisa no estava certa.Mas no dei ateno aos meus instintos. Ento Montega... 



Gage pde v-lo, de p me meio as sombras do cais, o ouro cintilando em seu sorriso 
 Adeus policiais. 
-Matou a Jack antes que eu pudesse sacar minha arma. Eu fiquei paralisado. S um instante.  O tempo entre uma batida e outro do corao. Apenas um pequeno instante, 
mas foi o suficiente. Ele me alvejou.

Deborah lembrou da cicatriz em seu peito e mal pode respirar. Tinha visto seu parceiro ser assassinado. Tinha sofrido naquele momento, aquele instante de tempo em 
que tambm pode ver sua morte iminente. A dor aguda que a percorreu foi por Gage. 
-No. Quem bem faz a voc recordar tudo isso? No poderia ter salvado Jack. No importa o quanto rpido voc tivesse sido naquele momento, no poderia ter salvo 
a vida de Jack. 
-No naquele momento- ele disse devagar- Naquele momento, naquele noite...eu morri. 
-Est vivo -afirmou com um arrepio. 
-A morte hoje em dia  praticamente um termo tcnico. Tecnicamente, morri. E parte de mim saiu de meu corpo -tinha que contar a ela-. Observei os mdicos trabalhar 
sobre mim, ali no cho do cais. E de novo na sala de operaes. Quase... quase flutuei livre. E ento... fiquei atado.
-No entendo. 
-Eu voltei para meu corpo, mas no completamente levantou  as mos e as estendeu. No sabia se seria capaz de explicar o que tinha acontecido-. As vezes podia ouvir... 
vozes, a msica clssica que a enfermeira colocava perto de meu leito, o choro. Ou percebia o cheiro das flores. No podia falar nem ver. Mas, o mais importante, 
no podia sentir nada deixou as mos carem ao lado do corpo-. No queria. Mas ento eu voltei.... e novamente eu estava sentindo. Sentido demais. 
Era impossvel de imaginar, mas ela experimentou a dor e a angstia em seu corao 
-No vou dizer que compreendo o que voc passou. Ningum poderia. Mas di em mim pensar no que voc passou e no que ainda passa. 
-Quando  vi voc aquela noite no beco, minha vida mudou outra vez. E foi igualmente impossvel eu lutar contra isso. Deter. -baixou o olhar at a mscara que ela 
carregava-. Agora minha vida est em tuas mos.
- Queria saber o que  certo. 
-De-me um pouco de tempo -se aproximou dela e levantou as mos at tocar seu rosto- Alguns dias... 
-No sabe o que me ests pedindo. 
-Eu sei -no permitiu que se afastasse-. Mas no tenho escolha. Deborah, se eu no terminar o que comecei, preferia ter morrido a quatro anos.
Ela abriu a boca para protestar, mas nos olhos dele viu a verdade de suas palavras. 
-No h outra maneira? 
-Para mim, no. Alguns dias mais -repetiu-. Depois, se considerar que deve contar o que voc sabe aos seus superiores eu aceitarei. E irei assumir as conseqncias. 
Ela fechou os olhos. Ele no podia saber, mas ela sabia. Sabia que faria qualquer coisa que ele pedisse para ela.
-Mitchell me deu duas semanas -murmurou-. No posso prometer mais.

-Amo voc -sabia o quanto custava isso para Deborah, e s podia rezar para dispor de tempo e espao para equilibrar aquela balana.
-Eu sei -abriu os olhos e o fitou, depois apoiou a cabea em seu peito. A mscara ficou pendurada em seus dedos-. Sei que me ama -Sentiu que os braos a rodeava, 
e a slida realidade que eles transmitiam. Voltou a erguer a cabea para ir ao encontro de seus lbios e deixar que o beijo se prolongasse, clido e promissor, inclusive 
enquanto sua conscincia travava uma batalha silenciosa. Perguntou-se que ia ser deles. Temerosa, abraou-o com fora-. Por que no pode ser simples? -sussurrou-. 
Por que no pode ser normal? 
Ele j tinha feito esta pergunta a si mesmo diversas vezes. 
-Sinto muito.
-No -moveu a cabea e a jogou para atrs-. Eu que sinto. Ficar me queixando no vai ajudar em nada- secou as lgrimas-. Pode ser que eu no saiba o que vai acontecer, 
mas sei o que tenho que fazer. Tenho de voltar ao trabalho. Talvez consiga encontrar uma sada -arqueou uma sobrancelha-. Por que est sorrindo. 
-Porque voc  perfeita. Absolutamente perfeita -igual ao que ocorrera na noite anterior, enganchou o cinto do roupo com os dedos-. Venha at a cama comigo e eu 
lhe mostrarei o que quero dizer.
-J  quase meio dia -comentou enquanto ele lhe mordiscava o lbulo da orelha-. Tenho trabalho. 
-Ests certa disso? 
Deborah fechou os olhos e inclinou o corpo para Gage. 
-Ah... sim -se afastou com as duas mos estendidas-. Sim, com certeza. No disponho de muito tempo. Nenhum dos dois.
-Est certo -sorriu quando ele fez um muxoxo de aceitao. Talvez com um pouco de sorte pudesse dar-lhe algo normal para ela-. Com uma condio. 
-Qual? 
-Esta noite tenho que assistir a uma festa beneficncia. Um jantar, um par de atuaes, baile. No Parkside. 
- Est falando do baile de vero? -pensou no hotel antigo, exclusivo e elegante que  se situava em frente do Parque da Cidade. 
-Sim, o mesmo. Tinha pensado em no ir, mas mudei de idia. Me acompanharia?
- Est perguntando para mim ao meio dia se quero ir ao acontecimento mais importante da cidade, que comea dentro de oito horas? -arqueou uma sobrancelha-. E me 
pede isso sabendo que tenho que trabalhar o dia inteiro e no terei tempo de ir ao cabeleireiro e nem de comprar um vestido adequado? 
- Resumiu bem- comentou ele .
-Que horas vem me buscar?


s sete horas, Deborah se meteu sob o chuveiro quente. No acreditava que pudesse acabar com todas as suas dores e naquele dia j tinha tomado sua cota de aspirinas. 
Seis horas diante de um computador, com o fone do telefone no ouvido, tinham sido retribudos com mnimos resultados. 
Cada nome que tinha pesquisado tinha pertencido a alguma pessoa que estava morta h muito tempo. Cada direo que pegava era um beco sem sada e cada corporao 
pesquisada s a tinha conduzido a um labirinto de empresas fantasmas. 
O vnculo comum, como o tinha chamado Gage, parecia ser a frustrao. 
Mais do que nunca precisava descobrir a verdade. J no se tratava unicamente de uma questo de justia. Era algo pessoal. Ainda que soubesse que aquilo distorcia 
sua objetividade, no podia evitar. At que o resolvesse, no podia saber onde estava seu futuro, e o de Gage.


Talvez em nenhuma parte, pensou enquanto se envolvia com uma toalha. Tinham-se unido como o trovo e o relmpago. Mas as tormentas passavam. Sabia que uma relao 
duradoura precisava de algo mais que a paixo. Seus pais tinham tido paixo... e nada de entendimento. Inclusive faltara para eles algo mais que amor. Seus pais 
tinham se amado, mas no tinham sido felizes. 
Confiana. Sem confiana, o amor e a paixo se desvaneciam. Queria confiar nele. E acreditar. Mas ele no confiava nela. Havia coisas que Gage sabia, e  que podiam 
aproxim-la da verdade sobre aquele caso. Mas ele as guardava para si, convicto que s havia um jeito de agir.
Suspirou e comeou a secar-se o cabelo. Talvez ela estivesse agindo do mesmo jeito. 
Se estavam to ligados, cada um, em uma crena pessoal. Como poderia o amor ser suficiente?

Mas tinha querido v-lo aquela noite. No porque quisesse ir a um baile elegante, j que, sele ele a convidasse para comer cachorro quente e jogar pipocas aos pombos 
teria ido. Porque se quisesse ser sincera, tinha que reconhecer que no queria estar longe dele. 
Iria se entregar a aquela noite, mas como Cinderela, quando soasse as doze badaladas , teria que enfrentar a realidade. 
Foi ao dormitrio. Sobre a cama se achava o vestido que tinha comprado h  menos de uma hora. Gage havia dito a ela que gostava quando ela estava vestida de azul. 
Segundo  quis o destino, ao entrar na boutique, ali estava ele , esperando-a. Uma coluna lquida de um intenso azul eltrico, enfeitado com lantejoulas prateadas. 
E lhe caia como uma luva desde o pescoo at os tornozelos.
Tinha feito uma careta ao ver o preo, mas tinha apertado os dentes. A cautela e o salrio de um ms tinham voado com o vento. 
Ao olhar-se no espelho, no  lamentou. Os brincos de diamantes falsos eram o enfeite ideal. Com o cabelo recolhido e os ombros nus. De uma volta em terno de si. 
Suas costas ficavam quase completamente a mostra. 
Estava calando os sapatos quando Gage a chamou. 

O sorriso se apagou dos lbios de Gage quando a olhou. Deborah curvou os lbios ao perceber o desejo sbito e intenso em seus olhos. Muito devagar, deu uma volta 
completa em torno de si. 
- O que acha? 

-Estou feliz por no ter lhe dado mais tempo para se preparar descobriu que, se o fizesse devagar, conseguiria respirar.
-Por que? 
-No poderia ter resistido se estivesse mais linda. 
-Quero uma demonstrao- ergueu uma sobrancelha. 
Ele quase tinha medo de toc-la. Com muita delicadeza apoiou as mos em seus ombros e baixou os lbios para beij-la. Mas o sabor de Deborah se introduziu em seu 
corpo e a boca se  tornou cobiosa. Com um murmrio ele se moveu para dentro do apartamento e fechou a porta com o p.
-Oh, no! -ofegou ela, tendo que se apoiar contra a porta. Mas estava decidida-. Esse vestido me custou muito caro, quero demonstr-lo em pblico. 
-Sempre prtica -lhe deu um ltimo beijo-. Poderamos chegar tarde. 
-Ns voltaremos cedo - sorriu. 



Quando chegaram, o salo estava lotado  com gente encantadora, influente e rica. Com uma taa de champanhe e alguns canaps, Deborah estudou as mesas.
Viu o governador com uma atriz muito conhecida, e um magnata editorial com uma estrela de pera, e prefeito trocando sorrisos com uma escritora famosa. 
-Conhecidos habituais seus? -murmurou Deborah, sorrindo-lhe. 
-S alguns -com delicadeza sua taa na dela fazendo um brinde. 
-Mmm. Esse  Tarrington, verdade? -com a cabea indicou a um homem jovem de aspecto interessante. Quais so sua possibilidades no debate?
-Tem muito o que dizer -comentou Gage-. As vezes com pouco tato, mas no lhe falta razo. No obstante, vai ser difcil conquistar os eleitores de mais de quarenta 
anos. 
-Gage -Arlo Stuart deteve-se na mesa deles e deu algumas palmadas em seu ombro- Fico contente em ver voc. 
-Fico  feliz por ter vindo.
-No perderia isso por nada nesse mundo -Arlo, um homem alto e bronzeado com uma rala mata de cabelo brancos e olhos verdes, moveu a taa de usque-. Fez coisas 
esplndidas aqui, no tinha voltado depois da restaurao. 
- Gostamos de saber. 

Deborah demorou um minuto para dar-se conta que falavam do hotel e de que este pertencia a Gage. Contemplou os opulentos candelabros de cristal. Deveria ter imaginado. 
-Gosto de saber que a concorrncia tem classe -olhou para Deborah-. Falando de classe, seu rosto me  familiar. E sou muito velho para que considere isso uma insinuao. 
-Arlo Stuart, Deborah O'Roarke. 
-O'Roarke... O'Roarke -lhe estreitou a mo com entusiasmo; seus olhos refletiam calidez e astcia-.  a promotora que todo mundo fala? Os jornais no lhe fazem justia. 
-Senhor Stuart. 
-O prefeito s fala coisas boas de voc. Muito boas. Mais tarde voc tem que me conceder a honra de uma dana para que possa me contar tudo sobre seu amigo Nmesis.
-Seria uma conversa breve. 
-No segundo nosso jornalista favorito. Alm disso, Wisner  um imbecil -adicionou sem soltar-lhe a mo - Onde conheceu a nossa grande promotora, Gage? Sem dvida 
freqento os lugares errados. 
-Em seu hotel -respondeu com um sorriso-. No evento para arrecadar fundos a favor do prefeito.
-Isso me ensinar a no fazer campanha para Fields -emitiu um riso contagioso-. No se esquea da dana. 
-No o farei -indicou, agradecida de ter outra vez a mo no colo. Quando o outro se afastou, moveu os dedos-. Ele sempre  to... exuberante? 
-Sim - Gage lhe tomou a mo e se a beijou-. Algo danificado? 
- Acho que no - comprazida de ter seu contato, olhou em torno da sala. Palmeiras frondosas, uma fonte musical, tetos com espelhos-. Este hotel  seu? 
-Sim, gosta? 
-Est bom - encolheu de ombros quando ele sorriu-. No tinha que se mover entre os convidados? 
- Tinha -roou os lbios em sua mo.
-Se no parar de me olhar desse jeito.
-Continue, por favor.
-Acho que vou ao banheiro -comentou com voz tremula. 
Quando estava na metade do caminho o prefeito interrompeu seu caminho.
-Gostaria de falar um momento com voc, Deborah. 
-Sim claro. 
Com um brao ao redor de sua cintura e com um amplo sorriso poltico, conduziu-a com destreza entre as pessoas em direo das latas portas do salo. 
-Pensei que no seria ruim um pouco de privacidade. 
Ao olhar para atrs, ela notou que Jerry avanava em sua direo. Ao receber um sinal do prefeito, deteve-se, olhou a Deborah com expresso de desculpa e voltou 
a misturar-se com os convidados. 

- uma festa deslumbrante -comeou ela, com o suficiente conhecimento para saber que o prefeito gostava de  iniciar a conversa.
-Fiquei surpreso v-la aqui -a conduziu para uma extremidade com plantas e telefones pblicos - Ainda que, talvez, no seria de estranhar, j que ultimamente o nome 
de Guthrie se relacionou muito com o seu.
- Estou com Gage -manifestou com frialdade-. Se  isso que quer dizer. Num plano pessoal -j comeava a se cansar da poltica-. Era disso que queria falar comigo, 
prefeito?  Sa minha pessoal?
-Somente se essa afeta seu profissionalismo. Fiquei inquieto e decepcionado por ter ido de encontro aos meus desejos.
-Seus desejos? -replicou-. Ou os do senhor Guthrie? 
-Respeitei seu ponto de vista e concordei com ele -seus olhos refletiram um reflexo de fria que raras vezes mostrava fora da intimidade de seu gabinete-. Para falar 
com franqueza, estou decepcionado com  sua atuao neste sentido. Seu excelente histrico nos tribunais no anula seu erros de estratgias.
-Estratgias? Acredite, prefeito Fields, ainda nem comecei a batalha. Sigo a ordens de meu superior na continuao da investigao. Eu a iniciei e pretendo termin-la. 
Como se supe que estamos do mesmo lado, teria imaginado que se sentiria satisfeito com a dedicao que mostra o escritrio da promotoria neste caso, no s com 
a nossa persistncia em capturar e julgar os traficantes, mas tambm com nossa tentativa de localizar a Montega, um conhecido assassino de policiais, e lev-lo ante 
a justia. 

-No me diga de que lado eu estou -a ponto de perder o controle, agitou um dedo ante sua cara-. J trabalhava nesta cidade enquanto voc aprendia a amarrar os cadaros 
de seu tnis.  Jovem, no iria gostar de me ter como inimigo. Eu dirijo Urbana, e pretendo que continue assim. Promotores jovens e ansiosos no esto em falta.
-Esta me ameaando de demisso? 
-Eu a estou advertindo -com um evidente esforo de vontade, recuperou o controle-. Ou trabalha com o sistema ou trabalha contra. 
-Isso j o sei -fechou os dedos com fora sobre a bolsa de noite. 
-A admiro, Deborah -disse mais com tom mais sereno-.Mas seu entusiasmo, carece de experincia, e um caso como este requer mos e mentes mais experientes. 
-Mitchell me deu duas semanas. 
-Estou a par disso. Certifiquesse de jogar de acordo com as regras o tempo que lhe sobra - seus olhos irradiavam paixo, apoiou uma das mo em seu brao-. Desfrute 
da festa. O menu  excelente. 
Quando a deixou, ela permaneceu ali por um momento, dominada pela ira. Lutando para recuperar o domnio de si mesma, dirigiu-se ao toucador. Uma vez l dentro, soltou 
a bolsa sobre o balco e deixou o corpo cair sobre uma cadeira na frente de uma dos espelhos ovalados.
Pelo jeito o prefeito no tinha ficado muito contente, pensou. Tirou um lpis de lbios da bolsa e se concentrou em aplic-lo. Ou na verdade ele estava mais furioso 
por que ela tinha passado por cima de sua autoridade.
Ser que acreditava que existia apenas um jeito de fazer as coisas? O que tinha de mal em pegar alguns atalhos se o objetivo era o mesmo? 
Guardou o lpis de lbios na bolsa e sacou a escova. Diante do espelho, observou seus prprios olhos. 
No que pensava? H vinte e quatro horas atrs estivera convencida que s existia um caminho. E ainda que no tivesse de acordo com as tticas do prefeito, teria 
aplaudido seus sentimentos.
Apoiou o queixo na mo. No entanto, nesse momento j no estava segura. Ser que estava comeando a se desviar do sistema que sempre acreditara? No estaria permitindo 
que seus sentimentos pessoais por Gage interferissem com sua tica profissional? 
Ou tudo se reduzia a uma questo do que era certo e errado, sem saber qual era qual? Como podia continuar, como podia funcionar como promotora, se no era capaz 
de perceber com clareza o que era o certo? 
Talvez fosse hora de examinar os fatos, junto com sua prpria conscincia, e perguntar a si mesma se no seria melhor para todos que ela se afastasse do caso.
Enquanto estudava sua face e seus valores, as luzes se apagaram.




Captulo  9



Deborah agarrou a bolsa e apoiou uma mo no balco para orientar-se. Pensou que o luxo e a elegncia no evitavam que falhasse um fusvel. Ainda que tentasse ver 
o lado engraado ao levantar-se, o corao  batia com fora. Ainda sabendo que era uma tolice, sentia medo, sentia-se agarrada e dominada pela escurido. 
A porta rangeu ao abrir-se. Um facho de luz e depois outra vez a escurido. 
-Oi, preciosa. 
Ela se paralisou e conteve o gemido. 
-Tenho uma mensagem para voc -era uma voz aguda e risonha-. No se preocupe. No vou machuc-la. Montega quer voc para ele, e ficaria .furioso se eu me divertisse 
com  voc primeiro.
Com a pele gelada, Deborah se recordou que o outro tambm no podia v-la. Isso nivelava a situao.
- Quem  voc? 
-Eu?-uma risada baixa-. Est me procurando, ainda que seja um pouco trabalhoso me encontrar. Por isso me chamam de Rato. Posso entrar e sair de qualquer lugar. 
Pela direo de sua voz, Deborah  imaginou que avanava em sua direo. 
-Deve de ser muito inteligente -depois de falar, tambm ela se moveu silenciosamente para a esquerda. 
-Sou bom. O melhor. No h ningum melhor do que o Rato. Montega queria que dissesse a voc que lamenta muito que no pudessem ter conversado mais quando esteve 
com voc. Mas quer que saiba que te vigia. A todo momento. E a tua famlia tambm. 
Durante um instante, seu sangue gelou. A idia de se esgueirar at a porta desapareceu. 
-Minha famlia? 
-Ele tambm conhece pessoas em Denver. Pessoas especiais -estava mais perto, tanto que ela podia sentir  seu cheiro. Mas ela no se afastou-. Se voc cooperar vai 
permitir que eles fiquem a salvo em casa esta noite. Entendeu?
Meteu a mo na bolsa e sentiu o metal frio em contato com a mo. 
-Sim, entendi  tirou-o de l e apontou em direo a voz apertando-o. 
Com um grito, ele caiu sobre as cadeiras. Deborah correu desviando-se e chocou seu ombro contra a parede e depois de novo at alcanar a porta. Rato chorava e amaldioava 
enquanto ela atirava. Descobriu que a porta estava trancada.
-Oh, Deus. Oh, Deus -dominada pelo pnico, seguiu atirando. 
- Deborah, afaste-se da porta. Afaste-se. 
Deu um passo cambaleante para trs e ouviu o impacto surdo. Outro e a porta se abriu. Correu para a luz e para os braos de Gage. 
- Voc est bem? -a percorreu com as mos em procura de alguma ferida. 
-Sim, estou -afundou o rosto em seu ombro e no prestou ateno nos curiosos que se juntavam em torno deles-. Ele est dentro -quando ele quis separar dela o reteve 
com fora-. No, por favor.
- Sente-se aqui- Gage fez um sinal de assentimento para dois guardas de segurana.
-no, estou bem.  ainda que respirasse de forma entrecortada. Afastou-se para observar seu rosto e viu seu olhar mortal. Afirmou com mais fora- Estou bem, de verdade. 
Ele no me machucou. 
- Acha que por isso no vou querer matar-lo?- murmurou olhando o rosto plido.
Com um guarda de cada lado, o Rato saiu cobrindo o rosto com as mos e chorando. Deborah notou que ele usava um uniforme de garom. Alarmada com a expresso mo olhar 
de Gage ela recuperou a sanidade.
- Ele est pior do que eu. Usei isto- mostrou a boba de gs lacrimogneo- Levo comigo desde daquela noite no beco.
Gage no sabia se ria ou chorava. Decidiu abra-la e lhe deu um beijo. 
-Parece que no posso perder voc de vista. 
-Deborah -Jerry se abriu passo entre os curiosos-. Ests bem?
-Agora sim. E a polcia? 
-Eu mesmo a chamei -olhou a Gage-. Deveria tir-la daqui. 
-Estou bem -insistiu ela, contente de que o vestido ocultasse o tremor de seus joelhos-. Terei que me apresentar na delegacia para declarao. Mas primeiro tenho 
de dar um telefonema 
-Eu chamarei quem quiser -Jerry  apertou sua mo. 
-Obrigada, mas este telefonema tenho que fazer eu -atrs dele, viu o prefeito-. Poderia me fazer o favor de tentar distrai Field durante alguns momentos?
-Pode apostar- olhou para Gage- Cuide dela. 
-  o que estou tentando pegou-a pelo brao e a afastou da multido. Atravessaram o vestbulo em direo aos elevadores. 
-Aonde vamos? 
-Mantenho um escritrio no hotel, pode fazer a ligao de l -dentro do elevador, a puxou para os braos e a envolveu-. O que aconteceu?
-Bem, nem cheguei a passar um pouco de p -respirou fundo sobre seu pescoo-. Primeiro, Fields se pe no meu caminho para me ensinar a fazer meu trabalho. Ele no 
gosta do jeito que estou levando as coisas -quando as portas do elevador se abriram, soltou-a para que pudessem sair para o corredor-. Quando nos separamos eu estava 
furiosa. Me sentei no toucador para retocar minha maquiagem e relaxar um pouco, mal comecei  a faze-lo... A propsito,  muito elegante. 
-Alegro-me que goste -a olhou enquanto introduzia uma chave na porta. 
-Gostei muito -entrou na sala de uma sute e atravessou o tapete claro e felpudo-. At que a luz se apagou Comeava a me recuperar  quando a porta  abriu e ele entrou. 
O escorregadio Rato -disse ao sentir que o estmago voltava a contrair-se-. Trazia-me uma mensagem de Montega. 
-Sente-se - s a meno desse nome o punha tenso-. Trarei um conhaque para voc. 
-Onde est o telefone? 
-Ao seu lado. Pode chamar.
Gage lutava contra seus prprios demnios ao se aproximar do bar e abrir uma garrafa enchendo dois copos. Deborah tinha estado sozinha, e sem importar os recursos 
que tivesse, tinha estado vulnervel. Quando ouviu os gritos... Os dedos se lhe puseram brancos. Se tivesse sido Montega e no seu homens de recados, ela poderia 
estar morta. E ele teria chegado tarde demais. 


Nada do que tinha acontecido antes ou pudesse acontecer-lhe no futuro seria mais devastador para ele do que a perder . 
Nesse momento, ela estava sentada muito reta, com o rosto terrivelmente plido, os olhos demasiado escuros. Numa mo sustentava o telefone enquanto com a outra retorcia 
o cordo. Falava a toda velocidade. Momentos depois Gage compreendeu que falava com seu cunhado. 
Tinham ameaado sua famlia.  Percebeu que para ela, a ameaa a sua famlia era algo muito mais aterrorizante do que a ameaa a sua prpria vida.

- Preciso que ligue para mim todos os dias -insistiu-. Se certifique  que Cilla tenha proteo na emissora. Os meninos...  ocultou o rosto co as mos -. Deus, Boyd... 
-escutou um momento, assentindo e tratando de sorrir-. Sim, eu sei, eu sei. No promoveram voc capito por nada . Estarei bem. Sim, e terei cuidado. Amo vocs. 
A todos -calou um momento e respirou fundo-. Sim, eu sei. Adeus. 
Deixou o telefone no gancho lentamente. Sem nada dizer, Gage ps o copo em suas mos. Ela contemplou o liquido acastanhado e bebeu um bom gole. Tremeu e voltou a 
beber. 
-Obrigada. 
-Seu cunhado  um bom policial. No vai deixar que acontea nada a eles.
-H alguns anos ele salvou a vida de Cilla. Foi quando se apaixonaram -de repente levantou os olhos com a expresso eloqente-. Odeio isso, Gage. Eles so minha 
famlia, a nica famlia que tenho. A idia de que algo que fiz, que estou fazendo, possa... -calou, recusando pensar no impensvel-. . Quando perdi os meus pais, 
jamais pensei do que algo pudesse chegar a ser to ruim. Mas isto... -voltou a fincar a vista no conhaque-. Minha me era policial. 
Ele sabia. Sabia de tudo. Mas segurou sua mo e deixou que ela lhe falasse. 
-Era boa, ou isso me disseram. Eu s tinha doze anos quando aconteceu. Na realidade, no cheguei a conhec-la muito bem. No tinha jeito para me - encolheu os ombros, 
mas o gesto revelou a Gage as cicatrizes-. E meu pai...- continuou-. Era advogado. Um defensor pblico. Esforou-se para manter todos unidos, a famlia...a iluso 
de famlia. Mas minha me e ele no o conseguiram -bebeu um gole de conhaque e agradeceu que j estivesse mais leve-. Aquele dia apareceram dois agentes uniformizados 
na escola para me levar para casa. Imagino que j sabia que minha me estava morta. Com o mxima de gentileza, contaram-me que tinham morrido os dois; Os dois. Um 
delinqente que meu pai defendia, conseguiu entrar com uma arma e quando estavam na sala de interrogatrio ele disparou contra eles.
-Sinto muito, Deborah. Sei como  duro perder a algum da famlia. 
Ela assentiu e deixou o copo de lado. 
-Suponho que isso me impulsionou a ser advogada, promotora. Meus pais dedicaram sua vida a defender a lei e a perderam. No queria que tivesse sido em vo. Voc 
entende? 
-Sim - levou suas mos aos lbios-. Fosse qual fosse a razo que te impulsionou a ser advogada, foi a adequada.  uma boa advogada. 
-Obrigada. 
-Deborah -titubeou, querendo expor seu pensamento com cuidado-. Respeito tua integridade e tua capacidade. 
-Sinto que vem um mas. 
-Quero pedir outra vez que abandone o caso. Deixa ele comigo. Ter oportunidade de fazer o que faz melhor, levar Montega  e os demais diante do tribunal.
Ela ficou um momento em silncio clareando suas idias.
- Gage, esta noite, depois que o prefeito me parou, me sentei no toucador e, ao me acalmar, comecei a pensar, a examinar meus motivos. Comecei a refletir que o prefeito 
talvez tivesse razo, que talvez fosse melhor que eu entregasse o caso a algum com mais experincia e menos envolvimento pessoal - moveu a cabea - Mas no posso, 
e menos agora. Ameaaram minha famlia. Se eu me afastar, jamais poderia voltar a confiar em mim mesma, a acreditar em mim. Tenho de acabar com isto - antes de que 
ele pudesse falar, apoiou as mos em seus ombros-. No estou de acordo contigo, no sei se alguma vez poderei est, mas em meu corao entendo o que faz e por que 
o faz. E s peo que faa o mesmo por mim.
Como podia negar? 
- Imagino que agora estamos empatados. 
-Tenho de fazer a declarao - levantou estendendo  uma mo-. Vem comigo?

No lhe permitiram falar com o Rato. Pelo menos, na segunda-feira disporia dos relatrios policiais. 
Com o Rato sob uma frrea vigilncia, seria improvvel que ocorresse um acidente similar ao de Parino. 
Faria um trato com ele em troca das respostas que precisava, igual fizera com Parino.
Declarou e, cansada, esperou at que o digitassem para que o assinasse. Era noite de sbado e delegacia estava lotada. Prostitutas e vadios, traficantes e ladres, 
advogados e defensores pblicos. Era na realidade, um aspecto do sistema que ela representava e no qual acreditava. Mas quando foi embora , se sentia aliviada. 
-Foi uma noite longa -murmurou.
- E voc a tem encarado muito bem- acariciou-a de leve no rosto- Voc deve estar esgotada.
-Na verdade estou faminta- sorriu- Nem chegamos a jantar. 
-Vou convid-la para um hambrguer 
Rindo, o envolveu com os braos. Pensou que talvez algumas coisas, algumas coisas muito valiosas, podiam ser simples. 
-Meu heri. 
Ele a beijou na lateral pescoo.
- Convidarei voc para um dzia de hambrgueres -murmurou-. Depois, pelo amor de Deus, Deborah, venha para casa comigo. 
-Sim -lhe ofereceu os lbios-. Irei.

Ele sabia como preparar o palco. Quando entrou com ele no dormitrio, a janela era atravessada pelos raios da lua e a luz das velas amortecia as sombras. O aroma 
a rosas adoava a atmosfera. Ao romance contribua o som de violinos que saiam das caixas. 
No sabia como o tinha conseguido com um s telefonema desde a ruidosa cafeteira na qual tinham jantado. Tambm no lhe importava. Bastava para ela saber que tinha 
pensado nisso.
- lindo - deu conta de que estava nervosa, algo ridculo depois da paixo da noite anterior-. Pensou em tudo. 
-Apenas em voc - roou seus ombros com os lbios e encheu uma taa de champanhe-.Imaginei voc aqui mais de cem vezes. Mil vezes.- ofereceu a taa para ela.
-E eu  sua mo tremeu ao pegar o cristal. Era o desejo que lutava para se libertar - A primeira vez que me beijou, na torre,um mundo inteiro se abriu. Nunca tinha 
sentido algo parecido. 
-Apesar de seu aborrecimento, aquela noite eu estava a ponto de lhe suplicar que ficasse tirou seus brincos e deixou que os dedos acariciassem o lbulo sensvel-. 
Me pergunto o que voc teria feito.
-No sei. Mas teria gostado. 
-Essa resposta j  o bastante -deixou os brincos numa mesa. Devagar, foi tirando os grampos de seu cabelo, sem deixar de olh-la-. Ests tremendo. 
-Eu sei.
Afastou a taa de seus dedos frouxos e continuou libertando seus cabelos, sentiu o sussurro dos dedos na nuca. 
-Tem medo de mim? 
-Tenho medo do que voc pode fazer comigo. 
Algo escuro e perigoso ardeu nos olhos de Gage. Mas baixou a cabea para lhe dar um beijo suave na tmpora. 
-Beija-me -pediu Deborah com plpebras pesadas 
-O farei -a boca abriu caminho pelo seu rosto, tentando-a, sem satisfaz-la. 
-No tem que me seduzir -ofegou.
-O prazer  meu -e queria que fosse dela. Percorreu as costas com um dedo, e sorriu quando a sentiu tremer. Essa noite queria lhe ensinar o lado mais suave do amor. 
Quando se apoiou nele, resistiu as velozes flechas do desejo.
- Fizemos amor na escurido -murmurou enquanto desabotoava os trs botes que tinha por trs do pescoo-. Esta noite quero ver voc -o vestido escorregou pelo seu 
corpo e ficou como um brilhante lago azul sob seus ps. S usava um corpete transparente que lhe abraava os seios e descia at os quadris. Sua beleza o deixou sem 
foras-. Cada vez que olho para voc, me apaixono de novo.
-Ento no pare de olhar -levantou as mos para desfazer-lhe a gravata. Depois baixou os dedos para se ocupar dos botes-. No pare nunca  abriu a  camisa e depois 
apoiou a boca na pele ardente. A ponta da lngua deixou um rastro mido antes de afastar a cabea e jog-la para atrs em convite-. Agora me beija.
Seduzido como ela, fundiu seus lbios nos dela. No interior do quarto soavam os gemidos baixos e roucos de ambos. As mos de Deborah subiram devagar at seus ombros 
para tirar-lhe a jaqueta do smoking. Os dedos ficaram moles quando Gage suavizou o beijo e depois o aprofundou. 
Tomou-a em braos como se fosse um cristal frgil. Sem desviar a vista dela, deixou que durante alguns momentos sua boca a enlouquecesse e atormentasse. Continuou 
com os beijos delicados at lev-la  cama. 
Sentou-se e a depositou a sentada sobre seu colo. Com a boca prosseguiu a serena devastao de sua razo. Quase podia v-la flutuar. Ela fechou os olhos. A queria 
dessa maneira. Totalmente extasiada. Totalmente sua.  medida que extraia mais e mais do extico sabor de sua boca, pensou que poderia ficar horas assim. Dias.
Deborah sentiu cada contato terno, cada carcia das pontas de seus dedos, o atrito da palma de sua mo, a busca paciente de sua boca. Sentia o corpo leve como o 
ar com fragrncia de rosas, mas os braos estavam pesados. A msica e os murmrios de Gage se misturaram na mente dela at formar uma nica melodia de seduo. De 
fundo estava o rudo selvagem de suas prprias palpitaes. 
Sabia que jamais tinha estado to vulnervel nem to disposta a ir onde ele escolhesse lev-la.
E isso era amor... uma necessidade mais bsica do que a fome e a sede.
De seus lbios escapou um ofego desvalido quando os lbios dele sussurraram sobre  os seios. Devagar, eroticamente, a lngua  deslizou sob o encaixe do corpete para 
provocar seus mamilos j endurecidos. Os dedos de Gage brincavam sobre a pele que as meias no cobriam, at desliz-las sob o  tringulo reduzido que cobria a unio 
de suas coxas. 
Com um nico contato a fez chegar atingir seu primeiro pico de prazer. Deborah se arqueou como um arco e o prazer saiu disparado de seu interior para fincar-se nele. 
Depois teve a impresso de que se fundia em seus braos. 
Atordoada,  beira do delrio, se agarrou a Gage 
-Me deixe...... 
-O farei - cobriu o grito aturdido com a boca. E enquanto tremia, depositou-a sobre a cama.
Agora, pensou ele. Podia tom-la nesse momento enquanto jazia acesa e mida em sua entrega. Sua pele um raio de lua. O encaixe branco que usava era como uma iluso. 
Quando o olhou sob suas finas pestanas, viu vibrar em um desejo escuro. 
Tinha que lhe ensinar mais. 
Roou a pele com as pontas do dedos e a fez tremer ao soltaras meias. Quase com preguia, baixo-lhe uma e seguiu o caminho que ela fazia com beijos suaves com a 
boca aberta sobre a pele morna. Deslizou a lngua pela parte de trs do joelho, pela panturrilha, at que a teve retorcendo-se em entregue ao prazer. 
Presa em leves camadas de sensaes, ela voltou a estender os braos, para que Gage a ignorasse e repetisse essa devastadora delcia sobre sua outra perna. A boca 
dele vez o caminho inverso, lentamente, detendo-se, at que a encontrou. Os lbios dela emitiram seu nome e  beira das lgrimas  se colou ao seu corpo.
E ao primeiro contato, a fora pareceu entrar nela. 
Ardentes como um chama, suas peles se encontraram. Mas no bastava. Com urgncia os dedos de Deborah lhe tiraram a camisa, rasgando-a em seu desespero por procurar 
mais partes dele. Com os dentes lhe mordiscou o ombro. Sentiu que os msculos do estmago de Gage se tencionaram, ouviu seu rpido ofego quando alcanou a cintura 
de suas calas. Os botes voaram. 
-Te desejo -frentica, beijou-o-. Deus, desejo voc. 
O controle que ele tinha mantido com tanta firmeza lhe escorreu entre os dedos. O desejo o tomou. Ela o tomou com suas mos desesperadas, sua boca cobiosa. O ar 
queimava seus pulmes enquanto terminava de se despir.
Em seguida estavam de joelhos sobre a cama desfeita, com os corpos trmulos, sem desviarem o olhar. Rompeu-lhe o corpete pelo centro, a agarrou pelos quadris e colou-se 
nela. 
Durante o ato, Deborah arqueio as costas e murmurou o nome de Gage ao cair pelo precipcio da insensatez. Agarrando-a pelos cabelos, voltou a elev-la, apoderou-se 
de sua boca e a seguiu. 

Dbil, jazia na cama, com um brao sobre os olhos e o outro flcido no colcho. Sabia que no podia mover-se, no estava segura de que pudesse falar e duvidava de 
que respirasse. 
No entanto, quando Gage a beijou no ombro, voltou a tremer. 
-Queria que fosse suave.
Deborah conseguiu abrir os olhos. Seu rosto estava prximo. Sentiu que os dedos lhe acariciavam o cabelo. 
-Ento imagino que ter que voltar a tentar at que consiga. 
-Algo me diz que precisaremos de muito tempo -sorriu. 
-Bem -lhe delineou seus lbios com o dedo-. Amo voc, Gage. E essa  a nica coisa que deve importar nessa noite. 
- a nica que importa - tomou sua mo. Havia uma ligao entre eles, to profunda e ntima como o ato de amor-. Lhe trarei uma taa de champanhe. 
-Jamais pensei do que pudesse ser assim -com um suspiro satisfeito, se ajeitou na cama enquanto ele se levantava-. Jamais pensei do que eu pudesse ser assim. 
-Como?
Captou uma imagem sua no espelho do outro lado do quarto, nua sobre alguns travesseiros e com os lenis emaranhados.
-To lasciva, suponho -rio pela escolha das palavras-. Na universidade tinha fama de ser sria, estudiosa e inabordvel. 
-A universidade terminou - sentou na cama e lhe entregou uma taa, para brindar com a sua. 
-Terminou. Mas mesmo depois, quando comecei a trabalhar no escritrio do promotor, essa reputao me seguiu -enrugou o nariz-. A sria O'Roarke 
-Eu gosto quando  sria -bebeu um gole-. Imagino voc em uma biblioteca repassando livros imensos e empoeirados tomando notas.  
-No  a imagem que prefiro neste momento. 
-A mim agrada -baixou a cabea para mordiscar seu  ombro-. Veste estes trajes conservadores, com essas cores que no tem nada de conservadoras e que voc parece 
gostar-rio entre dentes ao ver sua expresso-.Sapatos confortveis e jias discretas.
-Est me fazendo parecer uma puritana. 
-E embaixo algo minsculo e sexy -com o dedo levantou uma tira do corpete rasgado-. Uma escolha muito pessoal para uma promotora muito correta. E depois se pe a 
citar precedentes e me deixar louco. 
-Como Warner contra Kowaski? 
-Mmm -se concentrou em sua orelha-. Algo assim. E eu seria o nico que saberia que  necessrio seis grampos para recolher seu cabelo nesse coque to certinho. 
-Sei que posso ser muito sria -murmurou-.  s porque o que fao  importante para mim -contemplou o champanhe-. Tenho de saber que o que fao est bem. Que o sistema 
que represento funciona -quando ele se afastou  para estud-la, suspirou-. Sei que uma parte  orgulho e ambio, mas outra parte  bsica, Gage, algo que levo dentro. 
Por isso me preocupo pelo modo que iremos resolver esses problemas entre ns.
-No o resolveremos esta noite. 
-Eu sei, mas... 
-Esta noite no -apoiou um dedo sobre os lbios dela-. Esta noite estamos voc e eu. Preciso disso, Deborah. E voc tambm. 
-Tem razo -assentiu-. Voltei a me deixar levar pelo trabalho. 
-Podemos solucion-lo -sorriu e ergueu a taa at a luz. O champanhe tinha borbulhas. 
-Nos embebedando? -perguntou com uma sobrancelha arqueada. 
-Mais ou menos -a mirou com olhos risonhos-. Por que no te mostro... uma maneira menos sria de beber champanhe? Inclinou a taa para verter um pequeno jorro de 
bebida fria sobre um seio.














Captulo 10


Gage no notava o passar do tempo enquanto a observava dormir. As velas  tinham se apagado e a sua fragrncia pairava no ar, sereno como uma recordao. Inclusive 
dormindo, ela agarrava com fora uma de suas mos. 
As sombras se ergueram e se perderam na luz acinzentada do amanhecer. No queria acord-la. Tinha muito que fazer, demasiadas coisas das quais ainda se negava a 
deixar que ela fizesse parte. Sabia que em questo de semanas os objetivos que tinha imposto a si mesmo fazia mais de quatro anos tinham se misturado. No bastava 
se vingar da morte de seu colega. J no bastava  procurar compensao pelo tempo e a vida que lhe fora roubada. Nem sequer bastava a justia. 
Ia ter que se mover depressa, porque cada dia que passava sem resposta era outro dia que Deborah corria perigo. No tinha nada mais importante do que  mant-la a 
salva.
Afastou-se dela em silncio para se vestir. Tinha que recuperar todas as horas que tinha passado ao lado de Deborah e que no tinha se dedicado a sair pelas  ruas 
ou a trabalhar. Olhou-a quando ela se moveu e abraou o travesseiro ao lado. Dormiria durante a manh. E, enquanto isso, ele pesquisaria. 
Apertou um boto oculto sob a madeira talhada que tinha na parede mais afastada da cama. Um painel se abriu. Penetrou na escurido e deixou que a porta se fechasse 
a suas costas. 
Com a boca seca  da noite passada, Deborah piscou sonolenta. Perguntou a si mesma, se estivera estado sonhando. Juraria que Gage tinha entrado numa espcie de passagem 
secreta. Desconcertada, apoiou-se nos cotovelos. Durante o sonho tinha estendido a mo em sua direo e, ao descobrir que ele no estava ao seu lado, tinha acordado 
justo no instante em que a parede se abria.
Disse a si mesma que aquilo no era um sonho, j que ele no estava ao seu lado. 
Mais segredos, pensou, sentindo o pesar que a envolvia provocado pela desconfiana dele. Depois das noites que tinham passado juntos, o amor que tinha revelado 
sentir por ele, seguia sem lhe dar sua confiana. 
Enquanto se levantava pensou que j era hora de conseguir esta confiana, por bem ou por mal. No ia ficar-se sentada, do jeito que ele exigia que fizesse. Remexeu 
no armrio ,e encontrou uma roupo de cor cinza que chegava ais seu tornozelos.  Impaciente, dobrou as mangas e comeou a procurar o mecanismo que abria o painel. 
Apesar de  conhecer sua localizao aproximada, demorou dez longos minutos paro encontr-lo, e outros dois at averiguar como funcionava. Suspirou satisfeita quando 
uma lateral da parede deslizou silenciosa. Sem hesitar, entrou no corredor escuro e estreito.
Manteve uma mo na parede para guia-la e avanou. No tinha nenhum cheiro rancooso que indicasse desuso, tal como tinha esperado. O ar era limpo, a parede lisa 
e seca. Inclusive quando o painel se fechou e ficou na escurido, no se sentiu inquieta. No ouvia nenhum som estranho. Era evidente que Gage utilizava a passagem 
com freqncia. 

Aguou os olhos e os ouvidos. Da passagem principal se abriam alguns corredores serpenteantes, mas o instinto lhe indicou que se mantivesse no caminho reto. Passado 
um momento, viu uma leve luminosidade adiante e avanou com maior pressa. Uma escada de pedra apareceu em seu caminho. Com uma mo no corrimo de ferro desceu at 
chegar ao ltimo degrau, onde encontrou  trs tneis que conduziam em direes diferentes.
-Maldito seja, Gage. Aonde voc foi parar? -o murmrio ecoou por alguns instantes, depois morreu. 
Ergueu os ombros e empreendeu o caminho por uma inclinao , mudou de idia e retrocedeu at chegar ao incio do caminho novamente. Voltou a vacilar. Depois a ouviu, 
tnue e como num sonho pelo ltimo tnel. Msica. 
Outra vez se lanou para a escurido, seguindo o som com cautela pelo cho de pedra que descia. No tinha nem idia dos metros que descia, mas o ar se esfriava com 
rapidez. A msica aumentou pouco a pouco  medida que se a luz no tnel se intensificava. Ouviu uma vibrao mecnica e um rudo parecido a de um teclado. 
Ao chegar ao fim da passagem, s pde olhar assombrada.

Era uma sala imensa com inclinadas paredes de pedra. Parecida  uma gruta com seu teto arredondado e seus ecos, estendia-se mais de quinze metros em cada direo. 
Mas no era primitiva. Em vez de parecer sombria, exibia uma iluminao brilhante e estava equipada com um vasto sistema informtico, impressoras e monitores. Numa 
parede tinha telas de televiso. Um enorme mapa topogrfico de Urbana se estendia por outra. Uma msica romntica e melosa soava nos auto falantes ocultos. Balces 
de granito acinzentado continham computadores, telefones, pilhas de fotografias e papis. 
Tinha um painel de controle cheio de botes, interruptores e alavancas. Gage se achava frente a ele e seus dedos no paravam de mover-se. No mapa piscavam algumas 
luzes. Na tela de um monitor aparecia a reproduo do mapa.
Parecia um desconhecido, com o rosto ptreo e intenso. Deborah se perguntou  se sua escolha de calas e camisas negras tinha sido deliberada. 
Desceu trs degraus. 
- Nossa -disse quando ele se voltou com rapidez-, no inclui isto em meu percurso. 
-Deborah  levantou-se e automaticamente apagou o monitor-. Tinha esperado que dormisse um pouco mais. 

-No me cabe nenhuma dvida -meteu as mos tensas nos bolsos do roupo-. Ao que parece interrompi seu trabalho. Um hoby interessante. Diria que ao estilo de Nmesis. 
Dramtico, misterioso -se dirigiu para o mapa-. E minucioso -murmurou, voltando-se para ele-. Uma pergunta. Uma que neste momento parece ter muita importncia. Com 
quem eu passei noite?
-Sou o mesmo homem com  quem  esteve  ontem  noite. 
- srio?  o mesmo homem que disse que me amava, que me  demonstrou de uma dzia de maneiras maravilhosas? O mesmo homem que me deixou para descer at aqui? Quanto 
tempo mais voc vai seguir mentindo para mim?
-No  uma questo de mentir.  algo que devo fazer. Pensava que compreendia isso.
-Pois est enganado. No entendo as coisas que me oculta , no entendo que trabalhe escondido de mim, que me negue informaes. 
-        Voc me deu duas semanas -pareceu mudar diante dela, voltando a ficar distante e frio. 
-Maldito, lhe dei muito mais do que isso. Me entreguei inteira para voc -em seus olhos turbulentos de emoo, a raiva e a dor lutaram por atingir a supremacia. 
Ergueu uma mo antes que ele pudesse se aproximar-. No. No utilize meus sentimentos neste momento.
-De acordo. No se trata de sentimentos, e sim de lgica.  algo que deveria saber apreciar, Deborah. East  meu trabalho. Sua presena aqui  to desnecessria 
quanto a minha seria em um tribunal. 
-Lgica? -espetou-. E a esta lgica se encaixa perfeitamente em seus propsitos, no?. Me tomas por uma imbecil? Acredita que no sou capaz de ver o que se passa 
aqui? -indicou os monitores-. E nos manteremos o assunto em nvel estritamente profissional. Voc tem todas as informaes que eu com muita dificuldade tenho tentado 
reunir. Todos os nomes, os nmeros, e mais, muito mais do que eu pude localizar. Mas no me conta. E no o far.
-Trabalho s -disse, adotando outra vez sua atitude impenetrvel. 
-Sim, sou consciente disso -disse com amargura ao aproximar-se dele-. Nada de parceiros. A no ser na cama. Ali eu sirvo para ser sua parceira.
-Uma coisa no tem nada que ver com a outra. 
-Tem tudo a ver -praticamente gritou-. Se no  capaz de confiar em mim em todos os sentidos, me respeitar em todos os sentidos e ser sincero comigo em tudo, ento 
entre ns no existe nada. 
-Maldita seja, Deborah, no  sabe tudo -a agarrou pelos braos-. No o sabe de tudo. 
- Isso  verdade. Porque voc no me permite saber.
-No posso -a corrigiu, sem deixar de segur-la-. H uma diferena entre mentir e omitir informao. Isto no  branco e preto. 
- Claro que . 
-Estamos falando de homens perigosos, sem conscincia, sem moral. J tentaram mat-la, quando ainda no tinha descoberto quase nada. No arriscarei sua vida. Se 
quer tudo em branco e preto, est ai sua resposta -a sacudiu, realando cada palavra-. No arriscarei sua vida.
-No pode me impedir que cumpra com meu trabalho nem com o que considero que  certo. 
-Por Deus, se tenho que prende-la  l em cima at que tudo isso acabe e voc esteja a salvo eu o farei!
-E depois o que far? Vai fazer o mesmo na prxima vez que eu me arriscar em meu trabalho? E na seguinte? 
-Farei o que for necessrio para proteger voc. Isso no vai mudar.
-Talvez tenha uma bonita bolha de plstico para que possa me guardar dentro dela - apoiou as mos em seus antebraos, desejando que ele compreendesse-. Se voc me 
ama, tem que me amar do jeito que eu sou. Exijo isto de voc, do mesmo modo que exijo conhecer e amar a pessoa que voc - viu que algo brilhava em seu olhar e insistiu 
 No pode ser diferente de voc, no posso ser algum que espere sentada que outra pessoa cuidem dela.
- No estou pedindo isso de voc.
-No? Se no  capaz de me aceitar agora, no o far nunca. Gage, quero uma vida com voc, no s algumas noites na cama, e sim uma vida. Filhos, um lar, uma histria 
em comum. Mas se voc no pode compartilhar comigo o que sabe, e quem , no existir um futuro para ns -se afastou dele-. E se for este o caso, seria melhor para 
ns dois que eu sasse daqui agora.
-No -estendeu a mo antes de que pudesse dar-lhe as costas. Sem se importar quanto arraigado tinha seu prprio sentido de sobrevivncia, no se comparava com a 
possibilidade da vida sem ela-. Preciso que me d sua palavra -apertou os dedos sobre os seus-. Que no correr nenhum risco e que iso ficar entre ns ao menos 
at que tudo tenha acabado. No importa o que vai saber e o que vamos encontrar, tem que me prometer que no vai falar nada fora desta sala. Ainda no  pode correr 
o risco de levar o que saber at o promotor. 
-Gage, sou obrigada...
-No -cortou-. Haja o que houver, tudo  ficar aqui at que possamos jogar nossos dados. No posso dar mais do que isso, Deborah. Peo apenas isso a voc.
E ela podia ver o quanto custava isso a ele. 
-De acordo. No lhe apresentarei nada a Mitchell at que ambos estejamos seguros. Mas quero tudo, Gage. Tudo -sua voz se acalmou-. No v que sei que me oculta algo 
bsico que no tem nada a ver com salas secretas e dados? Sei disso e isso me magoa. 
Ele deu as costas. Se iria lhe contar tudo, nada melhor do que escolher comear com ele mesmo. O silncio se estendeu entre os dois at de que Gage o rompesse. 
-H coisas que no sabe de mim, Deborah. Coisas que talvez no te goste ou no possas aceitar. 
-Tem to pouca f em mim? -perguntou baixinho. 
-No tinha direito de deixar que as coisas chegassem to longe entre ns sem revelar quem sou -lhe tocou a face com a esperana de que no fosse a ltima vez-. No 
queria assust-la.
- Est me assustando agora. Seja o que for o que tenha que me dizer, faa-o. Ns solucionaremos entre ns. 
Sem falar, dirigiu-se para uma parede. Voltou-se e, sem deixar de olh-la, desapareceu. 
Deborah abriu a boca, mas o nico som que pde emitir foi um rudo estrangulado. Com os olhos fincados onde deveria estar Gage, deu um passo para trs. A mo insegura 
se agarrou ao respaldo de uma cadeira e deixou que seu corpo aturdido tombasse ali. 
Ainda que sua mente recusava  em acreditar no que acabava de presenciar seus olhos, Gage se materializou a trs metros de onde tinha desaparecido. Durante um instante 
Deborah pode ver atravs dele, como se ele fosse apenas um fantasma do homem que era antes.
Pensou em se por de p, mudou de idia e pigarreou. 
- um momento estranho para realizar truques. 
-No  um truque -caminhou para ela, e pode ver que ainda estava dominada pela comoo-. Ao menos no no sentido que voc disse. 
-Todos estes artifcios que voc tem aqui -disse, agarrando-se com desespero a um salva-vidas de lgica num mar de confuso-. Seja o que for o que est utilizando, 
produz uma surpreendente iluso ptica engoliu saliva-. Imagino que o Pentgono estaria interessado. 
-No  uma iluso - tocou seu brao e, ainda que ela no tivesse se afastado tal como tinha temido, sentiu sua pele fria-. Agora tem medo de mim.
-Isso  absurdo-mas a voz tremia. Obrigou a si mesma a se levantar-. S foi um truque, muito eficaz, mas... -calou quando ele apoiou a mo sobre um balco e desapareceu 
at o pulso Aturdida, o encarou-. Oh, Deus. No  possvel -aterrorizada, pegou seu brao e quase desmaiou de alvio ao ver que a mo estava intacta. 
- possvel -lhe acariciou ao rosto com suavidade com essa mo-.  real. 
-Me de um minuto -ergueu os dedos inseguros para  tirar os de Gage. Com movimentos pausados, lhe deu as costas e se afastou. 
Ele se sentiu atravessado pela lmina afiada da rejeio. 
-Sinto muito-com grande esforo, controlou sua voz-. No  me ocorreu nenhuma maneira melhor nem mais fcil de mostrar o que sou a voc. Se tivesse tentado explicar, 
voc no teria acreditado. 
-No, no teria. -tinha visto. Mas sua mente ainda queria perguntas, encarar tudo aquilo como um truque hbil. No entanto, recordou como Nmesis sempre tinha dado 
a impresso de desvanecer-se no espao. Voltou-se e notou que ele a observava com o corpo tenso. No se tratava de um jogo. Quando aceitou a verdade, se ps a tremer 
com mais intensidade. Esfregou os braos com a esperana de aquecer a pele-. Como faz? 
-No estou bem certo -abriu as mos para contemplar-se, depois as colocou com impotncia no bolso-. Algo aconteceu comigo enquanto eu estava em coma. Algo mudou. 
Algumas semanas depois de recobrar a conscincia, descobri quase por acidente. Tive que aprender a aceitar, a us-lo, porque sei que me foi entregue por algum motivo. 
-E por isso... Nmesis. 
-Sim -pareceu acalmar-se-. No tenho escolha quanto a isto, Deborah. Mas voc sim. 
-Creio que no entendo - levou uma mo  cabea e emitiu um riso nervoso-. Sei que no entendo. 
-No fui honesto com voc a respeito do que sou. O homem pelo qual voc se apaixonou era normal.
-No estou compreendendo o que quer dizer -desconcertada, baixou a mo ao lado do corpo-. Apaixonei-me por voc.
-Maldio Deborah, no sou normal -de repente seus olhos mostraram fria-. Jamais  serei. Levarei isto comigo at o dia de minha morte. Eu sei.
-Gage... -mas quando estendeu a mo, ele se afastou-se. 
-No quero sua compaixo. 
-No a tem respondeu rpida-. Por que teria que ter compaixo por voc? No est enfermo. Est so. Em todo caso, me sinto aborrecida porque escondeu isso de mim 
tambm. E eu sei por que passou as mos pelos cabelos-. Pensou que eu iria embora, no  verdade? Pensou que e seria fraca demais, estpida ou frgil para aceit-lo 
como . No confiou no meu amor -a dominou uma fria cega-. No confiou no meu amor -repetiu-. Bem, ao diabo com isso, eu amo voc e sempre vou amar.
Correu para a escada. Ele a agarrou  aos p dos degraus, e fez ficar de frente para ele e a abraou enquanto ela o amaldioava e se debatia. 
- Pode me chamar do que quiser -a sacudiu pelos ombros-. Pode me esbofetear outra vez se quiser. Mas no v embora.
-Era o que esperava, no? -exigiu. Jogou a cabea para trs-. Esperava que eu desse meia volta e fosse embora. 
-Sim.
- Pois est enganado -murmurou. Sem se desviar do seu olhar tocou sua face, se colocou nas pontas do ps e o beijou. 
Os dois estremeceram, ambos pegos pela onda de alvio. A abraou com fora. Apesar do grande temor que tinha se abatido sobre ele momentos atrs, agora tudo era 
substitudo por uma imensa necessidade. No foi compaixo o que saboreou nos lbios dela, e sim paixo.
Deborah emitiu alguns sons sedutores enquanto seu roupo era tirado. Oferecia muito mais do que seu corpo. Era a exigncia que a tomasse tal como era, que se permitisse 
ser tomado. Com um juramento que terminou num gemido, percorreu-lhe o corpo com as mos. Viu-se envolvido numa loucura de purificao. 
Impaciente, Deborah rancou sua camisa. 
-Faa amor comigo -jogou a cabea trs e o repetiu o pedido olhando em seus olhos-. Faa amor comigo, agora.
Arrancou sua roupa enquanto se deixavam escorregar at o cho. 
Frenticos, ardentes e famintos, atingiram juntos o orgasmo. O poder se elevou como lnguas de fogo. Sempre  assim entre ns, pensou ela enquanto experimentava 
um arrepio. Mas nesse momento havia mais. Existia uma unidade. Compaixo, confiana, vulnerabilidade para misturar com seus anseios. Nunca o tinha desejado tanto. 

-Te amo - disse, levantando-se sobre um cotovelo-. Deixe que eu te mostre quanto te amo.

gil, veloz, cobiosa, moveu-se sobre ele para beijar-lhe o pescoo, o peito, os msculos tensos do estmago, que tremeram sob seus lbios midos. 
Deborah era um milagre, o segundo que tinha recebido na vida. Quando a tomou em braos, foi procurando o amor e a salvao. 
Rodaram com as extremidades e os desejos misturados, alheios a dureza do solo, ao zumbido das mquinas que seguiam trabalhando. Respiravam de maneira entrecortada. 
Cada sabor e cada toque pareciam mais poderosos que nunca. 
Gage lhe fincou os dedos nos quadris enquanto a erguia. Deborah o envolveu. O prazer os inundou, aos dois. Suas mos se procuraram. 
Agentaram, com os olhos abertos e os corpos unidos, at que deram o ltimo salto juntos. 
Como gelatina, derreteu-se cima dele. Roou seus lbios com a boca, uma vez, e outra, antes de apoiar a cabea em seu ombro. Nunca tinha se sentido mais sedutora, 
mais desejvel, mais completa do que ao notar do que seus coraes batiam juntos.
Sorriu e colou a boca a seu pescoo. 
-Foi minha maneira de dizer que voc no se ver livre de mim assim to fcil.
-Gosto como expe seus argumentos - acariciou as costas. Ela era sua. Tinha sido um tolo ao duvidar-. Isso significa que me perdoa? 
-No necessariamente  se apoiou nos ombros dele e  levantou-. No entendo que . Pode ser que jamais o compreenda. Mas, repito, quero tudo ou nada. Recordo o que 
as evasivas, as negativas e as rejeies fizeram ao casamento de meus pais. No quero isso para mim. 
- uma declarao? -apoiou a mo com suavidade na dela. 
-Sim -afirmou sem vacilar,.
-Quer uma resposta agora? 
-Sim -semicerrou os olhos-. E no pense que pode escapar desaparecendo. Vou esperar at que volte. 
Ele riu, assombrado que ela pudesse brincar com algo que ele pensara que a fizesse correr assustada.

-Ento suponho que ter que fazer de mim um homem honesto. 
- o que pretendo -lhe deu um beijo fugaz e depois  levantou para vestir o roupo-. No quero um noivado longo. 
-De acordo. 
-Quanto terminarmos este caso e Cilla e Boyd possam organizar uma viagem com os meninos nos casaremos. 
-Certo -a olhou com humor-. Algo mais? 
-Quero ter filhos rpido.
-Alguma quantidade em particular? ele vestia as calas. 
-Um de cada vez. 
-Soa razovel. 
-E... 
-Cale a boca - tomou suas mos-. Deborah, quero me casar com voc e  lhe dedicar o resto de minha vida e saber que, quando estender minhas mos estar aqui. E quero 
uma famlia, nossa famlia -lhe beijou os dedos-. Quero a eternidade contigo -a viu conter as lgrimas-. Mas neste exato momento quero outra coisa. 
- O que?
-Caf da manh. 
-Eu tambm  rodeou-lhe o pescoo com os braos. 
O fizeram na cozinha, rindo, como se sempre tivessem compartilhado a primeira refeio do dia. O sol brilhava e o caf era forte. Deborah tinha dzias de perguntas, 
mas se conteve. Durante aquele momento queria que fossem apenas duas pessoas normais apaixonadas. 
Normais, pensou. Era estranho, mas sentiu que podiam s-lo, apesar dos aspectos extraordinrios de suas vidas. A nica coisa que precisavam era de  momentos como 
aqueles, que pudessem estar sentados ao sol e falar de coisas sem importncia.
Quando Frank apareceu, deteve-se no umbral da cozinha e fez um gesto educado para Deborah com a cabea. 
-Precisa de algo esta manh, senhor Guthrie? 
-Ela sabe, Frank -apoiou a mo sobre a dela-. Sabe de tudo.
Um sorriso apareceu na cara sria do homem. 
-Bem, j era hora -abandonou toda a fingida formalidade ao pegar uma torrada. Sentou-se  mesa semicircular, deu uma mordida no po e acenou com a metade restante-. 
Eu disse para voc que ela no sairia correndo quando se inteirasse de seu pequeno nmero de desaparecimento.  durona demais para isso. 
-Obrigada -riu divertida quando a outra metade da torrada desapareceu na boca de Frank 
-Conheo s pessoas -manifestou, aceitando a bandeja com bacon que Gage ofereceu -. Em minha profisso, minha antiga profisso, tinha que avaliar as pessoas com 
rapidez. E eu era bom, muito bom, no  verdade, Gage? 
-Era sim, Frank.
- Podia ver a um amador a dois quarteires de distncia -empurrou um bocado de bacon diante de Deborah-. E voc no  nenhuma amadora. 
E pensar que ela o tinha catalogado como uma pessoa silenciosa. Fascinou-a o modo em que compensava o tempo perdido. 
-Acompanha Gage h muito tempo -disse. 
-Oito anos... sem contar o par de vezes que me encerrou. 
-Sei. Vocs so como Zorro e seu amigo ndio.
Ele voltou a sorrir. 
-Eh, gosto dela, Gage.  perfeita. Eu disse  que ela era perfeita. 
-Sim, voc disse. Deborah vai ficar, Frank. Gostaria de ser meu padrinho?
- Est brincando? -o sorriso de Frank no pde ser mais amplo. 
Quanto ela viu o brilho das lgrimas em seus olhos, soube que o homem j a tinha conquistado.
-No  brincadeira - tomou a cara grande entre as mos e lhe plantou um beijo nos lbios-. Agora, aqui est seu primeiro beijo da noiva. 
-Eu gostaria que Deborah trouxesse algumas coisas para c hoje mesmo -indicou Gage. 
Ela baixou a vista para o roupo. Tirando aquela pea  emprestada, dispunha de um vestido de noite, um par de meias e uma bolsa elegante. 
-No seria ruim -mas sua mente pensava na sala subterrnea, nos computadores, na informao que Gage tinha ao alcance dos dedos. 
No foi difcil para ele seguir a direo de seus pensamentos.
- H algum que possa pegar algumas das suas coisas? Frank poderia passar pelo seu  apartamento para recolh-las. 
-Sim, a senhora Greenbaum. Darei um telefonema. 
Em meia hora se achava de volta na sala secreta de Gage, com uma cala presa a cintura com um cinto do roupo e uma camisa branca que lhe cobria as coxas. Com as 
mos nos quadris, estudou o mapa enquanto Gage explicava. 
-Esses so pontos de distribuio , de importantes transaes de droga. Pude rastrear os movimentos de alguns mensageiros. 
-Por que no lhe deu essas informao  polcia? 
Olhou-a brevemente. Nesse ponto existia a possibilidade de que jamais entrassem em acordo.
No ajudaria em nada a aproximao at os chefes. Neste momento, trabalho sobre um padro  aproximou de um dos computadores e lhe fez um sinal.
- Nenhum das pontos de distribuio se acha a mais de vinte quarteires de distncia. O perodo de tempo que demora entre as distribuies  constante -apertou algumas 
teclas. Uma lista de flechas apareceu na tela-. Duas semanas, as vezes trs. 
-Podes imprimir? -franziu o cenho, concentrada. 
-Por que? 
-Eu gostaria de introduzir as informaes no computador de meu escritrio, para ver se encontro alguma correlao. 
-No  seguro -antes de que ela pudesse discutir, tomou sua  mo e a levou at outro computador. Introduziu um cdigo e selecionou uma pasta. Deborah abriu a boca 
surpresa ao ver seu prprio trabalho reproduzido no monitor. 
-Entrou em meu sistema -murmurou.
-A questo  que se eu posso, eles tambm podem. Qualquer coisa que precise, encontrar aqui.
-Estou seguindo o caminho correto? -sentou diante do computador. 
Sem responder, ele introduziu outro cdigo. 
-Tem estado procurando as corporaes, os diretores. Um local lgico para um comeo. Quem quer que planejasse a organizao,  um profissional. H quatro anos, no 
dispnhamos da informao nem da tecnologia para nos aproximar tanto, por isso tivemos que nos infiltrar pessoalmente surgiu uma lista de  nomes, alguns que Deborah 
reconheceu, outros que no. Todos constam como falecidos-. No funcionou porque tinha um vazamento. Algum que conhecia a operao passou a informao ao outro lado. 
Montega nos esperava e sabia que ramos policiais -Deborah sentiu um arrepio-. E tambm sabia todos os nossos movimentos naquela noite,  de outro modo no teria 
como ter escapado da vigilncia de nossos homens. 
-Outro policial? 
- uma possibilidade. A equipe daquela noite era formada por dez homens escolhidos a dedo. Estudei cada um deles, suas contas bancrias, seus registros, o estilo 
de vida. At agora, no encontrei nada. 
-Quem mais sabia? 
-Meu capito, o comissrio, o prefeito -moveu os ombros-. Talvez mais algum. Ns s ramos polcias. No nos contaram tudo. 
-Quando encontrar o fio condutor, o que? 
-Espero, vigio e sigo. O homem com o dinheiro me conduz ao homem no comando. E  ele  quem procuro. 
Ela conteve um tremor, prometendo-se que conseguiria convenc-lo de deixar que a polcia se ocupasse de tudo quando dispusessem de suficiente informao.
- Enquanto procura isso, eu gostaria de me concentrar nos nomes e nos vnculos comuns. 
-De acordo - acariciou o cabelo e apoiou a mo em seu ombro-. Este computador  similar ao que usa em seu escritrio. Tem mais algumas coisas... 
-Como sabe? -interrompeu. 
-Saber que? 
-Qual o computador que eu tenho em meu escritrio. 
-Deborah...  viu-se obrigado a sorrir-. No h nada sobre voc que no saiba. 
-Encontrarei meu nome em  de seus computadores? -incomodada, afastou-se um pouco. 
- Encontrar. Fiquei dizendo para mim mesmo que era uma busca corriqueira, mas na verdade  que estava apaixonado de voc e almejava cada detalhe. Sei quando nasceu, 
at o minuto, e onde. Sei que quebrou o pulso quando caiu de uma bicicleta quando tinha cinco anos de idade, que foi viver com sua irm e seu marido quando seus 
pais morreram. E que quando sua irm se divorciou, foi com ela para Richmond, Chicago, Dallas. E por fim Denver, onde graduou-se na universidade em trs anos, com 
louvor. Recusou as ofertas de quatro dos melhores escritrios de advocacia do pas para aceitar pelo escritrio da promotoria em Urbana. 
-  algo raro escutar uma verso resumida de minha vida. 
- H algumas coisas no pude averiguar com o computador -as importantes, pensou. As vitais-. O cheiro de seu cabelo, a cor azul profunda que adquire seus olhos 
quando fica irritada com alguma coisa ou excitada. O que me faz sentir quando me toca.  No negarei que invadi sua intimidade, mas no me desculparei. 
-No, no o far -suspirou-. E suponho que no posso me senti muito ofendida, j que eu tambm  pesquisei sua vida. 
-Eu sei -sorriu.
-De acordo -riu-. Vamos trabalhar. 
Mal tinham posto mos a obra quando soou um dos trs telefones que se encontravam  ali. Deborah nem olhou a Gage quando ele respondeu. 
-Guthrie. 
-Gage,  Frank. Estou no apartamento de Deborah. Ser melhor vocs virem aqui.


Captulo 11



Com o corao batendo-lhe de forma errtica, Deborah saiu correndo do elevador e avanou pelo corredor um passo adiante de Gage. O telefonema de Frank os tinha feito 
cruzar a cidade no Aston Martin dele num tempo recorde. 
A porta se encontrava aberta. Ficou sem cho ao se deter no umbral e ver a destruio que tinham provocado. As cortinas rasgadas, as recordaes pisadas e amassadas, 
as mesas e as cadeiras quebradas sobre o cho. Soltou um gemido antes de ver a Lil Greenbaum apoiada nos restos do sof destroado, com o rosto de uma palidez mortal. 
-Oh, Deus afastando os objetos enquanto se aproximava, correu para cair de joelhos a seu lado-. Senhora Greenbaum...- lhe tomou as mos frias e frgeis. 
Lil abriu as plpebras finas e seus olhos mopes se esforaram para centrar a imagem sem a ajuda dos culos.
-Deborah -ainda que tivesse a voz dbil, conseguiu esboar um leve sorriso-. Nunca  teriam conseguido se no  tivessem me surpreendido. 
-Lhe feriram -olhou para Frank quando este saiu do dormitrio com um travesseiro-. Chamou uma ambulncia? 
- Ela no me deixou -com gentileza deslizou o travesseiro sob a cabea de Lil. 
-No era preciso. Odeio os hospitais. S  um galo na cabea -apertou a mo de Deborah. 
-Quer me ver louca de preocupao? -apoiou dois dedos em seu pulso para comprovar-lhe as pulsaes.
-Seu apartamento est em piores condies do que meu. 
- fcil substituir coisas. Mas, como ia substitu-la a voc? - beijou os dedos  rugosos-. Por favor. Faa-o por mim. 
-Est bem -suspirou, derrotada-. Deixarei que me examinem. Mas no ficarei no hospital. 
-Perfeito -se voltou, mas Gage j estava com o fone no ouvido. 
-No tem linha. 
-O apartamento da senhora Greenbaum  na frente do meu. 
Gage lhe fez um gesto com a cabea a Frank. 
-As chaves... -comeou Deborah. 
-Frank no precisa chaves -chegou para se colocar em joelhos ao seu lado-.Senhora Greenbaum, pode nos contar o que aconteceu?
-Eu o conheo, no  verdade? -o estudou, entrecerrando e abrindo os olhos at que poder foc-lo-. Ontem  noite veio pegar Deborah vestido com um smoking. Sabe 
beijar. 
-Obrigado. 
-Voc  o que est forrado de dinheiro, no? 
-Isso  -apesar do galo na cabea, a mente parecia funcionar  bem. 
-Ela gostou das  rosas. Se derreteu toda... 
-Senhora Greenbaum, no tem que se esforar para nos unir.., j nos ocupamos disso. Conte-nos o que  passou com voc
- Fico contente em saber disso, os jovens de hoje perdem bastante tempo. 
-Senhora Greenbaum. 
- Certo. Certo. Tinha a lista de coisas que me pediu. Estava em seu dormitrio, procurando no guarda roupa. A propsito, muito organizado - disse a Gage-. A garota 
 muito bem educada. 
-Fico aliviado em saber. 
-Estava sacando o traje azul de riscas quando ouvi um rudo atrs de mim-fez uma careta, mais envergonhada do que comocionada-. Eu teria escutado algo se no tivesse 
ligado o rdio. Eu estava me virando quando algum me acertou na cabea.
Deborah baixou a cabea at apoi-la na mo de Lil. As emoes ferviam  em seu interior. Fria, terror, culpa.  uma mulher idosa, pensou enquanto lutava por manter 
o controle. Que classe de gente golpeia a uma mulher de setenta anos?. 
- Eu sinto muito- murmurou-Sinto tanto.
-No foi culpa sua. 
-Sim -levantou a cabea-. Tudo foi por minha culpa. Tudo. Sabia que estavam atrs de mim, e pedi para que viesse aqui. No pensei. No pensei. 
-Esta dizendo tolices. Foi a mim que golpearam, posso assegurar que estou furiosa. Se no me tivessem surpreendido, teria posto em prtica algumas de minhas aulas 
de karate. No se passaram tantos anos assim da poca que eu podia derrubar o senhor Greenbaum, e ainda estou em forma -levantou a vista quando entraram os enfermeiros-. 
Santa me do Cu! -adicionou com desagrado-. Agora sim estou em apuros.
Com o brao de Gage em torno dos ombros, Deborah se afastou enquanto Lil  dava ordens aos enfermeiros, queixando-se de cada coisa que faziam. Continuava resmungando 
quando a deitaram sobre a maca e  a levaram. 
-L vai uma mulher de fibra -comentou ele. 
- a melhor -quando sentiu as lgrimas ameaarem cair, mordeu os lbios-. No sei o que faria se... 
-Vai ficar bem. Tem o pulso forte e a mente despojada - apertou um ombro e se voltou para Frank-.  O que aconteceu? 
- No estava fechada quando cheguei -com o dedo apontou para a porta-. Usaram um p de cabra para for-la. Ao entrar  encontrei isso -indicou o caos da sala-. Dei 
uma olhada na casa toda antes de cham-lo. Encontrei senhora no quarto. Comeava a recuperar os sentidos. Tentou me golpear - sorriu para Deborah-.  uma anci dura 
na queda. A acalmei e depois os chamei -apertou os lbios. Teve uma poca  que no teria descartado arrancar a bolsa de uma anci, mas jamais tinha atingido a uma. 
Creio que no os encontrei por dez ou quinze minutos - fechou seus grandes punhos - Caso contrrio, no teriam sado daqui. 
-Quero que faa algumas coisas -Gage assentiu, voltou-se para Deborah e lhe tomou o rosto entre as mos-. Frank vai chamar a polcia -explicou, sabendo como funcionava 
a mente dela-. Por enquanto, porque no procura alguma coisa que possa precisar para amanh? 
-Vou ver o que consigo -aceitou porque precisava um momento a ss. No dormitrio, levou-se as mos  boca. Na destruio de seu andar tinha dio e uma organizao 
fria que conseguia que o ato fosse mais aterrorizador. 
Havia roupas rasgadas,  garrafas e frascos antigos que tinha colecionado ao longo dos anos estavam quebrados e achatados sobre montes de seda e algodo. Tinham destrudo 
sua cama e talhado palavras obscenas na escrivaninha com uma faca. Tinham despedaado todas as suas posses.
Ajoelhou-se e recolheu alguns pedaos de papel. Outrora tinha sido uma fotografia, uma de sua famlia que tinha guardado. 
Gage entrou em silncio. Passado um momento, ajoelhou  junto a ela e apoiou uma mo em seu ombro. 
-Deborah, deixa que eu te tire daqui. 
-No restou nada -apertou os lbios, decidida a no fazer que a voz soasse trmula-. Sei que so apenas objetos, mas no sobrou nada -devagar fechou os dedos em 
torno da fotografia-. Meus pais... -moveu a cabea, depois afundou o rosto no ombro dele. 
A fria que dominava Gage era uma chama intensa em seu peito. Abraou-a enquanto prometia a si mesmo que encontraria os homens que a tinham machucado daquele modo. 
-Eles pagaro por isso- afirmou- Eu juro.
-Sim, eles pagaro por isso -quando levantou a cabea, ele viu que a dor tinha se transformado em fria-. No importa o que eu tenha que fazer, vou encontr-los 
- jogou o cabelo para trs e levantou-. Se eles estavam pensado que conseguiriam me assustar com isto, vo ficar desiludidos jogou para o lado, com os ps, os restos 
de seu vestido vermelho preferido-. Vamos arrumar isso. 

Passaram horas na gruta da casa, comprovando dados, introduzindo mais. Quase no falaram. No era necessrio. Talvez, pela primeira vez, seus objetivos se fundiam 
e suas diferenas de pontos de vista j no pareceriam importar. 

Deborah tinha deixado de se amaldioar quando se deparava com um beco sem sada; ento retrocedia de forma meticulosa, com uma pacincia que no sabia que possua. 
Quando soou o telefone, nem sequer o escutou. Gage teve que pronunciar seu nome duas vezes antes de que sasse de seu transe concentrado. 
-Sim, o que? 
- para voc -estendeu o fone-. Jerry Bower.
Com o cenho franzido pela interrupo, aproximou-se. 
-Jerry. 
-Meus Deus, Deborah, voc est bem? 
-  Estou. Como sabia onde me encontrar? 
-Levo horas tentando localizar voc para saber como se sentia depois do que aconteceu ontem  noite. Por fim final decidi passar pela sua casa. Me deparei com a 
polcia e esse miservel de Wisner. Seu apartamento... 
-Eu sei. Eu no estava presente. 

-Graas a Deus. Que diabos est acontecendo, Deb? Supe-se que na Prefeitura devemos estar a par dessas coisas, mas me sinto como se boxeasse em meio a escurido. 
O prefeito vai estourar quando saber do ocorrido. O que vai falar com ele?
-Direi para que ele se concentre nos debates da prxima semana - esfregou a tmpora-. Eu j conheo qual  sua postura e ele conhece a minha. S vai conseguir se 
enlouquecer se tentar dar uma de juz.
-Olhe, trabalho para ele, mas voc  minha amiga. Talvez tenha. algo que eu possa fazer. 
-No  sei -observou as luzes que piscavam no mapa-. Algum me enviou uma mensagem, alta e clara, mas ainda no descobri como devolve-la. Pode dizer isto ao prefeito. 
Se  eu consegui desentranhar quem anda por trs de tudo, vai ganhar as eleies por maioria. 
-Suponho que tenha razo -aceitou Jerry pensativo-. Talvez essa seja a melhor maneira dele sair de  cima de voc.  Mas tenha cuidado, certo? 
-Sim  desligou o telefone, depois moveu o pescoo tentando  diminuir a rigidez.
-No me importaria em por um anncio de uma pgina no World para se tornar pblico nosso compromisso -disse Gage, olhando-a. 
Confusa, ela piscou. Depois soltou uma gargalhada. 
-Jerry? No seja bobo. Somos apenas amigos. 
-Mmm. 
Deborah sorriu, depois se aproximou para rodear sua cintura com os braos. 
-Neste momento me viria a calhar um de nossos beijos. 
-Suponho que ainda lhe resta algum -baixou a cabea. 
Quando seus lbios se encontraram, ela sentiu que a tenso desaparecia de seu corpo. Com um murmrio, acariciou-lhe as costas, relaxando os msculos tal como a boca 
dele a relaxava.

-Lamento interromper -Frank apareceu pelo tnel com uma bandeja na mo-. Mas como trabalham tanto... sorriu-. Imaginei que seria bom se alimentarem um pouco para 
renovar suas foras. 
-Obrigado -Deborah se afastou de Gage e cheirou o aroma-. Deus meu, que  isso? 
-Meu chile especial com costelas - piscou um olho-. Acredite, a manter desperta. 
-O cheiro  espetacular!

-Aproxime-se. Trouxe um duas cervejas, um garrafa com caf e uns pedaos de queijo. 
Deborah aproximou-se da  cadeira.
-Frank, voc  um homem entre homens -ele se ruborizou. Ela provou a comida, queimou sua lngua, sua garganta e  por fim seu estmago-. E isto -acrescentou com verdadeiro 
prazer-  um chile autntico. 
-Fico contente que goste -Frank moveu os ps-. Coloquei  senhora Greenbaum no quarto dourado -informou a Gage-. Pensei que ela iria gostar da cama com dossel e 
tudo aquilo. Levei um pouco de sopa de frango e a deixei vendo King Kong no vdeo. 
-Obrigada, Frank -Gage afundou a colher em seu prato de chile. 
-Chamem se precisarem de algo. 
- Fez que a trouxessem para c? -perguntou ela esperando que Frank se afastasse pelo tnel. 
-No estava gostando do hospital - encolheu de ombros-. Frank falou com o mdico. S tinha uma contuso leve, que  um milagre para algum de sua idade. Tem o corao 
forte como o de um elefante. O nico que precisa  tranqilidade e alguns mimos durante um tempo.
- Desse modo a trouxe para c. 
-No podia deix-la sozinha. 
-Te amo tanto -inclinou e  deu um beijo em seu rosto. 

Quando terminaram e regressaram para o trabalho, Deborah no pde deixar de pensar nele. Era um homem to complicado. Arrogante como o diabo quando lhe convinha, 
rude quando queria e to suave e sedutor quanto um poeta irlands quando tinha vontade. Dirigia um negcio multimilionrio. E durante a  noite percorria as ruas 
para encarregar-se de ladres, delinqentes e estupradores. Era o amante com  que sonhavam todas as mulheres. Romntico, ertico, mas slido e confivel como o granito. 
No entanto, em seu interior levava algo intangvel que lhe permitia desvanecer-se como fumaa e deslizar como uma sombra pela noite.
Moveu a cabea. Ainda no estava preparada para pensar naquele aspecto dele. 
Endireitou os ombros e multiplicou a concentrao. Quando os nmeros se embaralhavam na sua frente, bebia mais um gole de caf. J tinha localizado mais meia dzia 
de nomes que tinha  certeza que figurariam em certificados de bitos.

Parecia intil. Mas at que se esgotasse aquele caminho, ela no dispunha de outro. Por isso continuou tentando. De repente se deteve com a vista fixa na tela. Com 
cautela, retrocedeu duas pginas. Conteve um sorriso, temerosa de acreditar que por fim  tinha conseguido alguma coisa. Depois de mais cinco minutos de trabalho 
meticuloso, chamou a Gage. 
-Acredito que  tenha encontrado algo. 
Ele tambm, mas decidiu guardar a informao. 
- O que?
- Este nmero -quando ele se inclinou sobre seu ombro, Deborah o assinalou na tela com um dedo-. Est se misturando com os nmero da corporao, com os nmeros da 
receita e os demais nmeros identificativos da empresa - quando Gage lhe massageou os ombros, ela se reclinou agradecida-. A propsito, ao que parece, se trata de 
uma empresa em bancarrota. Est fechada dezoito meses. Agora olhe isto -adiantou uma folha na tela-. Uma empresa diferente, com localizao diferente, com nomes 
e nmeros diferente. Com exceo.., deste  circulou o nmero no monitor-.  Aqui todos os dados so diferentes, mas o nmero  o mesmo. E aqui -voltou a mostrar 
uma pgina depois de outra-.  o nmero da empresa em um, o do ramo da empresa em outro, aqui o nmero da fazenda diferente, e aqui um outro nmero. 
-O nmero da segurana social -murmurou Gage. 
- O que? 
-Nove dgitos. Diria que se trata do nmero da segurana social. -se dirigiu com rapidez ao painel de controle
- Que vais fazer? 
-Averiguar a quem pertence. 
-Como? -a irritou que no parecesse to entusiasmado a respeito de seu achado. Seus olhos estavam a ponto de saltarem da rbitas e ele no lhe dava nem uma palmadinhas 
nas costas!- Como vai fazer? 
-Parece que vale a pena recorrer  fonte principal -a tela comeou a piscar. 
-E qual ? 
-Receita. 
-Recei... -se levantou num salto-. Quer dizer que tem acesso aos computadores da Receita Federal? 
-Acho que podemos dizer que  isso  achava-se concentrado no painel-. Quase o tenho. 
- ilegal. Um delito federal.
-Mmm. Me recomenda um bom advogado? 
-No  uma brincadeira -juntou as mos. 

-No -mas sorriu ao seguir a informao na tela-. Muito bem, j estamos dentro -a olhou. Em sua cara viu com clareza a guerra interna que mantinha-. Se quiser pode 
ir l para cima at que eu termine. 
-Isso merece muita importncia. Sei o que est fazendo. Isso faz de mim cmplice. -fechou os olhos e viu a Lil Brown estendida sobre seu sof rompido-. Siga em frente 
-apoiou uma mo no brao dele-. Estamos juntos nisto -Gage introduziu os nmeros que Deborah tinha encontrado, apertou alguns teclas e esperou. Um nome piscou na 
tela-. Oh, Deus -fincou os dedos em seu ombro. 
Nesse momento ele parecia de pedra, sem mover-se, quase sem respirar
-Tucker Fields -murmurou-. Filho de puta
Ento se moveu com tanta agilidade que Deborah perdeu o equilbrio. Com fora nascida do desespero, o agarrou. 
-No. No pode -viu que seus olhos ardiam, tal como os tinha visto por trs da mscara. Estavam cheios de fria e de determinao assassina-. Sei o que quer -afirmou-. 
Quer ir procur-lo agora mesmo. Quer despeda-lo com suas prprias mos. Mas no pode. No  o modo. 
-Vou mat-lo -exps com voz gelada-. Entenda. Nada vai me deter. 
Deborah soube que, se o deixasse sair naquele momento o perderia.
-E dai se conseguir? Isso no vai trazer Jack de volta. No vai modificar o que aconteceu com voc. Nem vai acabar com aquilo que ambos iniciaram aquela noite nos 
ancoradouros. Se matar Fields, algum o substituir, e o negcio continuar. Precisamos romper a espinha dorsal da organizao, Gage, expor tudo  luz pblica para 
que todo mundo fique sabendo. Se Fields  o responsvel... 
-Se? 
Ela respirou fundo, sem solt-lo. 
-Ainda no dispomos de provas suficientes. Posso construir um caso se me der tempo para captur-los a todos. 
-Deus meu, Deborah, vai me fazer acreditar que vai lev-lo diante dos tribunais? Um homem com tanto poder? Ele vai escorrer por entre seus dedos como se fosse areia. 
Quando comear a investigao ele saber se proteger.

-Ento ser voc que deve realizar a investigao e eu o distrairei. Vou faze-lo crer que sigo uma pista equivocada-falou com rapidez, desesperada por convenc-lo 
e salvar ambos-. Farei que acredite que sigo uma pista errada. Gage, devemos ter certeza.  Temos que est seguros.Tem que  compreender. Se voc for atrs dele agora, 
tudo aquilo pelo qual trabalhou, tudo  que iniciamos juntos, ficar destrudo. 
-Tentou matar voc -lhe tomou o rosto entre as mos-. No entende que nada, at mesmo a morte de Jack, no selaria com mais certeza sua pena de morte?
-Estou aqui, com voc agarrou suas mos-.  isso que importa. Temos mais trabalho que fazer para demonstrar no que Fields est envolvido, para averiguar at onde 
chega a linha de corrupo. Receber justia, Gage, lhe prometo.
Devagar, ele relaxou. Deborah tinha razo... ao menos em alguns aspectos. Matar a Fields com suas prprias mos teria sido satisfatrio, mas no fecharia o trabalho 
que ele tinha comeado. Podia esperar. Tinha que desenterrar outra pedra, e s dispunha de uma semana para consegu-lo. 
-Certo -viu como ela recuperava a cor-. No queria assustar voc. 

-Espero que nunca o queiras, por que me deu uma belo susto -conseguiu esboar um sorriso trmula-. Como j quebramos uma lei federal, por que no damos um passo 
a mais e estudamos as declaraes da renda do prefeito desses ltimos anos? -em poucos minutos  se encontrava sentada junto a Gage ante a consola-. Quinhentos sessenta 
e dois mil dlares -murmurou ao ler os rendimentos declarados de Fields do ltimo ano-. Supera um pouco o salrio habitual de um prefeito de Urbana.

-No acredito que ele seria to estpido de declar-lo -Gage retrocedeu um ano-. Imagino que ter o dobro em alguma conta na Sua. 
-Pessoalmente, jamais fui com a cara dele-comentou Deborah-. Mas sempre o respeitei -se ps de p para caminhar-. Quando penso no cargo que ostentou, em linha direta 
com a polcia, com o escritrio do promotor, com empresrios. Nada passa em Urbana sem que ele  saiba. Quantos servidores pblicos estaro em seu contra-cheque, 
quantos policias,  ou juzes? 
-Acredita que tem tudo controlado se afastou dos equipamentos-. O que me diz de Bower?
-Jerry? -suspirou e esfregou o pescoo tenso-. Leal at a medula, e com aspiraes polticas prprias. Podia deixar passar algumas maquinaes, mas nada to grande 
como isto. Fields foi o bastante inteligente para eleger  algum jovem e ambicioso, com um bom histrico e uma reputao sem falhas -moveu a cabea-. Sinto me mal 
por no deixa-lo a par de tudo o que est acontecendo. 
-Mitchell?
-No, apostaria minha vida por Mitch. Est a muito tempo na promotoria. Jamais foi um admirador de Fields, mas respeita o cargo. Segue as regras porque acredita 
nelas. Inclusive paga as multas de estacionamento. O que est fazendo?
-No far mal confirmar. 
Para consternao de Deborah, sacou as declaraes de Jerry e depois as de Mitchell. Ao no encontrar nada anormal, dirigiu-se a outro equipamento. 
-Podemos revisar as contas bancrias. Precisamos uma lista de pessoas que trabalha na prefeitura, na polcia, na promotoria -a olhou-. Sua cabea di. 
-Um pouco -esfregou as tmporas. 
-Trabalhou muito -apagou os computadores. 
-Estou bem. Temos muito que fazer
-J fizemos muito  amaldioou-se por pression-la tanto-. Um par de horas de descanso no alterar nada -lhe rodeou a cintura com o brao-. O que acha de uma banho 
quente e um cochilo?
-Mmm -apoiou a cabea em seu ombro e se puseram a andar pelo tnel-. Me soa estupendo. 
-E uma massagem de costas. 
-Sim. Oh, sim. 
-E aquela massagem nos ps que lhe devo faz  algum tempo. 
-Por que no? -sorriu. 
Deborah estava meio adormecida quando atravessaram o painel do dormitrio de Gage. Conteve um bocejo e observou as caixas que atestavam a cama. 
-Que  tudo isso?
-Neste momento, s tem minha camisa para vestir. E ainda que eu goste...-baixou um dedo pelos botes-... e muito, pensei que voc gostaria de dispor de algo mais. 
Dei  uma lista a Frank.  muito eficiente. 
-Frank? Mas  domingo. A metade das lojas esto fechadas -se levou a mo ao estmago-. Meu Deus, ele no as roubou no ? 
-No o creio nisso -riu e a tomou em braos-. Como vou viver com uma mulher de uma honestidade to escrupulosa? No, esto pagas, juro. Nada to difcil, s teve 
que fazer alguns telefonemas. Ver que as caixas so de Athena. 
Ela assentiu. Era umas das grandes lojas exclusivas da cidade. Ento  compreendeu. 
- o proprietrio
- Culpado -a beijou-. O que no gostar eu posso devolver.. Mas acho que conheo seu estilo e seu nmero 
-No tinha que fazer isso. 
-No foi uma tentativa de usurpar tua independncia, advogada. 
-No -respondeu um pouco incomodada-. Mas... 
-Seja prtica. Qual seria a impresso que daria a seus companheiros se aparecesse em seu escritrio com minhas calas? - afrouxou o cinto e a cala deslizou at 
o cho. 
-Seria um escndalo -admitiu com um sorriso quando ele a ergueu em braos e a depositou junto as roupas. 
-E com minha camisa -comeou a desabotoa-la. 
-Ridculo. Tem razo, foi muito prtico - imobilizou suas mos antes que pudesse distra-la-. Eu lhe agradeo. Mas no me parece certo que compre roupas para mim.
- Podes pagar. Ao longo dos prximos setenta anos - ergueu o queixo antes que pudesse protestar-. Deborah, tenho mais dinheiro do que pode precisar um homem. Voc 
est disposta a compartilhar meus problemas, ento,  lgico que quero que compartilhe minha fortuna. 
-No quero que pense que o dinheiro seja importante para mim, que faa alguma diferena sobre os sentimentos que tenho por voc. 

-Sabe? -a estudou pensativo-, no pensei que lhe pudesse ocorrer algo to estpido -quando sorriu, ela suspirou. 
- estpido. Amo voc, apesar de ser dono de hotis, de edifcios e de grandes lojas. E se no abrir uma dessas caixas, vou-me ficar louca.
-Pois ento mantenha sua sensatez enquanto eu preparo seu banho.
Ela escolheu uma a esmo e tirou a tampa. Sob o envoltrio, encontrou uma camisola longa e fina de tom azul. 
-Ora -a levantou e notou que as costas chegava at embaixo da cintura-. Frank tem olho para a lingerie. Fico me perguntando que diro no escritrio se eu aparecer 
l vestida assim. 
Incapaz de resistir, tirou a camisa e deixou que a seda fresca deslizasse por sua cabea e seus ombros. Passou as mos pelos quadris e comprovou que tinha ficado 
perfeito. Super feliz, voltou-se para o espelho no momento em que Gage regressava. 
Ele no foi capaz de falar, muito menos de desviar o olhar de cima dela. Os olhos de Deborah eram escuros como a meia-noite e brilhavam com um secreto prazer feminino
Sorriu devagar. Existiria alguma mulher viva nesse mundo que no sonhasse com o homem que amava a olhando com uma nsia to manifesta? Sedutora, inclinou a cabea 
e passou os dedos pelo centro do camisola observando como Gage seguia seus movimentos. 
-O que acha? 
-Creio que Frank merece um aumento. 
Enquanto Deborah ria, Gage se aproximou.
 
Captulo 12



Durante trs dias e trs noites seguidas, trabalharam juntos. Pea a pea foram reunindo um caso contra Tucker Fields. No escritrio, Deborah seguia caminhos que 
sabia que no a conduziriam a nenhuma parte, centrada em deixar uma pista falsa. 
Enquanto trabalhava, seguia convivendo com sua batalha particular de tica contra instinto. 
Cada noite, Gage saa da cama, vestia-se de negro e percorria as ruas. No falavam disso. Percebia que as vezes Deborah ficava desperta, nervosa e ansiosa at que 
regressasse antes do amanhecer, nunca lhe ofereceu desculpas. No poderia lhe dar nenhuma. 
A imprensa seguia falando das faanhas de Nmesis. Essas atividades secretas e noturnas se interpunham entre eles como um muro slido e silencioso que nenhum dos 
dois podia colocar a baixo. 
Ela o entendia mas no podia concordar com o que ele fazia.
Ele a entendia mas no podia ceder. 
Ainda que trabalhassem na concluso de um objetivo em comum, suas crenas individuais os obrigavam a se colocarem um contra o outro. 
Quando vai terminar?, perguntou ela no escritrio. Quando vai parar? Quanto tempo poderiam continuar fingindo que sua relao, seu futuro, podiam ser normais?. 
Com um suspirou teve que reconhecer que ele no fingia. Mas ela sim. 
-O'Roarke -Mitchell plantou uma pasta sobre sua mesa-. A cidade no lhe paga um salrio espetacular para que sonhe acordada. 
Deborah olhou a pasta que acabava de aterisar sobre as demais. 
-No creio que sirva de muita coisa recordar voc que os casos que tenho j bateram todos os recordes da cidade. 
-Igual que o nvel de delinqncia -como parecia cansada, dirigiu-se  cafeteira para servir-lhe uma xcara-. Talvez se Nmesis descansasse um pouco no estaramos 
to pressionados.
-Isso pareceu um elogio -franziu o cenho enquanto bebia um gole de caf. 
-S exponho os fatos. No tenho que aprovar seus mtodos para que goste dos resultados. 

-Fala srio? -o olhou surpresa. 
-Esse tal que queria copiar o Jakc- estripador j tinha quatro mortes e ia fazer sua quinta vtima quando Nmesis o encontrou.  difcil queixar-se quando algum, 
inclusive um mascarado, nos entrega  um demente assim e salva a vida de uma jovem de dezoito anos. Isso no significa que v comprar-me uma camiseta e  me unir ao 
clube de admiradores -sacou um charuto e ps a brincar com ele entre os dedos-. E ento, tem algum progresso no seu caso favorito?
-Ainda tenho uma semana- encolheu os ombros em um gesto evasivo. 
- obstinada, O'Roarke. Eu gosto disso.
-Isso sim que foi um elogio -ergueu as sobrancelhas. 
-Que no suba  cabea. O prefeito segue no muito contente com voc... e as enquetes mostram que o povo o quer. Se amanh nos debates derrotar a Tarrington, poder 
encontrar dificuldades no caminho at as prximas eleies. 
-O prefeito no me preocupa. 
-Como queira. Wisner segue escrevendo sobre ti -ergueu uma mo antes de que ela pudesse rugir-. Estou tentando conter Fields, mas se conseguisses manter seu nome 
fora das manchetes...
-Sim, fui uma estpida fazendo que destroassem meu apartamento. 
-Certo, certo. -teve a graa de ruborizar-. Todos lamentamos isso, mas se pudesse tratar de se manter afastada dos problemas por um tempo, faria que fosse mais fcil 
para todos.
-Vou me acorrentar a mesa -soltou com os dentes apertados-. E quanto tiver a oportunidade, vou  a dar um pontap em Wisner. 
-Entre na fila -Mitchell sorriu - Comunica-me se precisar de alguns dlares adicionais antes que te paguem o seguro. 
-Graas, mas eu me arrumo -olhou as pastas-. Alm do que, com tudo isto, quem precisa de um apartamento?
Quando a deixou sozinha, Deborah abriu a pasta do novo caso. E apoiou a cabea entre as mos. No era uma ironia do destino que lhe tivessem atribudo o julgamento 
do Estripador do East End? Sua principal testemunha, seu amante, era o homem com quem nem sequer podia falar do assunto.

As sete, Gage a esperava num canto calmo de um restaurante francs colado ao Parque da Cidade. Sabia que o caso se aproximava-se de seu fim e que, quando este chegasse, 
teria que lhe explicar a Deborah por que no tinha confiado nela em todos os seus detalhes. 
Se sentiria maluca e furiosa, e com razo. Mas a preferia dessa maneira, e viva. Era bem consciente do dificuldades que tinham sido para ela o ltimos dias. Se tivesse 
escolha, teria dado todo, includa sua conscincia, para mant-la feliz. 
Mas no a tinha nem a tinha tido desde que saira do coma. 
No poderia fazer nada salvo dizer e demonstrar quanto a amava. E esperar que entre as poderosas e opostas foras que os moviam pudesse existir um compromisso. 
A viu chegar, esbelta e adorvel com um traje da cor  safira. Perguntou-se se embaixo levaria lingerie de seda. Experimentou o impulso de averiguar.
- Lamento o atraso -comeou, mas antes de que o garom afastasse a cadeira, Gage se levantou para aproximar e  lhe dar um beijo pouco discreto e nem um pouco rpido. 
Antes de que a soltasse, os clientes mais prximos os olhavam com curiosidade e inveja.  A deixou com as plpebras pesadas e o corpo vibrando-. Me... alegro muito 
de no ter chegado a tempo. 
-Trabalhou at tarde -tinha olheiras, algo que odiava, porque sabia que ele era o causador. 
-Sim -ainda sem ar, sentou-se-. Justo antes das cinco me entregaram outro caso. 
-Algo interessante? 
-O  Estripador do East End -o olhou sem pestanejar. 
-Compreendo
- Compreende mesmo, Gage? Eu no estou to segura -apartou a mo da dele e a apoiou no colo-. Pensei em recusa-lo, mas, que razo teria podido alegar? 
-No h nenhuma, Deborah. Eu o detive, mas  seu trabalho encarregar-se de que ele  pague por seus delitos. Uma coisa no tem que interferir com a outra. 
-Queria estar segura disso. Uma parte de mim considera voc  como um vingador pblico, a outra como um heri. 
-E a verdade est em alguma parte intermediaria -voltou a lhe tomar a mo-. Sem importar onde me encontre, amo voc. 
-O sei -lhe apertou os dedos-. Sei-o, mas, Gage... -calou quando o garom levou o champanhe que ele tinha pedido enquanto a esperava.
-A bebida dos deuses -afirmou o garom com um forte acento francs-. Para uma celebrao, n'est-ce pas? Uma bela mulher. Uma bebida deliciosa -ante a aprovao de 
Gage, desarrolhou a garrafa-. Monsieur o provar? -lhe serviu uma pequena quantidade. 
-Excelente -murmurou com os olhos fincados em Deborah. 
-Mais, oui -lhes encheu as taas-. Monsieur tem um gosto extraordinrio. 
Quando o garom foi embora com uma leve inclinao de cabea, ela riu  contra a vontade e encostou sua taa na de Gage. 
-Tambm  dono deste lugar? 
-No. Gostaria de t-lo? 
Ainda que o negasse com a cabea, teve que rir. 
-Estamos celebrando algo?
-Sim. Esta noite. E pelo amanh -sacou um pequeno estojo de veludo do bolso e lhe ofereceu. Quando ela s o olhou, Gage tenciono os dedos, dominado pelo pnico, 
ainda que manteve a voz rpida-. Voc me pediu para que eu casasse com voc, mas imaginei que o privilgio teria que ser meu. 
Deborah abriu o estojo.  luz de vela, a safira central brilhava em um azul profundo e denso. Rodeando a pedra quadrada tinha uma carreira de diamantes de um branco 
neve. Cintilaram em glria no engaste de ouro claro. 
- extraordinrio. 
Tinha eleito as pedras em pessoa, mas tinha esperado ver prazer nos olhos dela, no medo. Ele tambm no tinha esperado sentir temor.
- Tem  dvidas? 
Ela o olhou e falou com clareza. 
-No sobre o que sinto por voc. Isso nunca. Mas tenho medo, Gage. Tentei fingir que no, mas no posso. No s pelo que faz, mas sim porque isso pode tirar voc 
da minha vida. 
No queria fazer promessas que fossem impossveis de cumprir. 
-Por algum motivo sa do coma assim. No posso oferecer a voc lgica e dados a respeito, Deborah. S sensaes e instintos. Se eu der as costas ao que devo fazer, 
voltaria a morrer. 
-Acredita nisso? -o protesto automtico morreu em sua garganta. 
-Eu sei. 

Como podia olh-lo nos olhos e no o ver? Quantas vezes o tinha olhado nos olhos e visto.., algo? Diferente, especial, aterrorizador. Sabia que Gage era de carne 
e osso, mas tambm era mais. No seria possvel modificar isso. E pela primeira vez se deu conta de que tambm no o desejava.
-Me apaixonei por voc duas vezes. Me apaixonei por ambas facetas -contemplou o anel, tirou-o do estojo e em sua mo resplandeceu como o relmpago-. At ento, estava 
segura de meu caminho, do que queria e precisava, daquilo pelo que me esforava. Estava convencida de que quando me apaixonasse seria por um homem calmo e caseiro 
lhe estendeu o anel-. Me equivoquei. No voltou apenas para lutar pela justia, Gage. Voltou para mim -sorriu e estendeu a mo-. Graas a Deus. 
Ele deslizou o anel em seu dedo. 
-Quero lev-la para casa -no momento que lhe beijava os dedos, o garom voltou junto  mesa. 
-Eu sabia. Henri nunca se equivoca - encheu as taas com grande cerimnia-. Escolheram minha mesa, e escolheram bem. Devem deixar o cardpio por minha conta. Farei 
que desfrutem de uma noite que jamais esquecero. Ser uma honra. Ah, monsieur,  voc um homem afortunado -tomou a mo de Deborah e lhe plantou um beijo ruidoso. 
Ela ainda ria enquanto se afastava, mas ao olhar a Gage soube que tinha a ateno em outro lugar. 
-Que houve? 
-Fields -ergueu a taa, mas seus olhos seguiram o avano do prefeito pela sala-. Acaba de entrar com Arlo Stuart e outras duas personalidades, com seu amigo Bower 
na retaguarda. 
Tensa, Deborah girou a cabea. Dirigiam-se para uma mesa para oito. Reconheceu a uma atriz importante e o presidente de uma fbrica de automveis. 
-Reunio de poder -murmurou.
-Tem representantes no mundo do teatro, na indstria e nas finanas. Antes de que acabe a noitada, aparecer algum para tirar algumas fotos ...inesperadamente. 

-No importa -cobriu a mo de Gage-. Dentro de uma semana, no importar. 
Em menos tempo, pensou, mas assentiu. 
- Stuart se aproxima. 
-Ora -Stuart plantou uma mo no ombro de Gage-. Que agradvel coincidncia. Est radiante como sempre, senhorita O'Roarke. 
-Obrigada.
-Estupendo restaurante. Oferecem os melhores scargots da cidade - sorriu para os dois-. Odeio jantar enquanto se fala de negcios e poltica. Mas elegeram a combinao 
perfeita, champanhe e luz de velas -sua aguda mirada posou na mo direita de Deborah-. Bonita aliana - sorriu para Gage-. Uma declarao? 
-Nos surpreendeu em pleno ato, Arlo. 
-Fico contente de saber. Passe a lua de mel em um de meu hotis - piscou um olho para ela-. A convite da casa -sem deixar de sorrir, fez  um sinal a Fields. - Penso 
que no faria dano a imagem do prefeito ser um dos primeiros em felicitar o principal homem de negcios da cidade e a promotora mais valorizada. 
-Gage, Deborah -ainda que o sorriso de Fields fosse ampla, seu gesto foi rgido-. Alegra-me v-los. Se ainda no pediram, talvez gostariam de se unir a ns.
-Esta noite no -indicou Stuart antes de que Gage pudesse contestar-. Temos a um casal novo, Tuck. No querem desperdiar a noite falando de estratgias de campanha. 
-Felicidades -Fields observou o anel na mo de Deborah, sem deixar de sorrir. - Eu no tinha idia. 
-Gostaria de pensar que fomos ns quem os unimos -sempre exuberante, Stuart passou um brao pelo ombro de Fields-. Depois de tudo, conheceram-se em meu hotel durante 
a festa para arrecadar fundos para sua campanha. 
-Creio que isso nos converte numa famlia grande e feliz -Fields olhou a Gage. Precisava o apoio de Guthrie-. Vai se casar com uma mulher estupenda, uma advogada 
muito dura. Deu-me algumas dores de cabea, mas admiro sua integridade. 
-Eu tambm -respondeu Gage com voz distante mas educada.

-Eu admirei mais do que sua integridade -riu Stuart, piscando um olho para ela-. No se ofenda. Agora voltaremos a falar de poltica e os deixaremos a ss. 
-Bastardo -murmurou Deborah quando se afastaram. Ergueu a taa de champanhe-. Estava tentando conquist-lo. 
-No -Gage fez tocar sua taa com a dela-. Aos dois -acima do ombro, viu o instante em que Jerry Bower se inteirou da notcia. O outro se  sobressaltou e os olhou. 
Gage quase pode ouvi-lo suspirar enquanto contemplava as costas de Deborah. 
-Estou impaciente por crucificar-lo. 
Tinha tal veneno em sua voz, que ele lhe apertou a mo. 
-Agente. Falta pouco.

Era to linda. Gage demorou na cama s para olh-la. Sabia que dormia profundamente, saciada pelo amor, exausta pela paixo. Queria  se certificar de que dormiria 
calma at a manh. 
Odiava saber que tinha ocasies nas quais Deborah acordava no meio da noite para descobrir que no estava ao seu lado. Mas essa noite, quando quase sentia o perigo 
gotejar por seu sangue, precisava ter a certeza de que dormiria segura. 
Levantou em silncio para vestir-se. Tranqilizou-o ouvir sua respirao profunda e serena. Ao luar, viu seu prprio reflexo no espelho. No, no  um reflexo, 
pensou.  uma sombra. 
Depois de calou as luvas negras, abriu uma gaveta. Dentro tinha um arma regulamentar da polcia, do calibre 38, cujo peso lhe era to familiar como o aperto de 
mos de um irmo. No entanto, no a tinha usado desde a noite dos ancoradouros, quatro anos atrs
Nunca  tinha precisado. 
Mas naquela noite sentia essa necessidade. J no questionava seu instinto. Introduziu o arma em seu coldre e  o acoplou s costas,  altura da cintura.. 
Abriu o painel e fez uma pausa. Queria rever como dormia. Podia sentir o perigo, amargo em sua lngua, na sua garganta. Seu nico consolo era saber que ela no seria 
afetada por nada. Voltarei, prometeu a si mesmo e a Deborah. O destino no podia acertar  um golpe mortal duas vezes em uma s vida. 
Adentrou-se na escurido. 

Passada uma hora, soou o telefone, tirando  Deborah de seu sonho. Por costume, tateou para responder, murmurando o nome de  Gage enquanto levantava o fone.
-Al. 
-Senhorita.
O som da voz de Montega a acordou no ato. 
- O que quer? 
-O temos. A armadilha foi muito fcil. 
-O que? -assustada, estendeu a mo para Gage. Mas mesmo antes que tocasse os lenis vazios, soube. O terror  fez que  sua voz sasse trmula-. A  que se refere? 
-Est vivo. No momento, queremos mant-lo vivo. Se deseja o mesmo, vir, depressa e sozinha.Faremos um troca por todos os papis e pastas. Por tudo o que tem. 
Levou a mo  boca, tratando de ganhar tempo at que pudesse pensar. 
-Matar os dois.
- possvel. Mas  certo que matarei se no aparecer. H um armazm no trezentos vinte e cinco de East River Drive. Vou lhe dar trinta minutos para chegar. Um minuto 
a mais e  eu cortarei  sua mo direita. 
-Irei -sentiu  que seu estmago revolvia  -. No o machuque. Por favor, deixe que fale com ele primeiro... 
Mas a comunicao foi cortada. 
Levantou-se de um salto da cama. Vestiu  um roupo e correu ao dormitrio de Frank. Quando com uma olhada viu que no tinha ningum, avanou pelo corredor para encontrar 
 senhora Greenbaum sentada na cama, vendo um filme antigo com uma lata de amendoins na mo. 
-Frank. Onde est?
-Foi  loja de vdeo que est aberta toda a noite e comprar uma pizza. Decidimos celebrar um festival de filmes dos Irmos Marx.  O que aconteceu? -mas Deborah  
tampou o rosto com as mos. Tinha que pensar-. Voltar em vinte minutos. 
-Ser tarde demais -baixou as mos. No podia perder mais tempo -. Diga-lhe que recebi um telefonema e que tive que ir. Diga-lhe que tem a ver com Gage. 

-Ests metida em problemas. Conte-me. 
-S lhe diga isso quando chegar, por favor. Estou indo ao trezentos vinte e cinco de East River Drive. 
-No pode -Lil comeou a levantar-se da cama-. No pode ir sozinha a esta hora. 
-Tenho de faz-lo. Diga-lhe a Frank que tive que ir -tomou as mos de Lil-.  um caso de vida ou morte.
-Chamaremos  polcia... 
-No. No, s Frank. Diga-lhe tudo o que lhe contei e  hora que eu sai. Prometa-me. 
-Est certo, mas... 
Mas Deborah saiu correndo. 
Demorou vrios minutos preciosos para se vestir e para guardar os papis na valise. Ao chegar no carro tinha as mos suadas. Em sua mente, como um cntico, repetia 
o nome de Gage enquanto avanava pelas ruas. A nusea no a abandonou enquanto acompanhava o passar dos  minutos no relgio.


Como um fantasma, Nmesis observava a troca de droga por dinheiro. Milhares de notas por milhares de quilos de dor. O comprador abriu uma bolsa com uma navalha, 
extraiu um pouco de p branco e o introduziu num frasco para comprovar sua pureza. O vendedor repassou feixes de notas. 
Quando ambos ficaram satisfeitos, o trato se fechou. Falaram pouco. No foi uma transao amistosa. 
Viu o comprador levar seu miservel produto. Ainda que Nmesis soubesse  que voltaria a encontrar a esse homem, lamentou. Se no tivesse atrs de uma presa maior, 
teria lhe dado um grande prazer jogar tanto o comerciante quanto todo o produto dentro do rio.
Ouviu alguns passos. A acstica era boa no edifcio de madeira de teto alto. Tinha caixas empilhadas junto s paredes e em prateleiras de metal. Uma elevadora mecnica 
estava estacionada muita prxima da garagem de alumnio. Ainda que o cheiro a serragem impregnava a atmosfera, as serras estavam em silncio.
Com uma fria que lhe fez ferver o sangue, viu entrar a Montega. 
-Este foi nosso primeiro prmio da noite -se dirigiu para a valise com o dinheiro e afastou  seus homens. Mas esperamos algo melhor -baixou a tampa e a fechou-. 
Quando chegar, deixe-a passar. 
Ao incorporar-se, to insubstancial como o ar que respirava, Nmesis fechou as mos.  agora, pensou. Esta noite. A parte dele que almejava vingana ansiava 
sacar a arma e disparar. A sangue frio. 
Mas tinha o sangue muito quente para uma soluo to rpida e annima. Sorriu num gesto carente de humor. Tinha maneiras melhores. Mais sensatas. 
Ao abrir a boca para falar, ouviu vozes, o som de ps correndo sobre o solo de cimento. O corao se paralisou. 
A tinha deixado dormindo.
Enquanto se lhe gelava o sangue, o suor do terror lhe escorreu pela  testa. O perigo que tinha sentia no era por ele. Santo Deus, no era por ele, seno por ela. 
Viu  Deborah entrar no lugar, escoltada por dois guardas armados. Durante um instante oscilou entre o mundo de sombras de Nmesis e o dela. 
-Onde ele est? - enfrentou a Montega como uma tigresa, com os olhos cintilantes-. Se o machucou  ,  um homem morto. Juro.
-Magnfico -com uma inclinao da cabea, Montega aplaudiu-. Uma mulher apaixonada. 
No havia espao para temer por sua vida naquele momento. Todo seu temor era por Gage.
-Quero v-lo. 
-Chegou a tempo, mas, trouxe o que lhe pedi? 
-Leve para o inferno com voc -agitou a valise diante de sua cara. 
Montega  passou a valise a um capanga e, com um gesto de cabea, fez que o outro a levasse a um quarto contguo.
-Pacincia -ergueu a mo-. Quer se sentar? 
-No. J tem o que queria, agora me de o que vim procurar. 
A porta voltou a abrir-se. Ela arregalou os olhos assombrada. 
-Jerry? -o alvio se misturou com a surpresa. No  Gage, pensou. Nunca  tinham sido. Tinha sido Jerry. Dirigiu-se a ele para tomar-lhe as mos-. Sinto, sinto 
muito que passou por isto. No  tinha idia. 
-Eu sei - apertou suas mos-. Sabia que viria. Contava com isso. 
- Talvez eu pudesse ter ajudado aos dois. 
-J o fez -lhe passou um brao pelos ombros e olhou a Montega-. Percebo que o trato ocorreu sem maiores problemas.
-Como espervamos, senhor Bower. 
-Excelente de algumas palmadinhas com gesto amistoso no ombro de Deborah - Temos que conversar.
Ela sentiu  quando o sangue fugiu de seu rosto.
-Voc... no foi em nenhum momento um refm, certo? 
Ele permitiu que  retrocedesse, inclusive indicou aos guardas que no interviessem. Deborah no tinha nenhum lugar para ir, e ele se sentia generoso. 
-No, e por desgraa voc tambm no. Lamento. 
-No acredito em voc  em estado de choque, levou as mos a cabea-. Sabia sobre o apoio cego que tinha por Fields, mas isto... em nome de Deus, Jerry, no pode 
fazer parte disto. Sabe o que fazem? As drogas, os assassinatos? No se trata de poltica,  uma loucura.
-Todo  poltica, Deb -sorriu-. A minha. E voc acreditou mesmo que um fantoche  como Fields estava por trs da organizao? -riu e pediu que trouxessem duas cadeiras-. 
Acreditou. E tudo porque eu deixei um rastro impecvel de migalhas para voc e qualquer um que decidisse pesquisar -a obrigou a sentar. 
-Voc? -o olhou mareada-. Est dizendo que voc est no comando?  E que Fields...? 
-Nada mais  do que um peo. H mais de seis anos tenho estado a sua sombra... apertando todas as teclas. Fields no seria capaz de dirigir uma loja de guloseimas, 
muito menos uma cidade. Ou um estado  sentou se na frente dela-. Como far dentro de cinco anos. 
No tinha medo. O medo no era capaz de atravessar sua estupefao. Era um homem a quem conhecia fazia dois anos, um que tinha considerado um amigo, honesto e at 
um pouco fraco.
-Como?
-Dinheiro, poder, crebro -enumerou com os dedos-. Eu tinha o crebro. Fields contribuiu com o poder. Acredite,  ele tem estado mais do que disposto a deixar os 
detalhes a meu encargo. Prepara discursos estupendos, sabe que quais bundas deve beijar e quais deve chutar. Do resto me ocupo eu, e foi assim desde que me destinaram 
a seu gabinete faz seis anos. 
-Quem? 
- aguda -sem deixar de sorrir, assentiu admirado-. Arlo Stuart... ele  o dinheiro. O problema surgiu porque seus negcios, os legais, no lhe reportavam tantos 
benefcios como desejava. Sendo um homem de negcios, descobriu outra maneira de aumentar as margens. 
-As drogas. 
-Correto outra vez -cruzou as pernas e olhou quase com desinteresse a hora. Tinha tempo-.  o chefe na Costa Oeste faz doze anos. E  rentvel. Eu fui ascendendo 
na organizao. Ele gostava de pessoas com iniciativa. Eu possua o conhecimento, legal e poltico, e ele tinha a Fields.
Perguntas, ordenou-se Deborah. Devia pensar em perguntas e fazer que as contestasse. At que... apareceria Gage? Poderia Frank  entrar em contato com ele? 
-De maneira que os trs trabalharam juntos. 
-Fields, no... odiaria dar-lhe mritos diante, porque respeito sua mente. Nada mais  do que um peo til que desconhece o que se passa. E se  faz alguma idia, 
  bastante inteligente para fingir que no sabe - encolheu os ombros-. Quando chegar o momento, levaremos  luz a informao da Fazenda e tudo o que voc descobriu. 
Ningum ficar mais surpreso  que Fields. Como serei eu quem vai desmascar-lo, com todo meu pesar, no  ser difcil ocupar seu cargo logo em seguida. Como um trampolim.
-No vai funcionar. No sou a nica que  sabe.
-Guthrie -Jerry cruzou os dedos sobre os joelhos-. Penso em me ocupar dele tambm. Faz quatro anos ordenei a Montega que o eliminasse, e o trabalho ficou incompleto. 
-Voc- sussurrou- Voc ordenou? 
-Arlo deixou para mim os detalhes  adiantou-se para que s ela pudesse escut-lo-. Eu gosto dos detalhes... como aqueles os quais dedica seu noivo nos momentos 
livres -sorriu ao v-la empalidecer-.  Foi voc que me conduziu at ele, Deborah. 
-No sei o que quer dizer. 
-Sou um bom juiz de pessoas. Tenho de ser. E voc  muito previsvel. Voc, uma mulher inteligente, ntegra e de lealdades apaixonadas, relacionada com dois homens? 
No parecia provvel. Esta noite soube o que estava  suspeitando h semanas. S h um homem, um homem que teria reconhecido a Montega, um homem que teria conquistado 
seu corao, um homem com suficientes motivos para me perseguir com fanatismo   deu tapinhas em sua mo diante de seu silncio-. Ser nosso pequeno segredo. Eu 
gosto de segredos -ao levantar-se, seus olhos recuperaram a frieza-. E ainda que eu lamente de verdade, s um de ns dois poder sair esta noite daqui com esse segredo. 
Pedi a Montega que seja rpido. Pelos velhos tempos 
Ainda que o corpo tremesse ela se ordenou levantar. 
-Aprendi a acreditar no destino, Jerry. No ganhar. Ele se encarregar disso. Pode me matar, mas ele cair sobre voc como a Fria. Acredita que sabe tudo sobre 
ele, mas no  assim. No o tem e jamais o ter em seu  poder. 
-Se lhe servi de consolo -se afastou de Deborah-, no o temo... no momento. 
-Est enganado. 
Todos os presentes se voltaram ao ouvir a voz. No viram nada mais que paredes nuas e madeiras empilhadas.  Ao ouvi-la Deborah sentiu os joelhos amolecerem e estava 
a ponto de cair ao cho.
Ento tudo deu a impresso de acontecer ao mesmo tempo.
Um guarda prximo de uma parede se dobrou para trs com expresso surpresa. Enquanto seu corpo se debatia, a submetralhadora que sustentava comeou a cuspir balas. 
Os homens gritaram e procuraram refgio. O guarda gritou e caiu ao cho. Seus prprios homens o abateram. 
Lanando-se por trs de algumas prateleiras, Deborah procurou com frenesi algum arma. Suas mos encontraram uma barra de metal; retrocedeu, disposta a defender-se. 
Ante seus olhos atnitos, viu como  um guarda aterrorizado tinha sua automtica arrebatada. Louco pelo medo, fugiu aos gritos. -Fique aqui -flutuou a voz em sua 
direo.. 
-Graas a Deus, pensei que... 
- Apenas fique aqui. Depois eu me ocuparei de voc. 
Permaneceu quieta com a barra entres as mos. Nmesis voltou, pensou com os dentes apertados. E to arrogante como de costume. Afastou uma caixa e espiou o caos 
que reinava do outro lado. Ficavam cinco homens... os guardas, Montega e Jerry. Disparavam de forma indiscriminada, to assustados quanto confusos. Quando uma das 
balas alojou-se na parede a menos de um metro dela, baixou a cabea. 
Algum gritou. O som fez que fechasse os olhos. Uma mo lhe agarrou o cabelo, obrigando-a a levantar-se.
-Quem ? -sibilou Jerry em seu ouvido. Ainda que lhe tremesse a mo, a segurava com firmeza-. O que, diabos,  aquilo?
- um heri -o olhou em um gesto desafiante-. Algo que voc jamais vai compreender.
-Ser um heri morto antes de que isto termine. Vem comigo - se plantou diante dela-. Se tentar algo, eu a matarei e correrei o risco. 
Deborah respirou fundo e fincou a barra no estmago. Quando ele se dobrou, saiu correndo, esquivando de bancos e prateleiras. Jerry se recobrou com rapidez e esticou 
a mo para agarr-la pelo tornozelo. Amaldioando, ela lhe deu um pontap, sabendo que a qualquer instante poderia sentir uma bala nas costas. Escalou algumas madeiras 
empilhadas, convicta de que conseguiria se por a salvo para que ele no pudesse utiliz-la como escudo. 
Ouviu-o segu-la, ganhar terreno  medida que recuperava o flego. Desesperada, imaginou-se que era um lagarto, veloz e seguro, aderindo-se  madeira. No podia 
cair. A nica coisa que sabia era que no podia cair. Sem senti-las, as lascas se fincavam em seus dedos.
Com todas suas foras, arrojou-lhe a barra. Deu-lhe num ombro, detendo-o enquanto amaldioava. Sem olhar para atrs, apertou os dentes e saltou desde a madeira at 
uma escada de metal. As mos suadas escorregaram, mas conseguiu se agarrar e subir at o seguinte nvel. Respirava ofegante enquanto corria pela passarela de metal 
cheia de rolos de material isolante e de construo. 
 Mas no tinha aonde ir. Ao chegar ao outro extremo, viu que se achava cercada. Jerry j estava quase na passarela. No podia descer, nem sonhava em saltar a altura 
de quase dois metros at o um estrado de ao que estava sobre ela.
Ele respirava de forma entrecortada e o sangue gotejava de seu boca. Brandia uma pistola na mo. Deborah deu um passo inseguro para trs, estudando os quinze metros 
que a separavam do solo, onde Nmesis  enfrentava trs homens. Compreendeu que no podia cham-lo. Distra-lo nesse instante podia representar sua morte. 
Voltou-se e  enfrentou o homem que tinha acreditado ser seu amigo. 
-No me usar para chegar at ele. 
-De um modo ou outro -com o dorso da mo  limpou o sangue da boca. 
-No -voltou a retroceder e esbarrou em um gancho pesado preso a uma corrente. Era grossa e pesada, e no ato compreendeu que a usavam para elevar os materiais pesados 
ao nvel seguinte de armazenamento-. No -repetiu e, com todas as suas foras, empurrou a corrente contra o rosto de Jerry 
Ouviu o som de ossos se quebrando. Depois seu grito, um grito horrvel antes de que ela mesma cobrisse o rosto com as mos.
S lhe restava Montega quando Nmesis levantou a vista e a viu, branca como um espectro, oscilando na borda de uma passarela estreita de metal. No dedicou nem uma 
olhada ao homem que tinha cado dando gritos sobre o cimento. Ao correr para Deborah ouviu que uma bala assobiava junto a sua cabea. 
-No! - Deborah gritou l de cima-. Atrs de voc para alvio dela e para incredulidade para Montega, viu que ele desviava-se para a esquerda e desaparecia. 
Com cautela, desejando distrair a ateno de Montega sobre Deborah, Nmesis avanou ao longo da parede. Dizia algo e depois se afastava  esquerda ou  direita, 
antes de que o outro pudesse apontar a arma que sustentava com as mos trmulas. 
-Vou matar voc! -dominado pelo terror, Montega disparou uma e mais outra vez contra as paredes-. Vou faze-lo sangrar. O matarei!
No apareceu at ter certeza que Deborah se achava em segurana abaixo, escondida entre as sombras, quando reapareceu, estava a dois metros de Montega. 
-J me matou em  uma ocasio -apontou com firmeza para o corao do outro. S tinha que apertar o gatilho e tudo terminaria. Acabariam quatro anos de seu inferno. 
Mas viu a rosto dela, plido e brilhante pelo suor. Devagar, relaxou o dedo do gatilho-. Voltarei para procur-lo, Montega. Vai dispor de muito tempo para se perguntar 
por que. Jogue a pistola no cho. 
Mudo, obedeceu. Com andar mais seguro, ainda que plida, Deborah avanou para recolher a arma no cimento. 
-Quem   voc? -quis saber Montega-. O que ?
Deborah lanou um grito de advertncia quando Montega meteu uma mo no bolso. 
Mais dois disparos rasgaram o ar. Enquanto os ecos ainda soavam, Montega caiu sem vida no solo. Sem tirar os olhos de em cima dele, Nmesis se aproximou. 
-Sou seu destino -sussurrou, depois se voltou para abraar Deborah. 
-Disseram que tinham voc. Que iriam mat-lo. 
-Deverias ter confiado em mim -a fez girar, decidido a proteg-la da morte que os rodeava. 
-Mas estava aqui -disse, detendo-se-. Por que? Como  sabia? 
-O fio condutor. Sente-se, Deborah, est tremendo. 
-Tenho  a impresso de que dentro de um minuto ser de fria. Sabia que eles estariam aqui esta noite. 
-Sim, sabia. Sente-se. Deixe-me trazer um copo de gua para voc.
-Para, para com isso agarrou a manga de  sua camisa com ambas mos-. Sabia  e no me disse nada. Sabia que Stuart e Jerry estavam envolvidos.
-Ento,  o que fazia aqui? 
-Consegui entender o padro faz alguns dias. Cada entrega tinha se realizado em um edifcio de propriedade de Stuart. E cada entrega se realizava com menos de duas 
semanas de diferena numa zona diferente da cidade. Dediquei algumas noites para me focar em outros pontos, mas terminei por reduzi-lo a este. E no contei para 
voc -acrescentou quando seus olhos o queimaram-, porque queria evitar exatamente o que aconteceu nesta noite. Maldita seja, quando estou preocupado por voc, no 
posso me concentrar. No posso realizar meu trabalho. 
-V esse anel? -estendeu a mo-. Voc me deu a poucas horas atrs. Uso ele por que eu te amo e estou me ensinando a aceit-lo,  junto com seus sentimentos e suas 
necessidades. Se no  capaz de fazer o mesmo por mim, ter que ser. 
-No se trata de fazer o mesmo... 
-Pois  certo que sim. Esta noite matei um homem sua voz tremeu, e o afastou quando ele quis voltar a abra-la-. Matei a um homem que eu conhecia. Esta noite vim 
aqui pronta e disposta no s para mudar minha tica por voc, mas tambm trocar minha vida pela sua. No volte a me proteger, mimar e pensar por mim, jamais.
-Terminou? 
-No  apoiou-se em uma cadeira-. Sei que no vai deixar  de fazer o que faz. Que no pode. Me preocuparei por voc, mas no vou me colocar em seu caminho. E voc 
tambm no vai se colocar no meu. 
-Isso  tudo? -assentiu. 
-Por hora sim. 
-Voc est certa. 
Deborah abriu a boca, fechou-a outra vez e por fim suspirou. 
-Quer repetir? 
-Tem razo. Ocultei coisas de voc, e em vez de lhe proteger, a fiz correr  mais riscos. Por isso, sinto muito. E eu acredito que deveria saber que eu no ia mat-lo 
-olhou a Montega, mas impediu  Deborah pelo ombro antes de que ela pudesse fazer o mesmo-. Eu desejava mat-lo. Durante um instante, vi sua morte. Mas se ele tivesse 
se entregado, o teria deixado nas mos da polcia. 
-Por que? -perguntou ao ver a verdade em seus olhos. 
-Porque a olhei   e soube que podia confiar que faria  que  tivesse que ser feito para lhe dar a justia -estendeu uma mo-. Deborah, preciso uma parceira.
-E eu de um parceiro. -sorriu e em vez de aceitar-lhe a mo, jogou-se em  seus braos-. Nada vai nos deter- murmurou. Na distncia, ouviu as sirenes-. Acho que  
Frank com a cavalaria -com um suspiro, afastou-se. O beijou. - Conversaremos depois. Em casa.  melhor voc ir agora - Fazendo um gesto de assentimento ele deu um 
passo para trs.
- Vai ser necessrio um bom advogado para explicar isto. 
Ao ouvir o som de passos, ele desapareceu na parede que tinha  atrs dela
-Estarei aqui. 
Deborah sorriu e passou uma mo pela parede, sabendo que ele fazia o mesmo do outro lado, nas sombras. 
-Estou contando com isso.

Fim
Ps.  o fim mesmo!!! No fique com essa cara.

Este e-book foi traduzido e corrigido com muito esforo e carinho pelo Projeto_romances. Encontrando erros podem mandar e-mails para projeto_romances@yahoo.com.br

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Nigth Tales 01- Ronda Noturna
Nigth Tales 05- Paixo Obscura
